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...Macaé, ano I, Nº 27 - 28 de julho a 4 de agosto de 2006
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Vanguarda Popular Revolucionária

"... Quem sabe faz a hora, não espera acontecer..."
Geraldo Vandré

Antonio Raymundo Lucena .

A VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) foi uma das organizações de esquerda que lutaram contra a ditadura que mais se destacaram no período 68/71. Foi uma organização formada por dissidentes da POLOP (Política Operária) e antigos militares brizolistas do MNR (Movimento Nacionalista Revolucionário) seu agrupamento inicial começou em 1966, com o ex-sargento do exército Onofre Pinto, por trás de sua articulação. Foi Onofre que comandou a execução do capitão norte-americano Charles Rodney Chandler , em 1968 , este que era acusado de ser "professor" de tortura à militares brasileiros.

Muito bem! O ano de 1968 termina e com ele a decretação do AI-5, o que leva muitos brasileiros a cair na clandestinidade. E foram estes corajosos brasileiros que entraram para grupos armados de esquerda com o sonho de derrubar o regime militar. Foram muitos os grupos que lutaram contra a ditadura. Hoje falaremos da VPR.

Já sabendo como se iniciou a VPR, vamos agora aos fatos que fizeram dessa organização um dos maiores grupos armados da esquerda armada, talvez superado somente pela ALN (Ação Libertadora Nacional), essa que tinha em Carlos Marighella seu líder máximo e fundador.

O ano de 1969 começa. E no já no inicio do ano a VPR conta com um belo reforço. É o capitão do exército Carlos Lamarca, que deserta do quartel de Quitaúna, levando mais de 50 fuzis FAL (Fuzil Automático Leve), e entra para as fileiras da VPR. A VPR era de ideologia Marxista, e seus militantes eram muito disciplinados (talvez por haver muitos militares no grupo).

Os assaltos a bancos, e as expropriações feitas pela VPR no começo de 1969, fazem com que a VPR fique já bem conhecida da repressão, que por sua vez está com as prisões cheias depois da decretação do AI-5. E pensando em se tornar ainda maior a VPR numa fusão com o COLINA (Comando de Libertação Nacional), formam a VAR-PALMARES (Vanguarda Armada Revolucionária - Palmares). Essa fusão foi feita num congresso realizado em julho de 1969.

Criada a VAR-PALMARES, os militantes foram cuidar de fazer a revolução, e foi o que aconteceu. Já no dia 18 de julho, alguns dias após a formação da VAR-PALMARES, esta conseguia realizar o maior ação de expropriação já feita por um grupo armado. Eles roubaram 2,5 milhões de dólares, na casa da amante do ex-governador de São Paulo Adhemar de Barros.

Em setembro de 1969, houve o rachão, congresso que trouxe de volta a VPR. No comando da nova VPR ficaram: Carlos Lamarca, Ladislau Dowbor e Maria do Carmo Brito.

Tendo como base os trabalhos teóricos de Ladislau Dowbor a VPR passa para uma nova fase, bem estruturada, com dezenas de militantes e centenas de simpatizantes. Ela também conta com um belo grupo, com quadros experientes, tanto em teoria marxista, como em experiência militar. A VRP que era da linha foquista, busca a experiência de um foco guerrilheiro e inicia os seus trabalhos no Vale do Ribeira.

E assim começa 1970. A VPR já havia iniciado o treinamento de seus militantes para atuarem na guerrilha rural. A área de registro já estava em pleno funcionamento e a sua localização e existência era algo de mais absoluto sigilo.

Em 20 de fevereiro de 1970, um golpe da repressão na VPR. Cai o aparelho de Antonio Raymundo Lucena, este que morre na invasão do aparelho. O aparelho ficava em Atibaia, São Paulo. Esse aparelho era uma espécie de QG da VPR, foram apreendidos muitas armas, livros e documentos. Foi uma perda terrível pra VPR.

Que dias depois tem outra péssima noticia.

Na manhã de 27 de fevereiro, Chizuo Ozava nome de guerra "Mário Japa", um dos mais importantes quadros da VPR e que havia acabado de fazer um curso de guerrilha, sofreu um acidente automobilístico na Estrada das Lágrimas, em São João Clímaco, São Paulo. Ao ser socorrido, foram encontradas armas e documentos subversivos dentro de seu carro, o que provocou sua prisão.

Lamarca e o comando da VPR, ao tomarem parte dessa situação ficaram muito apreensivos. "Mário Japa" seria interrogado sobre tortura e poderia abrir a área e colocar tudo a perder.

Era necessário um ação rápida para libertar "Mário Japa" da prisão. Foi assim que a VPR, junto com o MRT (Movimento Revolucionário Tiradentes) e a REDE (Resistência Democrática), seqüestraram em 11 de março de 1970 o cônsul do Japão Nobuo Okuchi. O seqüestro é comandado por Ladislau Dowbor. A ação é um sucesso, e "Mário Japa"e mais 4 presos políticos são libertados. Ele sai muito machucado, mais nada disse sobre a área de treinamento.

