FEIRA DO LIVRO DE VIANA DO CASTELO - PORTUGAL - X DA LUSOFONIA

Excelentíssima Sra. Aparecida Helena Garcia Há 10 anos, o Senhor Presidente da Câmara, chamou-me ao seu gabinete para me incumbir duma tarefa que representou uma verdadeira aventura. Consistia em organizar a Feira do Livro de modo tal, que se desse oportunidade aos vienenses de contactar directamente com os escritores de modo diferente do que lhes tinha sido posto ao dispor nas 16 Expo-Feiras anteriores, em que o paradigma do contato entre escritor e seus leitores passava pelo modelo clássico de conferências ou palestras, cujo público se ia progressivamente rarefazendo de uns anos a essa parte. Mas a parte maior do desafio consistiu em trazer ao convívio com nossos cidadãos os escritores mais representativos das oito literaturas de língua portuguesa. Hesitei. Mas tive a promessa de todo apoio e o entusiasmo da Senhora Vereadora da Cultura, nossa comum colega de liceu, Doutora Flora Silva.
Foi ela que, para resolver a primeira exigência paradigmática teve a idéia de substituir as formais conferências por descontraídas tertúlias numa tenda armada no recinto da Feira, com o que se criava novo figurino no expediente de relação do escritor com o respectivo público. O José Rodrigues, que foi um padrinho também entusiasmado deste novo figurino, fez uma imagem para o pôster, que foi sendo recorrentemente reutilizada, criando-se através dela um verdadeiro ícone para a Feira da Lusofonia e mantendo-se o mesmo ar de família durante estes 10 anos em todas as publicações: convites, programas, livros saídos no âmbito da Feira. Depois foi um sucessivo bater as portas de universidades, embaixadas, institutos, com êxito vário, até que se conseguiu montar a primeira Feira da Lusofonia.A partir de então, o figurino foi progressivamente melhorado e enriquecido.Mas, com a inevitável redução de pessoal, acabou por cair todo o peso sobre quase três ombros. O sucesso, porém , está a vista. Não o digo por imodéstia, porque estou consciente de que seria ainda maior se o comissário escolhido fosse outro.
Constituiu também ingrediente da Feira um pacote de edições de que a peça maior seria uma edição dos Cadernos vianenses, projecto que tem sido religiosamente cumprido: hoje lança-se o t.38. Depois, para resolver um problema pontual surgido em 1999, surgiram os Cadernos da Lusofonia, que este ano a contenção financeira fez suspender, mas de que saíram 6.
Integraram-se na Feira outras manifestações de arte-e este ano contamos três mais duas: as 3 de Manuel Cargaleiro no Museu Municipal, no Museu do Traje e nos antigos Paços do Concelho, que ontem tivemos o privilégio de visitar guiados pelo próprio artista, mais uma da pintora brasileira Aparecida Helena Garcia, Cida Garcia ,no antigo Hospital da Misericórdia e de Victor F.Alves na Galeria Barca d Artes.Mas além da permanente música popular de jardim, já tivemos também manifestações de música erudita e ballet.
Por aqui passarm 170 escritores, de que podemos destacar, pelo papel que vem desempenhando nas literaturas dos respectivos países, Eduardo Lourenço, José Saramago, Luandino Vieira, Agustina Bessa Luís, Mário Soares, Mário Cláudio, Corsino Fortes, Manuel Alegre, Urbano Tavares Rodrigues, Vasco Graça Moura, José Craveirinha, Boaventura Cardoso, Nelson Saúte, Ondjáki, Rui Zink, José Eduardo Agualusa, Nuno Júdice, António Manuel Couto Viana, Amadeu Torres, Lídia Jorge, Inês Pedrosa, teolinda Gersão, Germano Almeida, Dário Castro Alves, o embaixador Sinésio, Mendes Ferrin, Jaime Salazar Sampaio, Albano Martins, Luís Cardoso, Rosa Lobato Faria,Luís Carlos Patraquim, José Viale Moutinho, Carlos Casares, Vergílio Alberto Vieira, Fernando Pinto do Amaral, Ricardo de Saavedra, Odete Semedo, Albertino Bragança, Alice Vieira, Ana Mafalda Leite.
Destes escritores, quase todos premiados, destaco o Nobel de Saramago, o prêmio Camões de Agustina, o prêmio Pessoa do ano passado a Mário Cláudio, e o prêmio da Sociedade Portuguesa de Escritores dado há 40 anos a Luandino Vieira e o Camões deste ano.
Todos estes escritores conviveram conosco na tenda das tertúlias, divulgaram os seus livros, deram autógrafos. Nem deixamos de ter um carinho especial pelos mais novos, a quem começamos, "de pequeninos" a cativar para a leitura. Pela qualidade dos meios envolvidos e pelo sucesso comercial particularmente no sector do livro infantil, já há quem considere esta a Terceira Feira do país.
