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...Jornal on line - Ano I - 2006

A entendida do Dunkin

por Phydias Barbosa

Marcinha, uma Brazilina descontraída, chegou nos EUA pela fronteira do México, depois de ter analisado diversas vezes a imagem que a novela América mostrou. Viajou de El Paso até a Nova Inglaterra numa van, apertada no meio de mais 14 brasileiros que não tomavam banho há 12 dias.

Marcinha se deu bem, porque foi logo mexendo com faxina em Providence, mas dois meses depois embarcava num ônibus da Peter Pan, surpresa com a virada do primo, que resolveu se casar com um "gay": lá em Freminghém tem mais oportunidade, rapidinho tu arruma um emprego , disse o primo. 

E saiu Brazilina prá conquistar a sua América!

Por sorte, viajou do lado de mais três brasileiros descolados que iam para Boston com indicação para trabalhar em construção. Vamos para Lowell, disseram. É perto de Freminghém?, perguntou Brazilina, que nem o mapa de Massachussets tinha visto ainda.

Papo vai, papo vem, todos notaram que tinham chegado há pouco do Brasil via México e já estavam viajando pelos Estados Unidos, sem precisar falar uma palavra de inglês. "Santo país! Aqui todo mundo fala português " .

Assim sendo, sem precisar falar uma palavra de inglês, Brazilina logo descolou um outro emprego de faxina, trabalhando pra equipe do Tião, que todo dia a buscava em casa mais uma colega e iam fazer 3, 4, às vezes até 5 faxinas em residências chiques por dia.

Tudo ia muito bem, mas nossa Brazilina, algum tempo depois, cansada, percebeu que estava sendo passada para trás. O Tião, que parecia ser muito legal no princípio, deixou transparecer que estava faturando um bom dinheiro com o trabalho das duas e já as chamava de "minhas meninas". Ela bem que notou que o Tião andava de carro novo, não saía do celular, com relógio Rolex no pulso, bancando o almoço todos os dias no Café Belô....

Pera lá, comentou Brazilina com a colega. Isso é muita incompetência de minha parte, não vim para Boston para virar lucro de ninguém, isso aqui não é bordel, é um tal de limpar latrina, casa de cachorro, cocô de gato, tirar o lixo, separar garrafas, passar roupa, limpar o quarto da madame, vacunar o livinrúm.

E o desgraça do Tião ainda me deixa esperando horas para vir me apanhar no serviço.

Rodou a baiana " vou entrar num cursinho de inglês " e aí se matriculou num desses cursos espalhados pela cidade, que oferecem ao aluno um pacote para falar inglês em 6 meses!

O rapaz do cursinho foi explícito, tem que estudar e fazer o homework . - Vou falar em 3 meses !, prometeu-se Brazilina.

Mas, faltava muita às aulas, o schedule de faxina em Boston não é nada fácil.

Como é que ia prá aula se ela saía de Newton às vezes por volta das 6 horas da tarde, cheirando a guarda-chuva velho, ir em casa, tomar um banho, prá ter aula em Freminghém às 7?

 Por isso, faltando mais aula do que comparecendo, Brazilina lutou e finalmente conseguiu um emprego num Dunkin Donuts, afinal o seguro social falso foi mole de conseguir, descolou com um amigo do Tião, foi muito fácil sô , foi só dar o número do telefone de Ipatinga, trocou um dígito e com o novo trabalho, achava que dizendo gúde mornin, ráu ariú , dava prá enganar.

Treinou uns 5 dias e já ficou apta para atender no balcão, mas no início não fazia o troco, só separava os pedidos na hora do rush e depois entrava para a produção na bakery. Foi quando o manager chegou e explicou que um pacotinho que estava do lado era o TO GO do Mr. Smith, o outro era o TO GO da Mrs. Scott e uma grande bandeja ao lado era do FOR HERE .

O dia passou sem muitas novidades, os donos dos To Go vieram todos, mas lá pelo meio da tarde, Brazilina comentou com a colega que o Mr. Smith foi buscar o TO GO dele, assim como a Mrs Scott.

E completou Brazilina... Mas o FOR HERE não veio até agora!!!

AZAR...OU INCOMPETÊNCIA?


A dentadura

por Phydias Barbosa

Brazilino ralou um tempão na América, trabalhando em todos os ofícios possíveis e impossíveis. Finalmente, realizado com a casa própria, negócio de pintura funcionando e papel temporário no bolso, resolveu convidar a sogrinha para vir passear nos States. Com visto direitinho, conseguido no Consulado Americano.

