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'...Macaé, ano I, Nº 46 - 15 a 22 de dezembro de 2006
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Uma educação inovadora e transformadora:
compreensão das idéias do educador Paulo Freire

O que constitui as sociedades são fatores culturais e históricos; ideologias a serem seguidas. Lutar contra tendências sociais é um grande desafio, principalmente em um país como o Brasil cuja cultura está ligada a um regime que impõe a segregação das classes entre dominante e dominada. Os que dominam encontram-se em uma inabalável superioridade, são detentores de todo conhecimento e são responsáveis pela construção da educação. Os dominados são classificados como meros receptores e tendem a agir como a classe dominante deseja. Esta relação de domínio é controlada pelo capital, portanto, é desinteressante para os dominadores que haja uma conscientização dos subordinados de que sua situação de dependência poderia ser reversível.

A sociedade brasileira é caracterizada pelas fortes relações de domínio e submissão o que contraria a idéia de um país democrata. Transformar esta situação de desigualdades pode ser algo alcançável, utilizando idéias inovadoras; idéias que visam o progresso através da educação, como Paulo Freire visava.

Todo o esquema da ideologia elitista da sociedade brasileira poderia (e pode) ser desfeito e, Paulo Freire pôde constatar isto. De maneira subliminar, as classes superiores moldam o pensamento geral das classes inferiores, ou seja, supostamente pensam no que alguém quer que pensem. Para os que não possuem poder aquisitivo, o privilégio de ter suas próprias idéias pode ser ameaçado.

Paulo Freire lutava contra este elitismo; era um idealizador de uma sociedade mais justa. Para que se alcançasse esta justiça social, seria necessário um rompimento de padrões o que contrariaria interesses da parcela concentradora do poder já que este é herdado de uma história marcada por exploração.

A composição da cultura brasileira é conseqüência de um passado colonial explorado ao máximo que, por conseguinte, formara um povo aparentemente submisso a pensamentos; possuidor de um senso comum inferior segundo a elite.

Esse modo de pensar da maioria faz parte do contexto cultural da nação. Paulo Freire que fazia parte da elite, contrariava a ideologia elitista e assumia uma postura de respeito às demais culturas. Este grande educador respeitava o senso comum dos educandos de maneira que este fosse um ponto de partida para idéias mais complexas.

Para Freire, o processo educacional não deveria derrubar o conhecimento popular. O correto seria através dele chegar a um conhecimento científico, portanto, conhecer o universo dos educandos deve ser uma obrigação dos educadores. A docência deve ser iniciada por um estudo antropológico, pois é essencial ao processo educacional que o docente esteja interado ao meio de seus aprendizes e, seja capaz de compreender as diferenças existentes entre as pessoas.

Todo educador deve compreender as divergências culturais sem subestimá-las, pois classificar uma cultura como inferior, é assumir uma postura elitista segundo Freire. O processo educacional deve ser criado e para que esta criação aconteça, o educador não deve tentar superar os saberes populares e sim, usá-los para que os educandos possam obter novas visões.

A educação é utilizada como um instrumento da elite para a manipulação das massas. O objetivo desta seria transformar os educandos em meros receptores, incapazes de uma visão mais ampla de seu meio. A escola tradicional está englobada neste contexto, pois tende a formar indivíduos alienados e sem voz ativa.

O ato de educar envolve normas pedagógicas que são aplicadas com o propósito de que haja o desenvolvimento do indivíduo. Porém, a opressão tradicionalista formara uma escola esmagadora de opiniões que, atende aos interesses da nata. Sendo assim, o ato de lecionar é marcado pelo poder centralizado do docente que apenas transmite aos discentes as informações que aprendera e ocupa-se em aniquilar qualquer senso crítico.

A ideologia freireana contraria as tradições educacionais, pois defende a liberdade do educando e não impõe a superioridade de nenhum agente do processo educacional. A educação deve ser baseada em todos os componentes do mundo e isto envolve docente e discente. Logo, o educador não é o possuidor de toda a sabedoria e está suscetível a aprender com seus pupilos.

