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...Macaé, ano I, Nº 24 - 7 a 14 de julho de 2006
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O Globo, Opinião, 06/09/2005:

O deficiente transporte coletivo

ANDREI BASTOS

Apesar de a crise político-institucional que vivemos fazer todo o resto parecer menos importante, é sempre bom lembrar que o "lado negro da força" está, como sempre, instalado em todas as instâncias da vida nacional. No que me diz respeito, como deficiente físico, também é sempre bom lembrar que a luta pelos direitos das pessoas com deficiência está acima das diferenças partidárias, ideológicas e religiosas, só tendo como real inimigo o tal "lado negro".

É uma causa de todos e, por isso mesmo, as diversas organizações sociais ou religiosas que se dedicarem a ela estarão lutando por interesses que também são seus, pois a deficiência pode atingir qualquer um e só quando isso ocorre "a ficha cai". Nesse sentido, todas as instituições têm um papel importante a desempenhar, fazendo com que o conjunto da sociedade se interesse, reflita e aja em defesa desses direitos.

O primeiro mandamento que deve ser incorporado e obedecido em relação às pessoas com deficiência é considerá-las cidadãs plenas, pois elas não são "coitadinhas" dignas de compaixão e têm todos os direitos à cidadania mais os direitos especiais que suas necessidades especiais exigem.

Para que assim seja, é necessário um grande trabalho de divulgação dessas necessidades especiais e dos direitos a elas correspondentes, não deixando margem para incompreensão ou discriminação.

E entre as várias formas com que se concretiza a discriminação, a quase impossibilidade de uso dos transportes coletivos fere na base o direito de ir e vir das pessoas com deficiência. Sem poder se deslocar pela cidade, elas não têm nem mesmo a chance de se preparar para o mercado de trabalho ou, quando já possuidoras de alguma qualificação profissional, de conquistar sua própria subsistência. Sua inclusão social tem como primeira condição a solução definitiva do problema nos transportes. Só lhes garantindo o direito de ir e vir podemos pensar em conquistar a igualdade de oportunidades, tanto no acesso à educação quanto no acesso ao mercado de trabalho.

A maior barreira para a solução do problema nos transportes é a omissão dos governantes, certamente em conseqüência do lobby das empresas de ônibus. Embora já tenhamos muitas leis que defendem os direitos das pessoas com deficiência, falta aos governos municipal, estadual e federal a vontade política para fazer com que elas sejam cumpridas e com que as normas de acessibilidade sejam efetivamente adotadas nos transportes coletivos, nas edificações e nas cidades.

Como têm sido tomadas boas iniciativas na área parlamentar no sentido de ampliar a campanha pela inclusão, é preciso que os outros setores da sociedade, tanto públicos quanto privados, se engajem nesse processo de conscientização sobre as questões da acessibilidade, lembrando sempre que esse é um conceito muito mais amplo do que uma simples rampa ou ônibus adaptado.

É preciso ampliar a ação dos grupos que lutam isolados e promover sua união com o resto da sociedade em torno do que ainda é uma causa, de todos, para combater a corrupção e o descaso que fazem do sistema de transportes coletivos o verdadeiro deficiente.

ANDREI BASTOS é jornalista.

(Site: www.andrei.bastos.nom.br )


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