Não devemos esquecer que este evento continua a ser o resultado duma sábia e bem ordenada colaboração institucional: primeiro, com o Centro Cultural do Alto Minho, que fundou a Feira há 26 anos e que nela tem continuado a colaborar, como este ano fez com uma exposição, com contactos com escritores e animação das tertúlias e com a colaboração de Arnaldo Alves na organização das exposições; depois com o Centro Dramático de Viana- Teatro do Noroeste, que, este ano, mais uma vez, de forma variada e de alta qualidade, tem lido textos dos escritores na animação de sessões e tertúlias.A Academia de Música de Viana do Castelo animou, com a qualidade a que nos tem habituado, a sessão de abertura desta Feira.A Associação de Sociólogos do Alto Minho pela primeira vez participou da Feira, trazendo até nós o saber e experiência de Moita Flores. Depois a colaboração das editoras, de que me permito destacar as Publicações Dom Quixote. Com esta editora críamos hábito da coedição de livros, a partir da feliz iniciativa de A cabeça calva de Deus de Corsino Fortes, que há dois anos continou com a antologia do Nelson Saúte, no ano passado atingiu um ponto alto com a versão comemorativa e definitiva da Praça da Canção de Manuel Alegre, e este ano com a coedição de A Girafa que comia estrelas de José Eduardo Agualusa.
Este ano a Feira teve uma dupla acentuação na literatura infantil e na escrita das Ciências Sociais. Nesta vertente, pudemos contar com a doce Dina Salústio, poeta e contista, mas proveniente da área da assistência social, onde colheu formatura e exercício de profissão; o economista, Presidente da Associação de Economistas Galegos João José Santamaría Conde que tão pertinentemente nos elucidou sobre economia galega, espanhola e européia...e a portuguesa também; a toponímia, ramo da lexicologia, aplicado á nossa cidade pelo oportuno e belo livro de António de Carvalho: a história, a propósito das Festas da Agonia; a criminalística tão fluentemente analisada do ponto de vista até de um político autárquico como é Francisco Moita Flores; a escrita etnográfica, trazida a tenda das tertúlias pelo enterro do João e os contos a propósito de Fina da Armada, João Carlos Brito e Vítor Rocha e a análise da Serração Velha aqui trazida pela S.I.R.D; a sexologia e o romance autobiográfico explanado por Júlio Machado Vaz. Na vertente da literatura infantil, além da animação diária na Biblioteca de jardim, a presença de Dina Salústio, que se iniciou pela escrita dirigida aos mais pequenos; a bem humorada desconstrução das histórias infantis por uma Maria do Céu Nogueira que nos informou que o João ratão não morreu cozido e assado no caldeirão por ter descoberto que eram falsos os cinco réis descobertos pela Carochinha ao varrer a cozinha; a participação de Maria Conceição Campos; a apresentação da nossa coedição com a Dom Quixote da Girafa de José Eduardo Agualusa.
As escritas do mundo da lusofonia estiveram representados na palavra , na simbólica e na pintura de Aparecida Helena Garcia ( Cida Garcia) ; no livro crioulo de José Luís Carvalhido da Ponte escrito em português para ajudar a Guiné Bissau; na palavra de João José Santamaría Conde; na obra nunca por demais referida de José Eduardo Agualusa.
Literatura regional através da obra de Amadeu Torres, Maria da Conceição Campos, Carvalhido da Ponte Fina D Armada, Maria do Céu Nogueira e Álvaro de Oliveira, e na edição local da obra póstuma de Francisco Basílio dos Santos Pedro, livro intitulado Se...
No domínio das artes plásticas atingimos um nível inexcedível, além dos artistas referidos, na tripla exposição do enorme artista-enorme na sua arte, na sua simpatia e na exactidão com que fala da sua pintura e da sua cerâmica- que é Manuel Cargaleiro, cujo catálogo conta com um belíssimo poema de António Manuel Couto Viana.
O Secretariado da XXI Expo-Feira do Livro
X da Lusofonia
Doutora Ana Souza Pinto

Ex.ma Senhora
Aparecida Helena Garcia ( Cida Garcia)
Viana do Castelo- Portugal
Após o encerramento da Expo-Feira do Livro, X da Lusofonia de Viana do Castelo, feito o balanço com a serenidade da distância, afigurou-se, sem falsa modéstia, que o evento constituiu um êxito.
Este deveu-se á participação V. Excelência e de todos os outros autores e editores. Por isso, encarrega-me o Senhor Comissário da XXVI Expo-Feira do Livro e X da Lusofonia e coordenador dos "Cadernos vianenses" com os agradecimentos, de enviar a intervenção proferida na sessão de encerramento da Feira.
Com os melhores cumprimentos.
O Secretáriado da XXVI Expo- Feira do Livro
X da Lusofonia
Doutora Ana Souza Pinto
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