
NÃO AÇÃO
"Não há maior alegria na vida do que servir a uma finalidade que reconhecemos superior e dignificante...
Bernard Shaw".
Quantas vezes li sobre a não ação, um estado onde nada se faz e tudo acontece.
Li como tantas outras verdades que me chegaram como descrições poéticas.
Walden, a Vida nos Bosques de Thoreau, A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen, o Tao da Física de Fritjop Kapra, todas chegaram a mim como frases de efeito, vivências de outrem, inatingíveis para pessoas simples como eu.
Experiências de filósofos, pesquisadores, escritores.
A idéia se materializou na minha vida, não sei se a busquei ou se ela simplesmente se instaurou.
Quem sabe a dor, as ausências, as dificuldades me trouxeram a desistência, a não resistência á ação.
Ponho-me a disposição, aguardo, não sem uma certa ansiedade em relação ao movimento, mas a hora em que ele se dá.
Fico atenta aos sinais, que me liberam para o momento.
O ir depende de mim agora, me lanço ao encontro de algo que ainda não me foi dado saber.
Às vezes tenho de aguardar ou promover relações desconexas até que tudo se organize para que eu atue.
Decifrar sinais, perceber no vazio, informações concretas que me conduzirão aos lugares mais inusitados.
Estabelecidos os locais adequados eu me disponho ao encontro.
Diante do espaço dado me posiciono...Algo em mim é acionado...O trabalho criativo é iniciado.
Parada diante de um painel executado percebo a infinidade de traços, cores, movimentos sugerindo estórias que não criei, mostrando formas inexistentes na minha mente.
Falo com as pessoas que se acercam, e são muitos, assuntos vários vão surgindo, idéias depuradas, conceitos não concebidos anteriormente.
Sou um instrumento destas manifestações, consigo receber e depurá-las num simples gesto libertador.
Os canais são abertos, escoam-se através de uma fonte e caminha de volta como se as imagens impressas, aprisionassem o que se foi dito.
Não se pode voltar atrás, está registrado.
Está consumado.
Só então sinto o cansaço, pois o não fazer nada tem de acomodação.
O trabalho tem de ser efetuado, a maneira como tal acontece é que faz a total diferença.
É como se no silêncio, na interiorizarão, comandos internos fossem ativados explodindo numa energia poderosa.
Logicamente o corpo padece as enxurradas avassaladoras deste momento tão intenso.
Novamente me recolho, me abasteço para seguir ordens.
Quem se pôs a Serviço do Pai tem muitas tarefas entre elas o social me espera.
Faço parte de um Universo que compra, troca, lida com o material, então volto á tona, pois preciso me situar, saber notícias de um mundo afastado temporariamente.
Pela fé Abraão, sendo chamado, obedeceu, indo para um lugar que havia de receber por herança e saiu, sem saber para onde ia.
...Porque esperava a cidade que tem fundamentos, da qual o artífice e construtor é Deus.
Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar Filipenseses 2,15

De repente o telefone me chama de volta a Lorena...a um asilo.
Uma senhora doce e meiga me diz das necessidades da entidade, da construção da capela e de como gostariam de algo do meu trabalho neste espaço.
Recebo-a já em Lorena, um rosto jovial, cabelos grisalhos e um sorriso tímido, que posteriormente me foi colocado como inibição de estar frente a uma artista.
Quando a abracei, me contou ela delicadamente, que foi inesquecível este encontro, pois ela estava diante de uma pessoa simples e bondosa.
Quero quebrar esta separação, estes obstáculos que fazem com que as pessoas vejam o artista como algo inatingível, diferente...
Ponho-me a sua altura, falo sua linguagem, temos tudo em comum. Somos mulheres que buscam ajudar seus semelhantes, cada qual com seus dons.
Faço-a perceber que tudo é interligado.
Eu preciso do pedreiro, do motorista que me busca sorridente todas as manhãs para esta rotina que se estabeleceu desde então.
Visito quartos, ando pelos corredores, tomo café no refeitório e sou atendida com amor pela Maria Helena, que faz comidas tão saborosas, tão simples, cumprindo sua missão como mãe zelosa.
No Bazar a Dolores recolhe roupas, bolsas, cobertores e objetos estranhos e engraçados. Vendidos a população por 1,99, fazendo gerar dinheiro para uso com medicamentos, alimentos, gasolina, etc.
É muito interessante estar num bazar.
Óculos estranhos que um dia ajudou alguém a ver melhor, está ali esperando a possibilidade de ser útil de novo.
Mais acima...Imagens de santos vários, faltando pedaços e mais ao lado São Lázaro acode um leproso, talvez impondo a lembrança de que outros lazarentos clamam por ajuda.
Num binóculo está N.S.Aparecida, também em quadros, em gesso sendo a preferida entre tantos santos expostos.
Sapatos velhos, quantos modelos...Onde andaram?
Pararam de caminhar, acham-se agora num asilo, cansados de tanto esforço.

