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A BOLSA OU A VIDA ?
Primeiras lições da crise mundial
Ceci Vieira Juruá*
Em todos os países os valores negociados em Bolsa estão caindo, em movimento considerado de realocação da liquidez mundial e de correção de preços. Na verdade, parece que chegamos ao fim de mais um ciclo especulativo em que ganhos substanciais foram obtidos por algumas centenas de famílias que dominam a economia global. O movimento atual de queda de preços permite socializar as perdas repassando-as aos pequenos poupadores espalhados pelo mundo.
No Brasil, o modelo de economia dependente, atrelada às altas finanças internacionais, pode gerar efeitos mais intensos repercutidos de forma generalizada sobre a classe média e sobre os pequenos e médios empresários, contribuintes oprimidos por impostos e por juros extorsivos. Junto aos comerciantes, a frase que mais se escuta no momento é "ninguém compra mais nada, os mercados estão paralisados em razão da escassez de poder aquisitivo da população".
Preso na armadilha financeira construída a partir do Plano Real, nosso governo enreda-se cada vez mais e, em lugar de romper com este modelo perverso, tenta negar a vulnerabilidade de nossa economia submissa aos humores dos mercados e assume riscos e ônus que deveriam recair sobre os especuladores. Um exemplo dessa atitude liga-se à fatidica decisão de incorporar o capital estrangeiro à rolagem da dívida pública interna.
Em fevereiro último, na tentativa de alongar os prazos de vencimento dessa dívida, o Governo editou uma medida provisória que isenta de imposto de renda os investimentos externos aplicados em títulos negociados no mercado brasileiro. Atraídos por juros apetitosos e por incentivos tributários, acorreram maciçamente ao Brasil hedge funds estrangeiros (fundos especulativos), orientando-se para a compra de NTN's-B (Notas do Tesouro Nacional) com vencimento em 2045, remuneradas pelo IPCA e por juros reais de 9% ao ano. Assim, entre fevereiro e abril " entraram liquidamente no país US$ 6,573 bilhões. [1]
Da parte do governo, havia expectativas que tais aplicações de longo prazo (30 anos ou mais) poderiam dar respaldo e sustentabilidade a um projeto de poder que busca financiar o Estado brasileiro com recursos estrangeiros.
Apesar do generoso tratamento fiscal, logo que se manifestou a crise houve um ataque especulativo à moeda nacional e os investidores estrangeiros colocaram à venda suas NTN's. E, o que é mais grave, " o Tesouro veio em socorro dos investidores, recomprando R$ 1,753 bilhão em papéis e criando parâmetro de preço para um mercado que, sem referência, estava travado ."[2] Assim o Tesouro evitou prejuízos para os hedge funds e garantiu-lhes liquidez para a compra dos dólares necessários a mais uma fuga de capitais. Quem age dessa forma é o mesmo Tesouro que nega apoio à capitalização da dívida da Varig, empresa nacional cuja marca tem uma valor internacional inestimável. A intervenção no mercado de NTN's consumiu, na verdade, o equivalente a 25% da dívida da Varig !
Aliás, há pouco tempo, vimos o BNDES e os fundos de pensão injetarem mais de R$ 1 bilhão nas estradas de ferro controladas pela Brasil Ferrovias, o que viabilizou sua venda para um grupo estrangeiro capitaneado pela ALL, América Latina Logística. São dois exemplos de como nossas autoridades econômicas desdobram, sem pejo, esforços que colocam a economia brasileira a reboque do capital estrangeiro e atuam, conscientemente, em favor da desnacionalização de nosso patrimônio e de nossas empresas.
Nas palavras de Carlos Kawall, Secretário do Tesouro/MF, ex-executivo do Citibank, " a situação continua sob controle, nos termos do compromisso do PAF (Plano Anual de Financiamento da dívida) com o mercado ." Nas palavras do Presidente da República, " Eu não diria que a economia está blindada, ela está com muita estabilidade, muita segurança e com muito dinheiro para aguentar os trancos que vierem pela frente ."[3] Faltou apenas explicar que esse muito dinheiro vem dos nossos impostos, extorsivos, dos nossos salários, ínfimos, e do caráter ditatorial da política econômica que utiliza MP's para privilegiar os especuladores estrangeiros em detrimento dos produtores nacionais.
Triste situação a nossa nesse tempo de crise. Em lugar de priorizar as condições de vida das famílias brasileiras e a preservação das empresas nacionais, o governo continua a apostar nos mecanismos maquiavélicos dos mercados financeiros e das bolsas. Até quando suportaremos tamanha iniquidade ?
*Economista, pesquisadora e professora de Economia.
Notas
[1], [2] e [3]. Jornal Valor, C1 e C2, de 25-05-2006 |