Ópera sobre a vida de Olga Benário fez sua estréia sábado, 14 de outubro no Municipal de SP.

”Choro debaixo das mantas para que ninguém me ouça....”
Talvez pela familiaridade com a história, ouvida e assimilada, o compositor de Olga, soube de antemão que pronunciar tais nomes, teria um peso e uma grande responsabilidade.
Partituras e páginas dos libretos correndo juntas numa sintonia e cumplicidade únicas.
Amor como fio condutor desta história de liberdade.
Olga morreu logo após a Páscoa.
A Páscoa representa passagem de um tempo de trevas para outro...luzes.
Peschad do hebreu, paskha do grego e pache do latim :- Passagem.
“Que quer dizer uma aliança quando se tem a esperança de transformar relações?
Compromisso somente com a igualdade que todos sentem necessária!
Compromisso somente com a liberdade consciente sem escalas!
Não quero amarras num quarto enquanto o mundo esbarra em relações desiguais, e são tantos os que não tem um teto com dignidade. Enquanto houver explorados, vida feliz não couber a cada trabalhador, eu não hei de ter uma vida personalizada.”
Toda esta pesquisa foi, segundo Jorge Antunes, acompanhado durante 10 anos por Anita Leocádia, corrigindo rumos, apontando falhas em antigos relatos.
O expectador percebe este envolvimento amoroso, entre a obra e seus condutores, mostrando o ser humano com sua força e suas fraquezas, fala de esperanças.
A sutileza com que é abordado cada tema tem o reforço de sombras, a força da orquestra dirigida por José Maria Florêncio criando climas vários, e o belíssimo trabalho do coreógrafo Laudinei Delgado, a iluminação perfeita de Caetano Vilela.
Amanhã vou precisar de toda a minha força e de toda a minha vontade. Por isso, não posso pensar nas coisas que me torturam o coração, que são mais caras que a minha própria vida. E por isso me despeço de vocês agora. É totalmente impossível para mim imaginar, filha querida, que não voltarei a ver-te, que nunca mais voltarei a estreitar-te em meus braços ansiosos. Quisera poder pentear-te, fazer-te as tranças - ah, não, elas foram cortadas. Mas te fica melhor o cabelo solto, um pouco desalinhado. Antes de tudo, vou fazer-te forte. Deves andar de sandálias ou descalça, correr ao ar livre comigo. Sua avó, em princípio, não estará muito bem. Deves respeitá-la e querê-la por toda a tua vida, como teu pai e eu fazemos. Todas as manhãs faremos ginástica... Vês? Já volto a sonhar, como tantas noites, e esqueço que esta é a minha carta de despedida. E agora, quando penso nisto de novo, a idéia de que nunca mais poderei estreitar teu corpinho cálido é para mim como a morte.
Carlos, querido, amado meu: terei que renunciar para sempre a tudo de bom que me destes? Conformar-me-ei, mesmo que não pudesse ter-te muito próximo, que teus olhos mais uma vez me olhassem. E queria ver teu sorriso. Quero-os a ambos, tanto, tanto. E estou tão agradecida à vida, por ela haver-me dado ambos. Mas o que eu gostaria era de poder viver um dia feliz, os três juntos, como milhares de vezes imaginei. Será possível que nunca verei o quanto orgulhoso e feliz te sentes por nossa filha?
 Querida Anita, meu querido marido, meu Garoto: choro debaixo das mantas para que ninguém me ouça, pois parece que hoje as forças não conseguem alcançar-me para suportar algo tão terrível. É precisamente por isso que esforço-me para despedir-me de vocês agora, para não ter que fazê-lo nas últimas e difíceis horas. Depois desta noite, quero viver para este futuro tão breve que me resta. De ti aprendi, querido, o quanto significa a força de vontade, especialmente se emana de fontes como as nossas. Lutei pelo justo, pelo bom e pelo melhor do mundo. Prometo-te agora, ao despedir-me, que até o último instante não terão por que se envergonhar de mim. Quero que me entendam bem: preparar-me para a morte não significa que me renda, mas sim saber fazer-lhe frente quando ela chegue.
Mas, no entanto, podem ainda acontecer tantas coisas... Até o último momento manter-me-ei firme e com vontade de viver. Agora vou dormir para ser mais forte. Beijo-os pela última vez.
“A história que já ganhou os livros e as telas do cinema ópera recebe agora nova roupagem: a ópera "Olga", composta pelo brasileiro Jorge Antunes, estréia neste sábado (14), às 20h30, no Teatro Municipal de São Paulo. A sexta montagem da temporada lírica de 2006 narra a comovente trajetória da militante e revolucionária Olga Benário Prestes (1908-1942).
