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'...Macaé, ano I, Nº 47 - 22 a 29 de dezembro de 2006
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Macondo!

ANDREI BASTOS*

Com o sumiço de Alex e a repulsa pelas baratas vencida pelo cansaço na terceira noite, a manhã chega com algum descanso, que logo é sacudido pela chegada da escolta. Para grande surpresa, os soldados trazem a roupa com que ele foi preso e mandam que se vista. Para maior surpresa ainda, não são colocados capuz e venda e as mãos são algemadas na frente. Depois de lavar as mãos e o rosto numa pia da área externa do pequeno complexo de celas, o prisioneiro é colocado num jipe militar.

A curta viagem de jipe leva a uma construção grande, sólida, de paredes brancas, antiga, tipicamente militar e sul-americana, colonial. Continuando a surpreender, a recepção é feita por apenas um tenente, grandalhão e meio gordo, de botas pretas reluzentes, calça verde-oliva engomada, camiseta branca, com patente e nome gravados com perfeição, e quepe, também verde-oliva. Gente do interior do país, meio mulato, olhos rasgados de índio, certamente descendente dos povos antigos da Amazônia, ele ordena a retirada das algemas e conduz o prisioneiro pelo braço, subindo os três degraus largos que conduzem à varanda da entrada principal do prédio.

O sentinela de guarda, único substituto da escolta, que retorna à base, bate continência e abre a grande porta de madeira trabalhada, pesada, que dá passagem para o hall vazio, de onde saem três corredores largos. O ser sul-americano com patente militar, verdadeiro rei tribal primitivo, aponta um dos corredores com a mão. Guardião e prisioneiro seguem em frente, diante da decoração composta de obuses e outros apetrechos de artilharia.

A segunda grande porta de madeira se abre para um amplo salão em arco, decorado com extrema austeridade. Na frente dos dois, ao fundo, diante de tal economia de objetos ganha destaque a mesa de trabalho. Alguns passos em direção a ela e o chefe índio uniformizado diz para parar e aguardar.

Pela porta nos fundos da sala entra o coronel. Figura esguia, cabelos brancos muito curtos, cortados à moda militar, bigodes também já embranquecidos e não muito espessos, fisionomia severa, camiseta branca com a gravação de patente e nome, calça verde-oliva bem passada, botas pretas igualmente reluzentes, de canos longos e esporas de cavalaria, e uma chibata curta na mão direita, que marca no cano da bota o ritmo das passadas largas em direção à cadeira atrás da mesa.

Diante do cenário e dos personagens presentes, o prisioneiro não tem dúvidas: está em Macondo!

Cem anos de solidão nas prisões da ditadura e cem dias de fome de comida de gente não permitem disfarçar os olhos esbugalhados do prisioneiro. Sentado, o coronel pergunta se ele já almoçou. A negativa faz com que lhe ordene que sente na cadeira diante da mesa e que lhe seja servida uma refeição. Não diz nada entre uma coisa e outra. O silêncio só é quebrado pelos papéis folheados e pela entrada do soldado com o prato de comida. Os olhos esbugalhados se arregalam com a refeição servida. Comida de oficial, cheirosa, bonita, colorida, com arroz, feijão, tomate, alface, batatas fritas e o bife mais suculento do planeta.

Como sobremesa, o coronel coloca diante do prisioneiro um tijolaço de papel ofício, deixa cair a mão pesadamente em cima e diz que ali está o depoimento feito na estação Barão de Mesquita. Apesar do forte torpor provocado pela refeição de deuses, tudo fica desperto no ambiente com as porradas do calhamaço de papéis sobre a mesa e da mão pesada sobre os papéis. Os olhos esbugalhados ficam ainda mais arregalados porque o coronel diz para o prisioneiro ver o que significam tais documentos para ele e, com as duas mãos, joga-os na lata de lixo.

"Vamos começar tudo de novo!", anuncia a voz grave do militar, que se apresenta como tal verdadeiramente, com a fisionomia mais severa ainda, e ordena que ele seja levado.

O brilho recente dos olhos arregalados do prisioneiro desaparece com a pergunta que se faz de o que significará "começar tudo de novo". Afinal, ele não conhece a tradicional brutalidade do lugar.

*Site: www.andrei.bastos.nom.br


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