Terrorismo marginalizado versus Terrorismo Legitimado
Fabiana Madruga
Ainda essa semana, me peguei assistindo em um canal de notícias da tevê a cabo, uma entrevista com um suposto especialista em um assunto que, cada vez mais, garante sua presença em noticiários, conversas banais, Hollywood e até piadas de humor negro: o terrorismo. O diabinho da minha crítica incessante chegou a me fazer questionar o que tornaria alguém especialista em terrorismo apenas pela teoria, mas juntei minha pouca crença e dei crédito ao senhor bem vestido, que falava um inglês carregado de um sotaque cuja origem não consegui identificar.
Minha atenção estava completamente voltada para o que aquele homem tivesse a me acrescentar. Nada de muita consistência parecia fluir junto com suas muitas palavras que lembravam o discurso de sempre: vazio, prolixo, desnecessário. Até a reta final da entrevista, não tinha nada contra aquele estrangeiro de óculos, além da sensação de que seu vasto conhecimento não havia tido vontade de dar as caras naquele dia. Nada a perder, nem nada a ganhar, até que veio aquele momento.
A jornalista, que naquele instante se revelou uma grande profissional, pouco satisfeita com aquele zero a zero, lançou a pergunta sem mais nem menos. Questionou aquele senhor sobre o motivo que tinham os Estados Unidos para acusarem Cuba de terrorismo, e se havia de fato algum ato terrorista que tivesse sido praticado pelo regime de Fidel Castro. Pausa. Era como se o que ela disse tivesse vindo junto com uma espécie de gás paralisante. O tal especialista de tantas palavras produziu um longo, profundo e perturbador silêncio. Agia como quem revira gavetas, pastas, armários, caixas e tudo mais, desesperado para encontrar algo que pudesse lhe servir de resposta naquele instante.
Por motivos óbvios, sua busca foi em vão. No vazio em que se viu, poderia ter sido honesto e dito algo minimamente decente: a verdade. Que Cuba não tinha praticado nenhum ato terrorista de que se soubesse; que o governo americano já era useiro e viseiro em fazer acusações levianas, que tinham a mesma solidez de uma paçoca; que desconhecia o assunto não se sentindo em posição de debatê-lo; poderia simular um desmaio, um ataque epilético, um derrame, mas não. Aquele homem, naquele momento, optou pelo caminho cujo destino era a total destruição de sua autoridade no assunto, de sua inteligência e de sua integridade enquanto profissional. Ele disse, baixinho e lentamente, como se sentisse culpado pelo que saía de sua boca, que Cuba não foi diretamente responsável por nenhum ato terrorista na história, mas que o regime de Castro poderia ser considerado terrorista por ter sustentado e apoiado organizações desse cunho, como as Farc, os Sandinistas, Zapatistas e,por fim, o Sendero Luminoso.
A entrevista chegou ao fim logo depois. No entanto, aquelas palavras ficaram suspensas no ar, dando origem a qualquer raciocínio crítico que pudesse encontrar a freqüência delas e descobrir bem mais do que elas quiseram explicitar.
Então Cuba é acusada pelos Estados Unidos de manter, ou pelo menos manifestar apoio a certos grupos de luta armada, que fazem da liberdade verdadeira e da justiça social sua bandeira. Então os grupos mencionados podem, todos, enquadrar-se perfeitamente no conceito de terroristas. Por quê? O que difere um movimento de libertação de uma facção terrorista? Quais são os limites entre a luta justa, a defesa de direitos vitais que vêm sendo violados por inúmeros anos, inúmeras vezes, e o ataque condenável a inocentes? Que linha separa os nobres heróis nacionais dos monstros sanguinários que vemos na televisão?
Dizer que um determinado ato, ou um determinado grupo tenha caráter terrorista é uma acusação demasiadamente séria, que, na maioria das vezes, é fruto de um julgamento pobre, impensado e maniqueísta. A mídia colabora com esse tipo de rotulação irresponsável quando parece deixar bem claro o seu critério de distinção: terroristas são eles, heróis somos nós. Essa xenofobia, apesar de imunda e sufocante, encontra meios de difusão e seguidores em massa. Cada vez mais pessoas seguem a linha de raciocínio (?) que aponta como terroristas aqueles cuja língua, cujos hábitos, cuja história e, principalmente, cujos motivos não conseguimos entender (e nem nos esforçamos para tentar). Na verdade, o que está por trás desse tipo de pensamento é que os "terroristas" são aqueles que representam ameaça aos reais e nem sempre heróicos interesses de quem está no comando.
Se eu ainda estivesse muito disposta a manter alguma espécie de respeito pelo que o especialista do começo do texto tivesse a declarar, poderia até considerar todos aqueles grupos citados como inquestionavelmente terroristas. No mesmo impulso, poderia dizer que não há suspeitas de que a ilha de Castro tenha apoiado esses grupos, e sim evidências. Por fim, nem respiraria antes de concluir através de uma lógica Aristotélica que, por ter bancado terroristas, Cuba é um país terrivelmente terrorista. Toda a minha ideologia ainda sangra, mas não me impede de concluir esse raciocínio que está apenas em seu início.
