
Clarissa em Bruxelas, lá onde a bruxa é ela!

Desconfie deste ar angelical. Três anos morando em Paris e vapt-vupt : savoir-faire assimilado. Aprendi a ser mal-humorada, crítica, irônica e pernóstica. Virei mestra na arte de reclamar até do que está bom e de bufar no metrô. Tudo isso sem jamais perder a classe, pois digo sempre excusez-moi, da maneira mais grosseira possível, claro.
Brincadeiras a parte, mas quatro meses (na)morando em Bruxelas e já posso dizer que estou apaixonada por ela. Larguei Serge Gainsbourg e Asterix, e agora sou amante de Jacques Brel e de Tintin.
Como ainda trabalho na terra da baguette, faço ida e volta uma vez por semana na minha « T ão G rande V assoura » o TGV! Esta maravilhosa invenção que liga as duas capitais em apenas 1h20min.
Ah, bendito TGV, obrigada por existir! É graças a ti que posso viver num país e trabalhar em outro. E que felicidade sinto quando deixo a Gare du Nord em Paris e sou recebida pelo cheiro de gaufre quente da Gare du Midi, em Bruxelas. Sinto-me como uma adúltera que chega para visitar o amante, pois meu coração bate mais forte quando o trem se aproxima.
Como é bom morar num duplex de estilo Art Nouveau, pelo mesmo preço que eu pagava num 37m2 no quinto andar sem elevador em Paris. É incrível como um novo amor nos faz ver todos os defeitos daquela por quem antes éramos apaixonados.
Em Bruxelas, se por acaso cruzo um olhar na rua, recebo de volta um cordial bonjour, que saem de lábios sorridentes. Tão diferente de Paris, que não gosta de comunicar, que não olha nos olhos de quem a admira e que sofre com a nostalgia da sua grandeza. Como diz a cantora francesa Camille: « C'est finie, Paris »!
A belle-époque de Renoir ja não existe mais. Viva o surrealismo de Magritte !
Delícia foi visitar o museu René Magritte, que fica na casa onde o pintor viveu durante 24 anos. Foi na discrição deste endereço que Magritte desenvolveu o período mais criativo de sua historia, dando vida a grande parte de suas obras.
Não espere encontrar no Museu muitos chefs-d'ouvre . O Museu conta com apenas três quadros originais do pintor. O mais interessante desta visita está em reconhecer elementos que fizeram parte de quadros do pintor, como, por exemplo, a janela em guilhotina, a lareira, as escadas, etc. Durante a visita reconhecemos também vários outros objetos que, num golpe de vista, encontramos em alguma obra deste que foi o maior criador de imagens do século XX.
A visita tem ainda uma peculiaridade: o surrealismo se encontra também nas pessoas que lá trabalham (cá entre nós, tá?). Vale a pena conferir.
Depois desta pequena introdução que homenageia a querida Bruxelas, vamos ao assunto pelo qual fui gentilmente convidada pela Cida Garcia para explanar nesta coluna.
Yôga e croissant!

Não foi fácil começar a lecionar Yôga na França. Os franceses tinham uma visão deturpada do que é Yôga e isso fez com que a maioria das pessoas não gostasse nem de ouvir falar no assunto. Segundo informações da própria Federação Francesa de Yoga, a França teve uma invasão de charlatães e falsos gurus nos anos passados que se apropriaram do nome Yôga, fazendo com que as gerações seguintes tivessem medo desta filosofia.
Ainda hoje, o Yôga mais popular na França é o de linha Vêdanta, místico e espiritualista. O que não combina com o caráter crítico, desconfiado e até mesmo cético dos franceses. Que bom pra mim, pois o tipo de Yôga que ensino é completamente o oposto deste. Por isso, logo fui conquistando meu espaço, pois ministro um Yôga Sámkhya, ou seja, naturalista, ateísta, que separa bem teologia de filosofia. Não faço apologia ao ateísmo, longe de mim. Mas misticismo e espiritualidade não fazem parte das origens do Yôga. O Yôga mais antigo era Sámkhya, logo, não místico e não espiritualista.