A véia nao conseguiria fazer a travessia da fronteira pelo México ...."inda bem, comentou Marieleide. 10 mil dóla!!! Caro prá chuchu..."

-"Vamos na Disneyworld?" , perguntou a sogrinha jararaca. Brazilino ficou surpreso com a pergunta, tão direta, ("- Cumé que a véia sabe que existe Disneyworld?  - Só pode ser a Grobo" , disse Marieliede) . Foi um sufoco, porque a velha veio sòzinha e ao passar na imigração de Miami deu zebra : "What's is your address in the United States?" Hum?

 Veio o intérprete em Portunhol, pois o intérprete Brasileirol estava de off.

-" La sinhora tiene que decir donde que va morar en Miami."

"Uai, vou morar com Brazilino, meu genro, que tá me esperando lá fora. Moço, nós vai na Disney !" -"Ok, cuanto dinero lleva?"-"50 real! Brazilino falô que a partí daqui tudo é por conta dele. Os 50 real é pro ônibus pra voltar pra Matosinhos.

" O alto-falante chamou " Mr. Brazilino de Souza, Mr. Brazilino de Souza, por favor identificar-se ao oficial de imigração" . Tremedeira total. Pronto! Deportaram a véia. Mas a situação não era tãograve assim.

 Queriam ver o papel do Brazilino. Tudo em ordem, sairam do Aeroporto comemorando as 2 garrafas de cachaça que a jararaca trouxe da fazenda e rindo do sufoco. Agora, era pegar a estrada e ir direto para Orlando.

Durante todo o tempo da viagem, a sogra comentava somente uma coisa: sua dentadura nova. Que beleza, ela agora podia comer churrasco, batata frita, torresmo e arroz tropeiro sem problema. E mostrava a dentadura, rindo e chorando, agradecendo a Brazilino os 400 dólares que ele mandou, ESPECIALMENTE para ela pagar o prostético.

Marieleide também estava muito feliz com a visita da mãe e com a notícia que ela ia ser vó dentro de pouco tempo. "Que chique!," disse a véia, "vou ser vó de um americano...Cuá...quando a turma de Matosinhos souberem ...."

Foram pro hotel descansar. Ao acordar na manhã seguinte, Brazilino viu um copo com água do lado da cama, achou que Marieleide tinha deixado ali, bebeu a água toda rapidinho, sentindo um gostinho diferente no final, mas não ligou muito, pensou que a água do Hotel tinha mesmo um gostinho de limão brabo.

 Seguiram para a Disney, onde a véia fez questão de ir logo pra mais alta das mais altas das montanhas russas, tão excitada que estava na terra do Mickey. Marieleide nao entrou na cadeirinha, estava meio enjoada por causa da gravidez. E tampouco os avisos permitiam que ela entrasse na Montanha Russa.

Subiram Brazilino e a jararaca. Quando o carrinho estava fazendo a subida da primeira rampa, a véia vira-se pra Brazilino e diz: "graçado, de manhã procurei o copo dágua da dentadura e não achei." Brazilino engoliu seco, o carrinho subindo a rampa.

Percebeu que tinha bebido a água errada. Embrulhou o estômago, a véia ria: "quem será que bebeu a água?", e começou a rir, "RA RA RA RA" , abrindo o bocão e mostrando a dentadura, meio entre tremendo e emocionada, NA VIRADA da rampa a véia estava com a boca tão aberta e a risada tão alta, que.... a Dentadura caiu .

 Imagine uma cena em câmara lenta: do lado de fora do brinquedo, aquela dentadura novinha caindo por cima das pessoas e se esborrachando no chão, quebrando-se em mil pedaços. E Brazilino vomitando, vomitando, e gritando "PARA ESSA PORCARIA QUE EU QUERO DESCER!"

Em baixo, Marieleide nem imaginava o que estava acontecendo! Brazilino vomitava e a véia chorava.

" Minha dentadura nova" !   Ao descerem da experiência maravilhosa, os dois estavam arriados. A véia com a boca enterrada para dentro - como fica a boca de todo véio quando perde a dentadura -  e Brazilino arrazado com o pessoal reclamando e tendo que ir se lavar de tanto banho de vômito.

Em plena Disneyworld! E pensava: Vou matá essa jararaca e mandá o corpo todo picadinho de volta prá Matosinhos....

AZAR ou....Incompetência????

Brazilino é criação de Claudio Piereck (Miami)

 

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