Acontecências
Um dos mais simples e nativos empresários morre na região.
D urante mais de 45 anos os moradores, ferroviários, petroleiros e as senhoras dona de casa estavam acostumadas à freqüência em seu estabelecimento comercial. Situada na Rua Euzébio de Queiroz, quase chegando na Avenida Ruy Barbosa, a TOMBRAS se firmou num ramo comercial de quem acreditava no produto que vendia e atendia.
Jorge Batista Azevedo acreditava no seu trabalho artesanal de vender pequena peças para fogão, em recomposição de pequenos defeitos em ventilador e no conserto dos mesmos. A firma, tradicional na Rua da Estação, onde se podia ver ao longe a linda obra da Sociedade Musical Nova Aurora, cuja imagem está atualmente escondida por obra de alguém que não devia pensar no belo das artes, foi fundada por Braulinho Veloso que, logo em seguida, passou para o Jorge o controle da empresa.
A vida macaense, de seus silêncios nas tardes/noites foi despertada pelo barulhar de milhares de carros e carretas que fazem de suas ruas um emaranhado de gente de todas as regiões do país e do mundo. Macaé, embora não tenha se preparado para este aglomerado humano, recebe bem estes moradores e se fazem deles novos amigos e parceiros na vida comunitária.
Jorge era a expressão macaense mais acentuada. Simples no trato sem ser careta no atendimento, ele herdou de Fabio, um dos mais alegres barbeiros de nossa cidade, a beleza do olhar introspectivo e o semblante sério no trato com os semelhantes. Jorge tinha a certeza de que seu produto era vendido na medida da necessidade das pessoas e não usava, esta necessidade, para "meter a mão no bolso de quem ia na sua lojinha". Fazia o trato comercial na medida certa sem que esta medida pudesse ser desumana ou cruel.
A vida dele foi como uma missão de exemplo para seus filhos que continuam sua obra. Vendendo, anotando pedidos e consertando as velhas panelas, velhos liquidificares e velhas canecas que saem novas com sua obra de arte no trato com estes utensílios. "Parece até que tinha sido educado, nesta arte milenar, com o velho "Seu Canico" que fazia isso, nos idos de 1940, na antiga Rua do Beco do Caneco", hoje Julita Oliveira. Jorge devia estar mesmo substituindo as mãos mágicas do velho "Canico"...
Hoje a cidade sente sua falta. Algumas de suas andanças, após o fechamento da Tombrás, suas idas e vinda nos bares da cidade, papeando aqui, tomando algumas ali e distribuindo sua fala acolá. Era uma presença marcante nas ruas de uma cidade que cresceu tanto que as memórias parecem ficar pequenas quando morre gente com ele. Felizmente O REBATE on-line, no www.jornalorebate.com estará sempre ai para evitar que estes homens não fiquem no esquecimento.
Que seus familiares recebem o carinho da imprensa livre e popular de Macaé que sempre retratará, para a posteridade, vultos de nossa história e de nossas ruas, outrora, empoeiradas e puras...
O último gentleman
José Milbs
Aos 84 anos, a maioria deles morando em Macaé, faleceu o senhor Athos Duboc Figueira. Só quem conviveu com ele teve oportunidade de ver sua visão sempre na vanguarda, muito além dos homens de sua geração. Via a cidade, nos anos 50 do século passado, com pelo menos 60 anos à frente das pessoas comuns. Daí seu sorriso sempre matreiro e de difícil entendimento para quem não tinha visão futurista.
Duboc previa este progresso maluco e queria que os governantes crescessem em entendimento e aceitasse que eram seres, infelizmente, com pouca visão. A bitola não deixava que sua voz fosse ouvida e ele, simplesmente, retornava a sua residência a qual preparou para a transloucada transformação de Macaé. Escolheu um local onde pudesse ver a chegada das transformações e. neste recanto lindo, recebia a todos que o visitava com o mesmo carinho que espalhava quando de suas andanças na Rua Direita onde papear nos bares, rever os amigos Faustino Mariano de Castro, Jacob Phillips Lenz e outros que sempre estavam nas saudosas esquinas de uma cidade que some a cada ausência como a sua...
Pensou num grande Hospital para a comunidade e chegou a propor, à época, aos médicos que se reuniam para criar uma clinica, o local da Santa Mônica. Chegou mesmo a criar o nome desta instituição e dela ficou conhecido o lindo morro onde ele residia, viveu em morreu. Os moradores simples que cercam sua residência espalharam tristes a morte de seu mais ilustre morador.
Duboc sabia que a cidade, um dia iria ter que precisar aumentar a Avenida Ruy Barbosa e sair na Ilha da Caieira de onde o transito seria mais leve e mais humanizado. Em 1967 eu era vereador. Tinha pouco mais de 20 anos e este senhor uns 40. Existia um terreno baldio no final da antiga Rua Direita e que pertencia ao município. O Governo Federal, a época dirigido por um dos generais do golpe militar, queria o terreno para que ali fosse construído um tal de Departamento Nacional de Obras e Saneamentos.