Um dos maiores estudiosos do Yôga Sámkhya (Dakshinacharatántrika-Niríshwarasámkhya Yôga) é um brasileiro que se chama DeRose.
DeRose é reconhecido e respeitado pelos grandes estudiosos do ramo. É um privilégio ser sua discípula.
Não esqueço da reação de um grupo de alunos franceses quando tiveram sua primeira aula de SwáSthya Yôga, o método codificado por DeRose. Trinta pessoas numa sala, todas vindas de tipos de Yôga diferentes, pois eu estava substituindo uma professora que gozava suas férias. Sem falsa modéstia, amigos, que bom foi poder mostrar meu trabalho para um grupo que era fiel a outra professora e outro método há mais de dez anos. Que orgulho por ser aceita e inclusive convidada a substituí-la, mesmo depois de suas férias, infelizmente para ela. Sem culpa nenhuma, foi a chance que eu precisava para mostrar meu trabalho, tudo o que aprendi com meu Mestre, com simplicidade, mas com a excelência técnica de quem aprendeu com o DeRose.
Yôga e chocolate!
Mal cheguei à Bélgica e já estou trabalhando por essas bandas de cá. Já tinha como superada uma suposta barreira, que seria a língua, já que moro na parte francófona do país, em Bruxelas.
A capital da Europa, tem uma arte de viver incomparável. É uma c idade moderna, mas de um "tamanho humano", e por isso, acaba sendo fácil sentir-se em casa. Quando aqui cheguei, parecia até que éramos velhas amigas, daquelas que chegam e já vão abrindo a geladeira da casa uma da outra.
A importância do contato entre profissionais de uma mesma área é fundamental. E no meu caso, isso foi decisivo. Foi graças a instrutores de SwáSthya Yôga espalhados pelo mundo a fora, que já estou formando meu grupo de praticantes por aqui. Uma verdadeira rede de apoio, que indica novos alunos e que divulga meu trabalho. Pessoas que têm um mesmo ideal e que, assim como eu, desenvolvem este trabalho de divulgação do Yôga Antigo em vários outros países. Apesar de estarmos longe, temos o Yôga que nos une e o Yôga (assim como o chocolate) faz a força.
A autêntica arte, só é ensinada de Mestre a discípulo, nada deve ser aprendido só por livros. Os livros são instrumentos, mas o verdadeiro conhecimento só um Mestre pode passar.
Não sou Mestre de Yôga e muito menos Mestre Cuca, mas para encerrar o assunto deixo aqui uma receitinha de gaufre com toque das especiarias indianas.
O gaufre está para os belgas assim como o crepe esta para os franceses e a pamonha para os brasileiros. Também conhecido como waflle, esse bolachão macio cheio de quadradinhos, é uma perdição. A consumir sem moderação!
Gaufre Yôga
Ingredientes
125 gr de farinha
250 ml de leite
50 gr de açúcar
100 gr de manteiga derretida
4 ovos
10 gr de sal
Cardamomo bem moído (uma colher rasa de café)
Canela em pó
Preparação
Ferva 1/4 de litro de leite com o cardamomo moído e deixe amornar.
Num outro recipiente, coloque 125gr de farinha, misture as 4 gemas, o sal e uma colher de café de açúcar.
Coloque o leite e as 100 gr de manteiga derretida.
Misture bem, até obter uma massa bem lisa, onde você colocará as quatro claras em neve (misture cuidadosamente, para não estragar a mousse das claras que devem estar bem firmes).
Faça esquentar o aparelho à gaufre untado de manteiga numa posição média.
Vire a preparação líquida e faça dourar as duas partes.
Sirva quente com geléia, morangos, chocolate derretido ou sorvete, e não esqueça de salpicar com a canela, humm!
Bon apetit! |