Olga" foi escrita entre as décadas de 80 e 90. Durante o processo de produção, compositor e libretista visitaram Luís Carlos Prestes, que leu a sinopse da ópera e fez uma série de correções. A filha de Olga e Prestes, Anita Leocádia, acompanhou o trabalho de composição ao longo dos dez anos e também sugeriu mudanças.
Segundo Jorge Antunes, "Olga" usa uma linguagem musical moderna. "De modo eclético, adota o uso de melodias neotonais mescladas à música experimental", explica. Na partitura existem inserções eletroacústicas, referências ao folclore nordestino e citações à ópera "Tristão e Isolda", de Richard Wagner, entre outros elementos.
Depois da estréia, "Olga" terá mais quatro apresentações, nos dias 16, 18, 20 e 22 de outubro. Nos dias das récitas, uma hora antes do início da ópera, o Coral Paulistano apresentará o espetáculo O Coro dos Contrários, em homenagem à Semana de Arte Moderna de 1922.
"Olga" foi escrita entre as décadas de 80 e 90. Durante o processo de produção, compositor e libretista visitaram Luís Carlos Prestes, que leu a sinopse da ópera e fez uma série de correções. A filha de Olga e Prestes, Anita Leocádia, acompanhou o trabalho de composição ao longo dos dez anos e também sugeriu mudanças.
Segundo Jorge Antunes, "Olga" usa uma linguagem musical moderna. "De modo eclético, adota o uso de melodias neotonais mescladas à música experimental", explica. Na partitura existem inserções eletroacústicas, referências ao folclore nordestino e citações à ópera "Tristão e Isolda", de Richard Wagner, entre outros elementos.
Depois da estréia, "Olga" terá mais quatro apresentações, nos dias 16, 18, 20 e 22 de outubro. Nos dias das récitas, uma hora antes do início da ópera, o Coral Paulistano apresentará o espetáculo O Coro dos Contrários, em homenagem à Semana de Arte Moderna de 1922.”
Jorge Antunes
Jorge Antunes nasceu no Rio de Janeiro em 1942. Realizou seus estudos musicais tradicionais na Universidade do Brasil (atual UFRJ): violino, composição e regência. A partir de 1961 se destacou como precursor da música eletroacústica no Brasil e iniciou pesquisas no domínio da correspondência entre os sons e as cores. Desenvolveu uma técnica de composição a que dá o nome de Música Cromofônica, e em 1965 começou a produzir obras de multi-media. Fez cursos de aperfeiçoamento em Buenos Aires, Utrecht e Paris, estudando con Ginastera, Kröpfl, Gandini, Koenig, Bayle, Reibel e Schaeffer. Desde 1973 é professor da Universidade de Brasilia, onde dirige o Laboratório de Música Eletroacústica e ensina Composição e Acústica Musical. Entre 1976-77 terminou seu Doutorado na Unviersidade de Paris VIII, sob a orientação de Daniel Charles. Apesar de sempre compor música eletroacústica, possui um catálogo instrumental muito vasto que inclui muitas obras sinfônicas, música de câmara e duas grandes óperas. Suas partituras são editadas por Suvini Zerboni, Billaudot, Breitkopf & Härtel, Salabert e Sistrum.
(J.A./2004)
GERSON VALLE
Gerson Valle foi professor universitário e procurador-chefe da Funarte/Minc.
Possui cerca de 300 publicações em periódicos do Brasil e do exterior(França, Áustria e Itália).
Em livros publicou, além da área jurídica, poesia: Confete de muitos carnavais (1982), Passagem dos Anos (l984), Aparições (2001), e Vozes Trazidas pelos Ventos (2005).
Tradução de Lendas de Gustavo Adolfo Bécquer (1997). Ficção: Os Suvenirs da Prostituta- A Novela de Ipanema (2006) e Missas de Galo (2005). Biografia : Jorge Antunes, Uma Trajetória de Arte e Política (2003).
Publicou também poemas musicados por Jorge Antunes, Ernani Aguiar, Guilherme Bauer, Ricardo Tacuchian, entre outros, e libretos para óperas de Jorge Antunes (Olga), Odemar Brígido ( A Noite de Iemanjá) e Guilherme Bauer (Fronteira). Teve uma peça infantil encenada: Dança das Árvores (2000).Recebeu inúmeros prêmios em concursos literários, como o primeiro lugar em 2004 e segundo lugar em 2003 da Accademia Internazionale Il Convívio, na Itália. Integra coletâneas como a Osman Lins de Contos (2005)
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