O Globo, Opinião, 06/09/2005:
O deficiente transporte coletivo
ANDREI BASTOS
Apesar de a crise político-institucional que vivemos fazer todo o resto
parecer menos importante, é sempre bom lembrar que o "lado negro da força"
está, como sempre, instalado em todas as instâncias da vida nacional. No
que me diz respeito, como deficiente físico, também é sempre bom lembrar
que a luta pelos direitos das pessoas com deficiência está acima das
diferenças partidárias, ideológicas e religiosas, só tendo como real
inimigo o tal "lado negro".
É uma causa de todos e, por isso mesmo, as diversas organizações sociais ou
religiosas que se dedicarem a ela estarão lutando por interesses que também
são seus, pois a deficiência pode atingir qualquer um e só quando isso
ocorre "a ficha cai". Nesse sentido, todas as instituições têm um papel
importante a desempenhar, fazendo com que o conjunto da sociedade se
interesse, reflita e aja em defesa desses direitos.
O primeiro mandamento que deve ser incorporado e obedecido em relação às
pessoas com deficiência é considerá-las cidadãs plenas, pois elas não são
"coitadinhas" dignas de compaixão e têm todos os direitos à cidadania mais
os direitos especiais que suas necessidades especiais exigem.
Para que assim seja, é necessário um grande trabalho de divulgação dessas
necessidades especiais e dos direitos a elas correspondentes, não deixando
margem para incompreensão ou discriminação.
E entre as várias formas com que se concretiza a discriminação, a quase
impossibilidade de uso dos transportes coletivos fere na base o direito de
ir e vir das pessoas com deficiência. Sem poder se deslocar pela cidade,
elas não têm nem mesmo a chance de se preparar para o mercado de trabalho
ou, quando já possuidoras de alguma qualificação profissional, de
conquistar sua própria subsistência. Sua inclusão social tem como primeira
condição a solução definitiva do problema nos transportes. Só lhes
garantindo o direito de ir e vir podemos pensar em conquistar a igualdade
de oportunidades, tanto no acesso à educação quanto no acesso ao mercado de
trabalho.
A maior barreira para a solução do problema nos transportes é a omissão dos
governantes, certamente em conseqüência do lobby das empresas de ônibus.
Embora já tenhamos muitas leis que defendem os direitos das pessoas com
deficiência, falta aos governos municipal, estadual e federal a vontade
política para fazer com que elas sejam cumpridas e com que as normas de
acessibilidade sejam efetivamente adotadas nos transportes coletivos, nas
edificações e nas cidades.
Como têm sido tomadas boas iniciativas na área parlamentar no sentido de
ampliar a campanha pela inclusão, é preciso que os outros setores da
sociedade, tanto públicos quanto privados, se engajem nesse processo de
conscientização sobre as questões da acessibilidade, lembrando sempre que
esse é um conceito muito mais amplo do que uma simples rampa ou ônibus
adaptado.
É preciso ampliar a ação dos grupos que lutam isolados e promover sua união
com o resto da sociedade em torno do que ainda é uma causa, de todos, para
combater a corrupção e o descaso que fazem do sistema de transportes
coletivos o verdadeiro deficiente.
ANDREI BASTOS é jornalista.
(Site: www.andrei.bastos.nom.br )
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