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'...Macaé, ano I, Nº 45 - 8 a 15 de dezembro de 2006
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Lorena-SP.


http://www.loquo.com/spanish/post/627721

A cidade me põe em estado de alerta...

Sinto-me andando na Inglaterra.

A sensação é a mesma, tendo de ativar o meu outro canal cerebral para perceber ciclistas que surgem do nada ou da mão contrária e quase me atropelam.

A minha cidade Natal é conhecida como Cidade Presépio, suas ladeiras são muito inclinadas, em alguns pontos dela se fez necessárias escadarias para compor sua difícil topografia.

A Avenida que leva o nome do meu avô Ricardo Annoni Filho é uma das poucas, onde se é possível andar de bicicletas.

A falta de hábito em relação a elas cria um desligamento pela falta de costume de prestar atenção ao lado inverso do trânsito.

Percebo como é difícil ativar e coordenar os dois lados do cérebro.

Somente a necessidade de usá-lo, num gesto defensivo, algo necessário para a sua sobrevivência acorda o lado adormecido.

Como então fazer alguém despertar seu lado criativo, seu lado mais sensível quando todos os apelos são de ordem racional?

Somente podemos chamá-lo de volta quando emitimos para o outro um sinal de alerta.

O risco do atropelamento, a perda de algo, para que o indivíduo se agarre à possibilidade como um náufrago em busca da tábua de salvação.


http://baixaki.ig.com.br/site/w1113.htm

Salvá-lo de que?

Da mesmice, talvez.

Da extrema necessidade de interiorizarão em relação ao que o rodeia.

Trafegar em mão dupla, perceber que o concreto se faz abstração.

Perceber só um lado da questão aliena, marginaliza.

No processo criativo se faz necessário esta interação.

O acúmulo de informações, livros lidos, imagens vistas e revistas, formas tocadas, odores sentidos, sons assimilados se integram criando uma memória seletiva.

Um arquivo lotado, prateleiras sobrecarregadas, onde se faz necessária organização.

Deletar creio impossível, pois tudo se faz necessário quando arrumamos esta aparente anarquia interior adquirida ao longo dos anos.

Locomover-me entre carros, bicicletas, pedestres sem perder o referencial.


http://www.loquo.com/spanish/post/627721

Eu, o arquivo, faço malabarismos numa dança única, salvaguardando coisas essenciais para minha sobrevida.

Quero criar no outro esta necessidade, não se pode jogar fora tantos anos de janela , de experiências , vivências, retendo em si manifestações tão intensas e tão particulares.

Quero ser a tecla SAP, converter em imagens o que indivíduos levam em si, egoisticamente não se expressando:

-O que ainda não foi dito, a palavra que não foi ouvida, a imagem não vista.

Quero ser o agente detonador desse posicionamento.

Alunos me chegam e dizem: -

Hoje não posso pintar, pois estou mal, briguei com meu marido...Estou arrasada.

Eu estimulo.

_ Ah! Vamos pintar sim, conhecer o inimigo de frente, ver a cor da sua mágoa, a dimensão do seu rancor.

Vomitado sobre o espaço, esmagado com vigor pela espátula, destruído exteriormente, os pincéis energicamente tentam, fazer desaparecer qualquer interferência que ponha fim à contenda.

Este azul que teima entrar tem ares de reconciliação.

Seguem por ele, dá a mão à palmatória, dissipa gestos grosseiros, sobrepondo algo mais leve, linhas se enlaçam e terminam perdoados num rosa delicado, num sorriso de aprovação.


Obra de Cida Garcia


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