
Vencer ou morrer na guerrilha.
Aos 18 anos
Celso Lungaretti, apontado durante 34 anos como delator e renegado pela esquerda armada dos anos 70, revela em livro a tragédia dos jovens numa guerra de adultos.

Celso Lungaretti era um dos mais jovens dirigentes de uma organização guerrilheira de luta armada contra a ditadura militar, no final dos anos 60 e início dos 70, quando foi preso e barbaramente torturado. Acusado de ter delatado seu grupo, passou 34 anos como um renegado, até conseguir provar, há um ano, sua inocência. Neste livro dramático (Náufrago da Utopia – Vencer ou morrer na guerrilha. Aos 18 anos, Geração Editorial, 304 pps., R$ 39,00), ele relembra as passeatas, a ocupação de faculdades e fábricas, os festivais de música, as ações armadas dos guerrilheiros, seus conflitos internos, as trajetórias de personagens como José Dirceu, Geraldo Vandré, Marighela e Lamarca, reconstituindo, de forma magistral e dolorida, a história de sua geração – dos jovens estudantes sem experiência militar recrutados para combater a ditadura pelas armas. E acerta, finalmente, as contas com sua consciência e a História. Trata-se de um livro dramático e impressionante que reconstitui, numa linguagem crua e ao mesmo tempo dolorida, um dos períodos mais trágicos de nossa história recente - o período em que os grupos de esquerda armada de combate à ditadura militar, nos anos 60 e 70, tiveram seus principais militantes e combatentes presos, mortos em ação ou friamente executados e passaram a recrutar para suas fileiras jovens estudantes secundaristas sem maturidade política e sem experiência de combate. Mesmo assim, eles foram para a linha de frente da guerra revolucionária. Celso Lungaretti era um desses jovens.
Neste seu livro-desabafo, um terrível depoimento preso há mais de 30 anos na garganta, ele reconstitui a trajetória de um desses grupos de estudantes, desde o recrutamento num colégio da Zona Leste de São Paulo. Ele passa pelo aprendizado marxista; pela contestação desenvolvida na própria escola; pela organização do movimento secundarista em toda a capital paulista durante o explosivo ano de 1968; pelo engajamento na luta armada em 1969; e, finalmente, pelas prisões, torturas e mortes nos anos seguintes.
Através do olhar empolgado desses jovens, trava-se contato com os acontecimentos e personagens mais importantes daquele período em que o Ato Institucional n°. 5 mergulhou o país nas trevas, restringindo as liberdades políticas e de organização social. Relembram-se aqui as passeatas e congressos estudantis, a ocupação de faculdades e fábricas, os festivais de música popular, a resistência dos artistas e intelectuais, as expropriações (assaltos) de bancos, os seqüestros de diplomatas, as tentativas de guerrilha rural, nos moldes da China e do Vietnã, as trajetórias de personagens brasileiros históricos.
Celso Lungaretti evoca com vigor, nostalgia e uma dor cortante sua própria história e a história de seus amigos. Fala do que viu e viveu. Apresenta suas lembranças de forma literária, como se seu livro fosse um romance, o que torna a leitura especialmente fascinante e tensa, dando ao leitor a sensação de que está no centro dos acontecimentos. Mas é sempre fiel à verdade dos fatos - ou, como ele diz, “tão fiel quando pode ser alguém tão profundamente marcado por aqueles episódios”.
Poucos, como ele, puderam sentir tão duramente, na pele e no cérebro, as conseqüências de ser um jovem numa guerra de adultos.
Preso em abril de 1970, Celso estava há mais de dois meses incomunicável quando houve um agravamento das torturas à que foi submetido e teve um tímpano perfurado. Com a resistência física e mental em frangalhos, acabou aceitando a imposição dos militares: renegar publicamente a guerrilha. O comandante guerrilheiro Carlos Lamarca, um ídolo da esquerda de então, o acusou de ter revelado o local de um campo de treinamento da guerrilha. Foi sua desdita e condenação, sem direito a defesa alguma.
Celso Lungaretti, mais do que um “arrependido”, passou a ser visto como “delator”, traidor da causa, aquele que não resistira à tortura e revelara informações preciosas sobre o movimento. Estigmatizado durante 34 anos, teve, em 2004, a oportunidade de lançar novas luzes sobre aqueles acontecimentos. Defendendo sua causa junto à Comissão de Anistia do Ministério da Justiça e aproveitando a documentação finalmente liberada dos arquivos secretos militares, pôde demonstrar que seu “arrependimento” na TV se dera em circunstâncias de extrema coerção. E que, sob tortura, não delatara ninguém. Até chegar nisso, entretanto, foram três décadas de incompreensão, rejeição e tormento. Celso passou 34 anos de sua triste vida como um renegado, aquele que não merecia tolerância, compreensão ou perdão.
Começando como uma epopéia e tragédia coletiva, Náufrago da Utopia termina com a luta solitária de um ex-militante para resgatar sua dignidade de revolucionário.
Outros artigos |