
Trem-fantasma (4)
Estação Barão de Mesquita
ANDREI BASTOS*
Rapidamente o pequeno comboio chega diante de um grande portão de ferro, que se abre, e depois se fecha atrás dos fuscas, com os ruídos característicos. Mais depressa ainda o preso é arrancado do banco de trás do carro e levado pelos dois lances de escadaria para a última cela à direita de quem entra no que seria a haste horizontal do corredor em T. Depois de ninguém falar nada o tempo todo, é dada a ordem para virar de costas, não olhar pra trás, algemas, venda e capuz retirados, a porta fechada e as luzes apagadas. Pouco depois, muito pouco depois, as luzes se acendem, um vozerio agitado vem pelo corredor. É dada a ordem de virar de costas e não olhar pra trás, a porta é aberta, algemas, venda e capuz colocados, o preso é levado aos cachações para uma sala à esquerda de quem desce os dois lances de escada. O ambiente fortemente iluminado permite vislumbrar os muitos vultos presentes, apesar da venda e do capuz.
A dança violenta dos vultos do comitê de recepção começa com o ritmo das cacetadas determinado pelas perguntas feitas por alto-falantes, num microfone, mas que nitidamente vêm do fundo da sala, pois a voz de timbre forte do interrogador é percebida com clareza, independente do sistema de som.
Mais doida do que a cabeça do prisioneiro, seqüestrado durante um barato de fumo, é a série de perguntas, em tiroteio, feita pelo chefe dos torturadores, com o coro desordenado dos subordinados - uma loucura sem pé nem cabeça, com um desfile de nomes e fatos inteiramente desconhecidos. Aos poucos, em meio à gritaria e à pancadaria, aparecem os primeiros sinais de alguma ligação com a realidade, embora de maneira equivocada. A voz do fundo da sala chama o torturado de Menininho e relaciona a isso alguns fatos que fazem sentido na sua cuca fundida, fudida. E ele pensa que está fudido mesmo, pois estão achando que ele é um outro secundarista, muito mais envolvido e ligado ao próprio Lamarca.
"Prendemos tua namoradinha, a Lúcia!" - mais confusão no samba do torturador doido, que, arrogantemente, nesse dia resolve mostrar a cara e manda que retirem o capuz e a venda. O ambiente confirma o que se vislumbra vendado - luzes fortes parecidas com as de mafuás do interior, sala rodando na cabeça como carrossel barato. No canto direito, em frente, ao lado de grande janela de vidro de visão unidirecional, através da qual platéias privilegiadas assistem aos shows daquela casa de espetáculos sinistros, atrás de pequeno púlpito com microfone está o chefe: homem branco, cabelos negros, bigodes espessos também negros, um pouco gordo, parecendo de ascendência árabe. Nagib? O coração dá um pulo na primeira parte da sua frase e se alivia com o desfecho. Um alívio parcial. Lúcia é amiga muito querida, linda, e mulher de Alex, outro amigo querido. Além disso, era pra ela estar muito longe dali, fora do país. O que teria acontecido?
As confusões e informações desencontradas se sucedem e dificultam a aceitação da idéia de que o prisioneiro é um Forrest Gump da luta armada, que rejeitara no final de 1969. Decisão difícil para quem integrara turminhas de rua na adolescência recente, era brigão, usava cinto de fivelão e gostava de soco inglês. A evidência de que a guerrilha era uma trágica brincadeira de bandido e mocinho, reforçada pelo entusiasmo infantil do recrutador na conversa que durou toda a extensão da praia de Botafogo, facilitou a renúncia àquele machismo pueril.
Já com mais ou menos um mês na estação Barão de Mesquita, o tratamento que lhe é dado muda radicalmente e ele é jogado só de cuecas num cubículo de 1,5m x 1,5m, todo pintado de preto, muito frio - a geladeira. Pelo sistema de som anunciam que não vão mais encostar a mão, mas que sua mente será destruída, que vão enlouquecê-lo e ele ficará ali até contar tudo o que sabe, de pé, com frio, fome, sede e com os tímpanos e a cabeça sendo estourados pelo barulho ensurdecedor, enlouquecedor, que sai dos alto-falantes. Nada que lembre a música de Led Zeppelin, Black Sabbath ou Iron Butterfly e o prisioneiro embarca na pior bad trip da vida se perguntando se não seria melhor estar da sala da porrada.
*Site: www.andrei.bastos.nom.br
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