Lá longe vem um som estranho, repetitivo, parece um choro.
É o Eugênio, um velhinho lindo que clama ao pai, rezando seu terço histericamente.
Os outros se incomodam, se irritam com tanta gritaria.
Sua prece vira um incômodo...
A convivência é algo difícil, insuportável.
O Sinclair pega uma vassoura e varre uma sujeira inexistente como se mantivesse em si a necessidade de ser útil.
Hoje pela manhã Carlinhos, o mais forte e habilidoso barbeava seu companheiro num gesto delicioso de se apreciar.
Rosa prepara copinhos com cápsulas de remédio, que levará pessoalmente em cada quarto.
Quem sabe se hoje a japonesa, tomará sem resmungar, seu banho, deixará lavar sua roupa.
Seu rosto tão bonito lembra uma boneca, mas ao se manifestar deixa vir à tona sua rebeldia, seu descontentamento de estar lá.
Ela repele o toque, dispensa ajuda, enquanto outros como a Luzia se agarram a você, pedindo ajuda..
Esta ajuda ela espera do Alto e ela cobra do Pai um posicionamento: -Leva-me, vem me buscar, Senhor.
Seu grito e seu choro têm a dor de quem quer se libertar deste corpo que a amarra como um fardo.
Mas ainda não lhe é permitido se desfazer dele.
Quantos nós ainda por desatar?
Enquanto esperam, separam marinheiros no mar de arroz...
Eu mergulho junto com seus olhares atentos e vejo quão difícil é perceber dentre tantos mensagens que nos chegam, qual contém a semente do verdadeiro sentido de viver.
Penso na eternidade...Só ela justifica o esforço.
Não mais o material, não mais o espiritual...Só vida ETERNA...

Volto à capela.
Vazia...Sem bancos, sem imagens, flores, sem gente.
Ela inexiste em energia.
O templo circula por fora, pelos corredores.
Logo ali será um ponto de parada, serão entoados cânticos de louvor, pedidos e lágrimas, orações...Então se formará a Igreja...
O Paulinho leva um toque de humor neste universo...
Brinca e faz trejeitos engraçados tirando a seriedade de todos. O bom espírito, forte, acima das dores ajuda o menos favorecido.
O Santos tem o toque do galã, do carioca irreverente, que ainda tenta usar seu senso sedutor...Cheio das piadinhas irônicas faz suas investidas sem sucesso.
Meu filho Matheus me ligou e me achou depressiva pelo meu primeiro contato com esta realidade.
Corpos já prostrados jazem numa ala menos agitada.
Velhinhas, quase cadáveres, num estado vegetativo como num hospital.
Matheus me disse então.
Mamãe, nós não podemos compreender o processo que levou cada pessoa até este estágio.
Não sabemos pela limitação da nossa mente...Se atenha as pequenas manifestações de vida que ainda restam.
Amor...Disponibilidade...Trabalho...São atitudes necessárias para se viver.
Não dá para fechar os olhos para as realidades da vida terrena.
Não se pode separar Arte da grande arte de sobreviver.
Pintar áreas obscuras, dar luminosidade onde a sombra impera.
Criar ritmos harmoniosos para que se estabeleça o equilíbrio.
Alterar em nós as concepções do belo, captar emoções contidas no primeiro olhar.
Nesta obra eu posso também intervir, com um simples toque, minha pequena participação, minha pincelada de luz...
Ouço vozes conhecidas por mim, me volto e vejo meus amigos Sayma, Júlio e Flávia adentrando ao pátio.
Vieram me visitar e acabaram por fazer um levantamento das urgências em termos odontológicos, encaminhar pacientes, colocar próteses.
Vejo-os abrindo bocas, analisando os estragos e as possibilidades de correção e percebo que as coisas do Pai são reações em cadeia.
Estamos todos nesta nave mãe com o mesmo grau de responsabilidades...
Os elos estão formados para que a Grande Missão se cumpra.
Outros artigos |