Se sustentar o suposto terrorismo é ser também terrorista, ora, ora, quem diria, Cuba não está sozinha. O até então marginal e esquisito clube dos terroristas passa a contar, entre seus membros, países tão elegantes e ricos que até passa a receber figuras Reais e políticos conceituados. Passa a contar com a presença de uma determinada organização internacional e, acima de tudo com aquele que passa a ser seu membro mais importante. Não pela posição que até aquele momento ocupava no mundo contemporâneo, mas por ser o maior colaborador, incentivador e praticante do terrorismo. Esse tal país, vem por anos bravamente acendendo barris de pólvora por onde passa, criando e armando inimigos, bancando ditadores que depois de bem graúdos, diverte-se em enfrentar. Irã, Iraque, ambos foram crias militares dessa potência do terror. Israel é outra filial muito querida. A América Latina talvez seja um de seus campos de atuação favoritos. Lá, derrubou democracias e presidentes devidamente eleitos para implantar longas e assassinas ditaduras militares, em diversos países, deixando um rastro de sangue, medo, corrupção e lacunas imensas, deixadas por verdadeiros heróis mortos e valentes seguidores massacrados. Esse país, apesar de ser responsável pela maior parte do terrorismo que há no mundo atualmente, ainda justifica a continuidade e agravamento de seus atos fazendo-se de vítima do terrorismo que pratica. Alega retaliação, aproveitando-se de uma fagulha ocorrida dentro de seu território para prosseguir impune com seu incêndio de proporções sem fim ao redor do mundo.
Esse país, ao assumir o assento principal no clã terrorista, demoraria para escolher dentre tantos, aquele que seria seu ato mais importante, o que simbolizaria melhor seu caráter. Então, algum outro membro menos ignorante, e de memória mais fresca, lembraria a essa tal nação que nenhum outro ato representaria melhor a palavra terrorismo em toda a história do mundo quanto a bomba atômica que fez surgir o episódio mais triste, a cicatriz mais feia do curso da humanidade: a destruição covarde, criminosa e sem precedentes de Hiroshima e de suas seguintes gerações que, inocentes, pagaram pelo que jamais fizeram.
É claro que estou falando dos Estados Unidos da América, que, de tão pouca inteligência e sede pela destruição de seus inimigos, criou um pensamento que coloca a eles mesmos na posição de maiores representantes daquilo que dizem repudiar. Não posso deixar de parabenizar essa grande nação e dizer que nisso sim, é a maior e melhor do mundo. Esse texto não chega ao fim sem antes deixar uma sugestão a nossos amigos yankees.
Combatam o terrorismo, mas façam da forma mais definitiva e competente para que ele não deixe nada de si para a posteridade. Acertem na veia. Usem seus modernos e incríveis armamentos para atingir o coração da Quimera, o calcanhar de Aquiles, o peito da maior nação terrorista do mundo. Destruam-se como costumam aniquilar os inimigos que elegem, e só então, conseguirão atingir o suposto objetivo de livrar de vez o mundo da sombra do terrorismo.
Assista: À mega produção de Hollywood "Pearl Harbor", e divirta-se com o discurso do então presidente americano que serviu de justificativa para o lançamento da bomba atômica no Japão.
Leia: "Crime e Castigo" de Fiodor Dostoievski, e tente dilatar os limites que se têm dos conceitos de crime e de suas justificativas plausíveis e pouco ortodoxas.
Ouça: The Clash! A música deles esteve quase sempre relacionada à críticas políticas e sociais. A arma estava quase sempre apontada para a Inglaterra ou para os Estados Unidos. Para ir pontualmente ao assunto, comece por "Spanish bombs" e "Death or glory".
Faça: Pesquise sobre a influência dos Estados Unidos na história da América Latina a partir do início do século XX. O neocolonialismo, a derrubada de governos e lideranças de cunho socialista no México, no Chile, na Nicarágua, na Guatemala, no Haiti, no Brasil. Procure saber mais sobre o domínio dos Estados Unidos sobre Cuba até a época de Fulgêncio Batista, o presidente derrubado pela revolução Castrista de 1959. Sobre a ligação dos Estados Unidos com a morte de Salvador Allende, Che Guevara e tantos outros. Sobre a relação dos Estados Unidos com países do Oriente Médio que depois quiseram destruir. Sobre Guantánamo, sobre a ONU, sobre a bomba atômica em Hiroshima, sobre a Guerra Fria. Saiba mais sobre essa nação antes de pensar em aceitar como verdade o que ela diz ou defende, antes de tomar outro copo de Coca Cola, antes de voltar ao Mc Donald´s.
Quem sou eu?
Meu nome é Fabiana Maria Pereira Madruga, sou uma sagitariana nascida em 1980, criada em Copacabana, Rio de Janeiro, Brasil. Ao longo de meus anos de vida, fui me tornando uma porção de coisas que complementam mas não definem o que sou. Comunista, vegetariana, tricolor, leitora de Kafka e de muitos outros, fã de Chico Buarque de de muitos outros, louca pro Serguei Eisenstein e por muitos outros, discípula de Marx e de tantos outros que ousam pensar no que deve ser, e não em ser como se diz que devem. Sou dos que não têm vergonha do sonho, e sim de não tentar torna-lo realidade.
Estudei Direito, estudei História, estudei Relações Internacionais, estudei línguas, filosofia, religiões. Alguns estudos ainda sigo, outros abandonei com a promessa de voltar um dia, outros concluí.
Trabalhei com coisas tão diferentes que posso ser vista como incoerente. A verdade, é que nunca me preocupei com o risco de ser rotulada por nada que faço, fiz ou venha a fazer.
O que sou na verdade é o que escrevo. Isso sim, me traduz, me entrega, me define, desenha, delineia.
Com isso, posso dizer que tenho um prazer enorme em que me conheçam tão a fundo, porque é isso que faz cada um que lê o que minhas linhas dizem. |