As teorias freireanas defendem o respeito às diversas manifestações culturais e a utilização das mesmas para que se atinja um conhecimento científico. Então, a prática pedagógica torna-se uma troca de informações em que ocorre um aprendizado mútuo. Estas idéias progressistas defendem a valorização do ser humano, dando a ele liberdade para se expressar e para absorver todas as informações que, em geral, são omitidas.

Partindo dessas teorias, a prática educativa tornar-se-ia descentralizada logo, esta seria feita em comunhão e utilizando a heterogeneidade das culturas presentes em uma classe escolar como principal instrumento. Esta teoria foge dos padrões da escola tradicional, pois esta está firmada na crença de homogeneidade no processo educacional. Freire constatara o quão frágil são estes princípios quando se parte para a prática de lecionar.

A escola tradicional possui uma estrutura centralizada e métodos pré-estabelecidos de ensino. Porém, as teorias freireanas defendem uma prática educacional que foge dos padrões, utilizando a cultura dos educandos nos processos de aprendizagem. Logo, definir uma metodologia de ensino, seria contraditório, pois nenhum ambiente escolar se iguala a outro em sua composição.

De acordo com essa concepção de Freire, definir uma estratégia de ensino-aprendizagem, não seria eficaz. O correto seria realizar uma análise antropológica e a partir desta, construir a educação.

Analisar o contexto social dos educandos seria uma etapa denominada leitura de mundo por Paulo Freire. Esta é seguida por um processo de conscientização que é denominado leitura da palavra. Simplesmente, a docência deve ser iniciada do que o discente sabe e chegar a horizontes desconhecidos pelo mesmo.

Esse modelo educacional freireano valoriza a cultura popular e suas manifestações. Diferentemente dos ideais elitistas, não invalida nenhum conhecimento. Logo, a sabedoria do povo não deve ser reconhecida como uma forma de alienação e sim como uma maneira de resistência.

A cultura popular é resultado de fatores ambientais e históricos. Portanto, as diversas manifestações populares são maneiras criadas para resistir; sobreviver em meio de tanta opressão. A sociedade brasileira tem em sua formação um povo oprimido; considerado acomodado e alienado. Segundo Freire, esta suposta acomodação é uma forma de luta; uma obediência que é necessária.

A nação brasileira é composta por um povo que sempre enfrentou dificuldades, porém sempre buscou a liberdade e a igualdade. Para que adquiram verdadeiramente estes direitos, é necessário que haja uma transformação social e esta deve ser feita através da educação.

Metamorfosear o sistema brasileiro, utilizando o modelo nacional pedagógico, seria impossível, pois este não tem o propósito de incentivar a conscientização geral. Seria necessário inovar para que pudesse ocorrer uma real modificação na sociedade, ou seja, recriar a educação.

As teorias freireanas são ideais para transformar a sociedade, pois são aplicáveis à realidade brasileira. Os métodos educacionais pré-estabelecidos utilizados nas escolas, não proporcionam a formação de criadores, pois são totalmente presos aos conteúdos. Formar receptores e repetidores, não torna possível transformar o meio.

As idéias de Paulo Freire possibilitariam a modificação do contexto social brasileiro, pois são baseadas em um mundo real; em pessoas reais. A transformação da educação deve anteceder uma mudança geral.

A escola deve conduzir ao conhecimento, porém não deve limitar qualquer componente do processo educacional, seja ele o educador ou o educando. Desenvolver o indivíduo é uma tarefa a ser construída a partir dele mesmo e, a partir do desenvolvimento pessoal, modificar o mundo.

A transformação da sociedade brasileira deve ser iniciada nas salas de aula, em uma escola incentivadora e não formadora de opiniões. As mudanças só seriam possíveis através de uma educação inovadora, desprendida de padrões como Paulo Freire acreditava.


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