
Trem-fantasma (3)
Lembranças
ANDREI BASTOS*
As lembranças da noite em que começara aquela viagem de trem-fantasma não morreram. A linda e doce namorada deixada perto da casa dos pais antes do encontro com as fadas, duendes e gnomos de Arembepe, em Copacabana. Espíritos vestidos de branco e envoltos em nuvens suaves de poeira luminosa, como a Sininho do Peter Pan. Rômulo, Luísa, beijos, carícias, baseados – era possível sentir o cheiro da maresia e a poeira luminosa se misturava com punhados de areia daquela praia da Bahia. Era um momento feliz depois de muitos dias sem rumo, dormindo cada noite numa casa diferente, se escondendo, fugindo.
Fugindo de quê? Fugindo pra onde? A fuga não tem mais sentido, não leva a lugar algum, e um cansaço e entrega ancestrais tomam conta da alma. Longas despedidas e uma interminável viagem de ônibus depois, a entrega. Não sem tomar o cuidado de antes deixar o amigo na porta de casa, por um caminho diferente. Noite – é sempre à noite que acontecem essas coisas.
Ao dobrar a esquina naquela quadra da rua do Ópera, mal iluminada por uns poucos postes de luz, tudo se define. Instantaneamente paredes invisíveis se formam atrás e na frente, na outra esquina, e não dá mais pra correr. O único movimento possível é caminhar sem se alterar em direção a um destino desconhecido, obscuro. Tão obscuro quanto os vultos na porta do prédio e do outro lado da rua, em frente, em volta de dois fuscas.
O porteiro, estranhamente acordado de madrugada, e ainda por cima acompanhado de dois ou três homens, diz um boa-noite balbuciado e o caminhar cego prossegue, agora subindo o lance de escadas que leva ao apartamento. Colocar a chave na fechadura é a senha para o ataque. Saídos do nada, vários homens apontam suas armas e um deles segura com violência pelo colarinho, por trás, e termina de rodar a chave. Lá dentro já está outra turma e, diante da reação de pacifista indiano, é dada a ordem de fornecer um documento de identidade e sentar no chão.
Afinal, que guerrilheiro é esse, muito magro, de tênis Bamba branco, vestido com as calças de barras floridas da Rosa, o pulôver leve e amarelo do Peixinho, companheiros no apartamento, e, ainda por cima, com caracóis no cabelo como o Caetano Veloso?
Quando um deles volta, grita com visível excitação “É esse mesmo! Vamos levar!”. Não sem antes desferirem muitas coronhadas e estocadas com os revólveres. Ali mesmo é cumprido o ritual de algemar as mãos nas costas e colocar a venda e o capuz preto.
Começa a viagem de trem-fantasma.
*Site: www.andrei.bastos.nom.br
Outros artigos |