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...Macaé, ano I, Nº 22 - 23 a 29 de junho de 2006
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Ana Lúcia Rabello
Acadêmica do curso de História Da UGF - Piedade, RJ

"Tragédia  Urbana"

Se este texto pudesse ser sonorizado, ao lê-lo você ouviria a música "De frente pro crime", de João Bosco e Aldir Blanc.  Achei o contexto da música semelhante e que por tanto completaria a situação por mim presenciada - um homem, de seus vinte tantos anos presumíveis, de repente caiu pra trás, no chão da rua! - Nunca imaginei ser possível tal fato!  Não esse, mas o que se seguiria - ninguém acudiu o rapaz. Pior, ninguém sequer olhou pra ele.

Isso me encheu de angústia. Sou do tipo que ainda sente indignação diante de atos injustos. Melhor, não me calo!

Foi através da janela do ônibus que vi a situação, aliás todo o acontecimento - o rapaz me chamou a atenção pela forma como andava, pareceu-me lento demais... Seus olhos foram se abrindo, abrindo... Como que buscando focar  algo. E depois, pumba! Estava no chão, de barriga pra cima. Algumas pessoas, que se encontravam comigo dentro do ônibus, também perturbaram-se com a situação do rapaz, mas as outras viraram o rosto. Não queriam envolvimento.    

A reação de aparente indiferença me fez pensar no quão doente está a nossa sociedade. Pelas ruas das nossas cidades, vivem dezenas de pessoas em situação de indigência, o que beira as raias da normalidade. No nosso cotidiano é banal ver um semelhante jogado no chão qual um saco de lixo.

Estaríamos absorvendo este aspecto da injustiça social para o campo da normalidade, sem que nos apercebamos. Estamos na verdade nos conformando com a inexistência do auxílio público e a ineficácia da vontade  política de mudança. Como também estaríamos presos à rede de individualismo, tão bem desenvolvido pelo sistema, no qual é "Cada um por si e Deus por todos!".

Talvez a atitude de indiferença seja uma estratégia de defesa para suportar essa descrença e não se deixar abater. Como que negando o sofrimento alheio, calasse o próprio. Esse comportamento faria parte de um processo de cristalização. Posteriormente se transformaria em cilada: insensibilizando para a percepção da injustiça implicaria na impossibilidade da transformação, na busca de respostas e soluções criativas.

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