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'...Macaé, ano I, Nº 41 - 3 a 10 de novembro de 2006
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O PROFESSOR DE MÚSICA

Le Maitre de Musique

Cida Garcia

Portugal permanece em mim.

O que retemos no nosso espírito, nos pertence eternamente...e tantas foram as permanências, tantos belos momentos regados de singeleza, doçura, amor na sua pureza.

Versos lidos ao som de águas, som de gaivotas em bando, o arrulhar das pombas...Climas vários, cenários inusitados acolheram assim, Torga, Pessoa, Sophia de Mello, Prevért e tantos outros, renascidos na voz e na interpretação perfeita e melodiosa de Ana.

Dou-me por bendita!

Esta terra me circundou de odores, de sons, de gostos apurados, filtrados ao requinte, gozos da alma!

“... o homem é por necessidade premente da sua natureza, criador do belo, que é, por sua vez, a substância da arte. O artista, ao dar forma aos seus ícones, aos seus símbolos, ás suas metáforas, está a plasmar os sentimentos, as emoções, as idéias dominantes que, no espaço natural e cultural em que se exprime e no tempo que lhe é dado viver, configuram o que há de universal, de imperecível, na precariedade do passar das gerações”. (José Coutinho e Castro)

Amanheço em Minas...Com um vento que sacode vidraças, o tempo pedindo licença para instalar uma nova estação.

Recosto-me em almofadas confortáveis com uma chávena de café fumegante, forte, acompanhado de crepes preparados ao ponto.Coloco então um DVD e minha vida é invadida por falas, posturas, memórias de uma família inteira.

Os Coutinho e Castro chegam e adentram em minha sala, tomam seus lugares, tomam meu espírito.

Na tela...O Professor de Música de Gerard Corbiau.

O filme chega trazendo a novidade do eterno, fascinando, envolvendo, simbiose perfeita entre a arte da música, fotografia ao som mágico de Gustav Mahler e de Giuseppe Verdi.

A minha frente “Miragem e Sedução” de José Coutinho e Castro me dá o roteiro, guia-me por sonhos de perfeição, busca , superação e diz-me:

“- Aquele que até aqui (...) contemplou as coisas belas na sua ordem correta e progressiva (...) avistará de súbito um espetáculo surpreendente- o Belo na sua verdadeira natureza (...) uma natureza antes de mais, que não nasce nem morre, não cresce e nem murcha; depois, que não é bela deste modo ou feia daquele ou bela num momento e noutro já não ou, em determinada perspectiva , bela e feia noutra, ou bela aqui e feia acolá, de modo que uns lhe achem beleza e outros não.”

Ele...José...me propõe esta cumplicidade.

Deixo-me levar pela disciplina férrea, pela persistência acompanhada de desânimos brutais; pelo envolver da Arte , da vida e morte generosa.

Lutas travadas num plano sutil, onde traições e invejas tentam empanar o brilho, distorcer virtudes.

O belo absoluto vencendo a morte...em doação plena .

Derramado, espargido feito benção, triunfo da luz sobre as trevas...reflexos das boas aventuranças.

“Serão os representantes daquela verdade, daquele amor pelo bem e pela beleza que são o apanágio maior de uma obra e a grandeza autêntica de uma vida”.

“As derradeiras imagens confirmam as suposições que o filme foi abrindo ao longo do seu decorrer: muito mais do que o corpo do professor, é o seu espírito que vaga sobre as águas, espírito paráclito, vivo condutor, em estado de passar para a outra margem , cujos contornos não divisamos, mas que poderá ser a margem da PAZ, da SERENIDADE, da BEM-AVENTURANÇA, da PERFEIÇÃO por que ansiamos toda uma vida.”

...filme VISTO ...COM LICENÇA.

Disseram-me o essencial...

Gerard Corbiau

Lê Maítre de Musique

O Professor de Música-1988, Bélgica.

Realização: Gerard Corbiau

Fotografia: Walter van den Ende

Intérpretes: José Van Dam, Anne Roussel, Phillippe Volter

José Coutinho e Castro

Nasce em Mirandela, em Janeiro de 1935, de familiares oriundas de Viseu, onde decorre toda a sua infância e juventude.

Aos vinte anos muda-se para Coimbra onde freqüenta a Faculdade de Direito. Mais tarde troca as leis pelas Letras e passa a freqüentar o curso de Filologia Germânica.

Estuda em Hamburgo e daí transita para o Brasil onde leciona Língua e Literatura Alemã, na Universidade de Araraquara, em São Paulo.

Em 1973 é assistente em Filologia Germânica na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Em 1976 parte para a Universidade de Rostock( na antiga RDA), como Leitor de Português. Em 1980 defende a sua Tese de Doutoramento sobre Bertold Brecht, objeto de louvor por parte do júri. Regressa nesse ano a Portugal.

Convidado pela Universidade de Humbolt, regressa a Alemanha para lecionar em Berlim durante dois anos.

Leciona na Escola secundária Soares dos Reis e em várias outras Escolas do Porto.

À data da sua morte, em Dezembro de 1997, é professor de disciplinas respeitantes ao Cinema, no Instituto Politécnico do Porto.

Tradutor, ensaísta, poeta, crítico de cinema, de teatro e de pintura; colaborador das páginas literárias em jornais portugueses e estrangeiros; redator da Revista Cinema; orientador dum Clube de Cinema; membro de júris de vários Festivais de Cinema, nacionais e internacionais, deixa inédita, ainda manuscrita, uma vasta produção literária (obra poética, relatos de viagens, artigos de imprensa). A sua obra prolonga-se após o seu desaparecimento na tese de doutoramento, a segunda, que, embora concluída, não chegou a defender...


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