Trem-fantasma (2)
ANDREI BASTOS*
Ressurreição
A equipe e seu prisioneiro partem para uma quase viagem no meio da noite de lua. Durante todo o tempo os ocupantes do banco de trás se divertem com o fardo prisioneiro, alternando momentos de violência, quando lhe aplicam coronhadas de fuzil ou estocadas com cano de revólver, com momentos de humor negro, quando lhe fazem cócegas para provocar o riso desmoralizante. Nessas ocasiões o prisioneiro morde a língua para afastar o riso com a dor.
Depois de rodar muito sem ninguém falar nada, o chão do veículo começa a revelar mudanças radicais na natureza do terreno, dá pulos e joga muitas vezes a cabeça do prisioneiro contra a porta. Fica mais calmo de repente, roda um pouco mais macio, e pára. As portas se abrem, todos saem, e o prisioneiro é arrastado pra fora. Colocado de pé, é conduzido para uma boa distância da picape. Ele está descalço e percebe com clareza o chão de terra, com algumas pedras que machucam seus pés.
Param, e começam a falar. Perguntam sobre pessoas, quais seus nomes verdadeiros, o que tinham feito. Rapidamente o tom das vozes se eleva e vários falam ao mesmo tempo, numa gritaria, agressivamente, associando as ameaças e perguntas a chutes, golpes de porrete, coronhadas. Pelas vozes e porradas dá pra perceber que estão em círculo.
“Cadê o Tom, seu filho da puta! Vamos, abre logo o ponto senão tu vai morrer, terrorista de merda!”
Depois de bater nessa tecla por um bom tempo, querendo saber do Tom, fica claro que essa é a informação que buscam. O prisioneiro diz que não conhece nenhum Tom, e não conhece mesmo, e quanto mais o faz, mais apanha. Exasperados diante das insistentes negativas, um deles grita mais alto e diz que então ele vai morrer e atira no chão, próximo aos seus pés. Os outros também começam a atirar. Não são muitos os tiros dados durante a eternidade que se instala na mente do prisioneiro, que no segundo seguinte passa a ver e falar com pessoas que ama, como se sua vida passasse diante dos olhos, feito um filme.
Na cena seguinte o prisioneiro flutua, assiste do alto ao seu próprio corpo caído na clareira, no meio do círculo formado pelos homens, que agora falam entre si. É uma bela noite de lua cheia e se perde de vista o fim do capinzal que ondula suavemente com a brisa leve e fresca. Plano geral, toda a cena banhada generosamente pelo luar, sob um céu cheio de estrelas, de um azul denso, escuro, profundo.
Corte brusco. No início da tarde o prisioneiro acorda no catre da sua cela, a última à direita de quem entra no que seria a haste horizontal do corredor em T. Entre este momento e o anterior, a escuridão da noite e a escuridão da mente.
*Site: www.andrei.bastos.nom.br
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