Fundado em 16 de abril de 1932

...Macaé, ano I, Nº 15 - 5 a 12 de maio de 2006
ZONA URBANA

UMA CIDADE CHAMADA MOSQUITÓPOLIS

Arq. Moctezuma Pinto
moctezuma@jornalorebate.com

MOSQUITÓPOLIS era uma cidade belíssima, com praias, rios, canais, lagoas com peixes e camarões, uma das únicas reservas de mata atlântica litorânea que forma um parque com espécies únicas e uma região de montanha e morros com muito verde, nascentes, flora e fauna deslumbrantes.

Seu povo era simples, mas feliz. Vivia com muita fartura, as amizades eram sólidas. Havia a ferrovia que levava à capital vindo de outras cidades rurais. As categorias de ferroviários, pescadores e pequenos comerciantes predominavam. Eram todos muito unidos, tinham história, respeito à coisa pública, às pessoas e à vida. Tudo girava no entorno da praça principal, arborizada e muito limpa. As ruas impecáveis, as casas vaidosamente belas.

Aí veio o crescimento repentino, desordenado. Descobriram uma riqueza que mudaria suas vidas, os rumos da cidade. Vieram as pessoas de fora, tecnicamente mais preparadas mas sem compromisso com o lugar. Começaram as disputas por dinheiro a qualquer preço, pessoas excluídas, aumentos de preço insuportáveis, valorização do solo (terrenos e imóveis), o abandono da atividade rural e pesqueira, a exclusão do trabalho e do consumo. O deslumbramento e abandono de valores éticos num processo social conhecido como "corrida do ouro".

Eles não sabiam como lidar com aquelas pessoas e com tanta riqueza. Foram se aviltando e também destruindo a sua cidade. Perderam a união, o sossego, o padrão de vida e alguns o caráter. Vale tudo pra subir na vida.

Despencou a qualidade de vida, ninguém era responsável por nada, a sociedade se desorganizou, vieram os desgovernos, relapsos, irresponsáveis. Uma anarquia. Veio a poluição ambiental, lixo, ocupação e destruição de manguezais onde eram os criadouros dos peixes cada vez mais escassos. Isso acabará com os pescadores.

Ligação clandestina de esgotos fétidos na rede de águas pluviais que sem ralos sifonados deixam exalar o cheiro do gás sulfídrico putrefato que caracteriza todo o centro.

Nas favelas sobre os manguezais e alagados construídas pelas elites para explorar os infelizes há a miséria, doenças onde sofrem mais as crianças e idosos, desemprego, bandidagem e o esgoto.

Esgoto também nos bairros novos ditos bonitinhos, com casas mais estruturadas, gramados, piscinas e fossas e sumidouros fedorentos. Esgoto, esgoto, esgoto por toda a parte. Nas ruas, nas poças, nos subterrâneos, nas lagoas, no rio que banha (e abastece ... rsrsrs) a cidade, na praia da zona norte (pelas correntezas do mar que jogam esgoto e lixo para lá).

Com isso e mais o abandono dos terrenos baldios, nos vazios urbanos e nas matas das áreas de expansão urbana (ex-rurais) que rondam a cidade proliferam os mosquitos, fato que dá nome a cidade. Mosquitos de dia, ao cair da tarde, durante a madrugada. Ratos nos lixões e até na praia. Lixo e material químico nos canais que vão pra Lagoa ou para o Rio que cruza o centro da cidade. Alguns canais foram cobertos como se assim pudessem esconder a poluição, sujeira e abandono que acabam por entupir e alagar os bairros a qualquer pingo de chuva.

Muitos mosquitos, bilhões deles, pessoas alérgicas empoladas, uso de caladril, mosquiteiros, telas, sprays e bombas de inseticida, espirais queimando a fumacinha ou embalagens de papelão (de dúzia de ovos) para escapar dos terríveis insetos e tentar dormir pra trabalhar no dia seguinte. Pessoas sonolentas, mal dormidas, exceto a elite com seus condicionadores de ar ligados pela casa toda pra escapar desta selva.