E chega o mês das perdas para a VPR, o mês que deveria ser esquecido, esse mês é abril de 1970. Nesse mês, caíram dezenas de simpatizantes e vários quadros importantes da VRP. As prisões aconteceram como uma queda de fileiras de dominós.

Em maio as prisões estavam abarrotadas de militantes da VPR e o próprio Lamarca estava cercado no Vale do Ribeira. Era preciso uma ação para libertar esses quadros e algo que colocasse o ideal revolucionário na mídia outra vez.

Foi assim que a VPR em julho de 1970, realiza mais um seqüestro. Desta vez com o apoio da ALN, a VPR seqüestra o embaixador Alemão, mais uma vez, numa ação perfeita, a VPR alcança êxito nessa operação conseguindo a libertação de 40 presos políticos.

Passam os meses, a luta continua, mais a VPR está cada vez mais debilitada, principalmente em São Paulo, sobrando apenas alguns quadros no Rio de Janeiro. Mesmo assim a VPR tira um coelho da cartola: Ela idealiza, organiza e executa sozinha o seqüestro do embaixador suíço, em dezembro de 1970.

Comandada por Carlos Lamarca, a ação foi um sucesso. E o embaixador ficou num aparelho com Gerson Theodoro, Alfredo Sirkis, Carlos Lamarca, Teresa Ângelo e Herbert Daniel, por mais de um mês. Esse seqüestro foi mais longo, devido o endurecimento da repressão mediante aos seqüestros. Os outros seqüestros foram realizados com um certo "conforto", devido à ditadura ter se submetido as exigências dos grupos que realizaram os seqüestros.

Mais dessa vez eles dificultaram as negociações. Falaram que não receberam o comunicado, demoraram vários dias pra responder a este 1º comunicado, e não aceitou as exigências feitas pela VPR. Além disso, a repressão negou soltar alguns militantes enviados na primeira lista de presos a serem libertados. Isso gerou um grande desconforto entre os militantes. Todos os militantes que se encontravam no aparelho queriam que a VPR executasse o embaixador, exceto Alfredo Sirkis.

Lamarca compartilhava dessa decisão junto com os demais. Mais depois de muito refletir, ele passou para o lado de Sirkis e usou o seu poder de veto. Como o comandante da ação ele decidiu fazer a lista com novos nomes. Assim a VPR envia nova lista para a repressão.

A repressão aceitou a nova lista e em janeiro de 1971, 70 presos são políticos são libertados das prisões brasileiras, e estão livres da tortura e das humilhações.

O Começo do Fim

Depois de realizado esse seqüestro a luta armada como um todo, tomou rumos que a levaram a derrota total, e a VPR fazia parte desse terrível quadro.

Em maio de 1971, Lamarca se desliga da VPR e vai para o MR8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro), e o resto da VPR é presa e morta no Rio de Janeiro.

Herbert Daniel, consegue fugir e vai pra Minas Gerais, Innes Ettinene Romeu é presa e barbaramente torturada, Alex Polari é preso e também sofre torturas nas mãos dos militiares, Alfredo Sirkis sentindo que o perigo era eminente foge pra Argentina e Gerson Theodoro é metralhado.

E para terminar de acabar com a VPR a repressão consegue um forte aliado conhecido como "Cabo Anselmo". Esse canalha realmente decreta o fim do que sobrou da VPR no nordeste, pois ele se infiltrou na organização e foi responsável pela morte de vários militantes. E conseqüentemente o fim da VPR.

Carlos Lamarca é morto em setembro de 1971 no sertão da Bahia, e dias antes Yara Iavelberg é morta em Salvador.

Em julho de 1974, Onofre Pinto e mais cinco militantes, entre eles os irmãos Daniel e Joel José de Carvalho, "desapareceram" quando retornavam clandestinamente ao Brasil pela fronteira com a Argentina. Eles foram os últimos integrantes da VPR a serem mortos pela repressão.

E assim acabou a história dessa organização, onde corajosos brasileiros e muitos jovens militaram, com um único ideal: Derrubar a ditadura militar através da luta armada.

Poderíamos dizer que foi um fim trágico para a VPR. Poderíamos dizer que de nada valeu a resistência de homens e mulheres que lutaram corajosamente por seus ideais, que morreram em vão, que foram "babacas" em acreditar que a luta daria certo, e que eles realmente conseguiriam tomar o poder.

Mais eu vou lhes dizer que esses homens e mulheres são verdadeiros cidadãos e cidadãs brasileiras, são homens e mulheres que fizeram à sua hora. E não esperaram acontecer.

Afinal, nem todos se esconderam numa "casa de bonecas".

Ciro Campelo Oliveira é colunista do jornal O REBATE.
24 anos, residente em Vitória ES
Contato: ciro_campelo@hotmail.com


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