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'...Macaé, ano I, Nº 39 - 20 a 27 de outubro de 2006
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Trem-fantasma (1)

ANDREI BASTOS*

Aonde vai
Aonde vai
A bolondrina
Que por aqui passou...

Assim canta, de um jeito triste, o prisioneiro Edgard, na Barão de Mesquita. As celas são cinco ou seis no que seria a haste horizontal do corredor em T e ele ocupa a penúltima à direita de quem entra. É calmo, fala com voz mansa, mas firme, e não escondendo sua grande experiência em prisões e tortura, sempre encoraja seus vizinhos das outras celas a enfrentar com firmeza e tranqüilidade os terrores a que são submetidos. Ele não esconde também a certeza que tem sobre seu destino e diz, com a serenidade que lhe é peculiar, que o trouxeram de São Paulo para ser morto. De fato, durante todo o tempo é o único que não levam para a sala de tortura ou para a geladeira. Dá conselhos, parece resignado, e só altera seu timbre de voz quando se refere ao cabo Anselmo, culpado pela sua prisão, ou à mulher e filha que deixou em São Paulo.

Medo

É sempre terrível quando, no meio na noite, as luzes das celas apagadas, irrompem pelo corredor o barulho das botas e as silhuetas sombrias. Nesta noite antecipada pela inquietação que dominou o dia e pelo coração acelerado, que não deixava dormir direito, é especialmente assustador.

As batidas nas grades e as vozes ríspidas terminam de despertar e rapidamente é cumprido o ritual de algemar as mãos nas costas, colocar a venda nos olhos e, finalmente, o capuz preto. O que irá acontecer?

Na condição de imobilidade compulsória, sem enxergar nada e sem o equilíbrio que as mãos pra trás, algemadas, impedem, só resta deixar que as silhuetas sombrias coloquem suas mãos sob os braços prisioneiros e guiem. A porta da cela é fechada com o barulho dos ferros ecoando depois de alguns passos e, à medida que se avança pelo corredor, já na parte que seria a haste vertical do T, os pensamentos acontecem numa velocidade vertiginosa. Ao mesmo tempo em que produz toda sorte de especulação sobre o que irá acontecer, ou o que teria provocado aquela visita noturna, a mente trabalha febrilmente para manter o controle da situação e vencer o medo que chega com o vento frio da madrugada, que circula nos corredores como um fantasma.

A mente parece funcionar, apresenta os argumentos necessários, mas não adianta. Aos poucos, começando pelas pontas dos dedos dos pés e das mãos, o vento frio se apossa do corpo, sobe pelas pernas e braços, desaquece o coração, que bate cada vez mais forte e depressa, em desespero para enfrentar a onda paralisante. O controle mental, se é que ainda existe, está restrito à própria mente, como uma fantasia, e o corpo se separa, não obedece aos comandos e inicia uma dança patética de tremores. Tudo começa a sacudir cada vez mais intensamente, até o ponto em que todo o ser desaba, corpo e mente, e é preciso carregar e não mais apenas guiar.

Assim, carregado, os dois lances da larga escadaria são descidos e, já no pátio, o fardo prisioneiro é colocado deitado no chão da Veraneio, entre os bancos da frente e de trás. Envolvido pelo calor da estrutura do veículo e pelas botas dos ocupantes do segundo banco, e passada a onda de tremedeira, o prisioneiro volta a ser invadido pela torrente de pensamentos.

O que irá acontecer?

*Site: www.andrei.bastos.nom.br


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