As negociações estavam sendo feitas, no nível de Prefeito Municipal. Presidente da Câmara de Vereadores e Governo Federal. Eles queriam a doação do terreno que ia da atual Rua Governador Roberto Silveira até a beira linda e romântica do Rio Macaé.
Numa destas tardes macaenses onde brilha com mais clareza o sol que ornavam as ondas de Imbetiba, ainda pura e fazia pular as sardinhas no Rio Macaé, me encontrava sentado no tradicional Café, Bar e Restaurante Belas Artes. Local de inesquecíveis horas dos encantamentos macaenses.
Um homem, elegantemente vestido, com um olhar firme na fala que fazia brotar seus lábios de formato angular e sereno, se dirige a mim. Uma voz sonoramente formada nas entranhas da invisível laringe fez com que me levanto e também estenda minha mão até este belo senhor cujos cabelos ainda estão aloirados e se misturam com a brancura que nasce nas têmporas.
"Meu chamo Athos Duboc e, você é o José Milbs. Preciso lhe falar. Sentamos uma mesa no final do restaurante do saudoso Paco, pai do Roberto, Santiago. Felix e Paquito. Pedimos ao Toninho um café e espero que Duboc fale. Um leve sorriso brota de seus olhos e contracena nos lábios deixando sair à voz afetiva de um homem, já quarentão na presença de um menino de pouco mais de 20 anos, saído das poeiras da Rua do Meio.
-" Tenho acompanhado sua história política, jovem Pinguin. (meu apelido de infância e que usei em 1958, com 18 anos, quando concorri a vereador pelo PTB e fui impugnado pelo TRE). E continuou: Você, José Milbs, é o mais jovem vereador do Legislativo Macaense e primeiro do Brasil a desafiar o TSE e se sair candidato com menos de 21 anos. Por isso é que eu queria te expor o seguinte:
"Macaé é uma cidade que vai crescer. A Rua Principal não pode morrer na Rua da Boa Vista. A Ponte que vai para a Barra de Macaé não irá dar condições do futuro da cidade. Existe um plano, que vou te dizer "diabólico" do Governo Federal com a Prefeitura que quer fazer o DNOS no terreno que termina na Boa Vista. O projeto vai para a Câmara dos Vereadores e queria que você impedisse este abominável ato de destruição da Macaé do Futuro". E, ainda disse: "Eles vão alegar que eu, sou proprietário da Ilha da Caieira e que sou interessado nesta proibição. Se isto vier ao debate eu estou doando ao município a área se isto evitar esta doação. Além do mais", finalizou com o fechamento de seus lábios deixando fluir um rosto severamente paterno: tem muitos terrenos que se pode doar sem esse que encerra um progresso que vem a galope.(Duboc devia estar prevendo em 1967 a destruição da Praia de Imbetiba e o transito caótico destes anos 2004 com a Barra de Macaé e a Ponte entupida de carrros).
Sai dali pensando numa Macaé nos anos 2000. Estava nos anos de 1960 e este homem previa isso. Procurei Cláudio Moacyr, falei com Salvador Antunes. O primeiro prefeito e o segundo, meu presidente. Alegavam pressão e deixaram escapar o que o Duboc previu. Argumentei que ele se propunha a fazer tudo, até perder sua área, em troca da negação do terreno. Nada adiantou. Sai dos encontros e, apenas cumpri meu dever de vereador.
Eles alegavam "ordens superiores", estávamos na época dos dois Partidos. Um partido do Sim e o outro do Sim Senhor...
Como sempre detestei "ordens superiores"", Apresentei uma "indicação" solicitando que o município não deixasse que um prédio interrompesse o futuro da cidade. Falei até na Candelária, no Rio de Janeiro que, à época, já era um grande elefante branco. Nada adiantou... Perdemos.
O município perdeu a área e se construiu o DNOS que, cheio de desmandos, foi extinto anos depois. Hoje lá se encontra a pomposa Receita Federal. Determinadas inteligências fazem mal a mediocridade. Hoje entendo isso, mais claro, aos 66 anos de idade...
Macaé fica sem a presença viva de um ser em extinção, futurista, inteligente e que escolheu esta cidade pura para viver, amar, criar seus filhos e morrer. Quando Ary Duboc, seu irmão, me apresentou, nos anos 70, ao Paulo Mendes Campos, esta visão de Cidade Pura já tinha sido vista pelo Athus Doboc.
A Luiz Fernando, meu amigo pessoal e aos demais filhos Marluce e Marcos um abraço do O REBATE on-line intensivos a sua carinhosa mãe... Athos Duboc foi um Cavalheiro.
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