É isso a que ficou reduzida a então bela e alegre cidadezinha. Mosquitos, fedor, doenças, sofrimento e o regozijo da elite lambuzada no poder e dinheiro fácil da nova riqueza. A cidade partida. Os pseudo-vitoriosos, realizados e os infelizes manipulados politicamente vivendo de favores, improviso e esmola oficial. Jamais entrarão no sistema de trabalho da nova riqueza. Um apartheid.

Em MOSQUITÓPOLIS parece que não há governo mas também não há povo pra reclamar. Só pra sofrer como gado. A omissão é total. Não se sabe a qual secretaria pertence o problema dos insetos que assolam a cidade e as doenças daí advindas. Doenças da porcalhada e do relaxamento. Será que existe secretaria de saúde, de obras e urbanismo, de habitação e saneamento ou de meio ambiente? Essas equipes não recebem altos salários e outras vantagens do sofrido povo de MOSQUITÓPOLIS ?

De quem é a DENGUE ? Sabiam que ela pode matar? Não importa. Providências pra que? Fumacê? Ação? Nenhuma. Planejamento, nenhum. Orçamento, ninguém sabe. A Câmara de Representantes de MOSQUITÓPOLIS , calada. Não requer, não exige ação do Executivo. Não tem sequer um site para divulgar se aprovou no orçamento de 2006 VERBA PARA COMBATE A DENGUE E AÇÕES DE SANEAMENTO E SAÚDE PÚBLICA.

Como devem sofrer calados os médicos de MOSQUITÓPOLIS , vendo o sofrimento desnecessário nos hospitais da cidade, já que não se faz nenhuma ação de saúde preventiva e os burocratas de MOSQUITÓPOLIS possivelmente deturpam e maquiam as estatísticas para garantir a impunidade. Alguém confere? Fiscaliza?

E os arquitetos de MOSQUITÓPOLIS que poderiam planejar intervenções urbanas e de saneamento ou tratamento de esgoto numa cidade "noveau-rich" entupida de dinheiro pela sua nova riqueza. Mas estes não tem poder político de decisão e precisam de seus empregos ficando recolhidos aguardando ansiosos um chamamento à ação.

Tem até um jornalão bajulador, um pasquim oficioso pra mentir descaradamente para o povo de MOSQUITÓPOLIS enganando também os incautos que chegaram de fora pra trabalhar e esconder os desmandos lá cometidos. Chama-se Diário Mentiroso de Mosquitópolis aonde não há nenhum debate. Só desfaçatez para os pouco inteligentes.

Se os mosquitos e a dengue não são de ninguém (só do povo-vítima dele mesmo, pela sua omissão) nem das Secretarias, nem do gabinete do Alcaide (autoridade máxima no comando de MOSQUITÓPOLIS ), nem dos Representantes dos Mosquitopolitenses então são de quem? É preciso que o Ministério Público deixe seu silêncio e se mobilize numa representação popular ao Judiciário para que faça os (des)Poderes inertes agir. Eles só funcionam compelidos, pressionados para cumprir suas mínimas obrigações (que ainda existem) perante a sociedade Mosquitopolitense. Só falta o Padre da paróquia mas este já reza bastante por todos nós. Cumpre bem sua missão.

Mas MOSQUITÓPOLIS fica na Republiqueta Federativa da Impunidade. Não sabemos se alguma coisa vai funcionar em benefício da população além da cobrança extorsiva de impostos e taxas de serviços que nunca são prestados à contento.

Ainda bem que vivemos em Macaé (RJ) na República Federativa do Brasil. Ufa! Graças a Deus. Aqui vai tudo bem, às mil maravilhas e funcionando perfeitamente, hehe.

Macaé não tem mosquitos. Nem dengue. Ninguém sofre com isso.

BBBBZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZ!

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