
ANTES DO COLÉGIO, LUIZ REID ERA GINÁSIO MACAENSE
* José Milbs de Lacerda Gama
Menino acostumado a ir para Escola Pública, as vezes de tamanco, as vezes de sapato. Naqueles anos 40, as Escolas em Macaé eram chamadas de Escola Isolada, e estudei no Colégio de Dona Dolores Soares e depois na Isolada I. O Colégio de Dona Dolores era na casa dela mesmo.
A Isolada I era onde hoje é um posto de gasolina, em frente ao Banco do Brasil, que por sinal era a antiga Chácara de minha avó Nhazinha. Nesse colégio Isolado onde morou mais tarde o major Nogueira, pai de Osmar Ponta Grossa, um dos bons goleiros, ficav ao lado da residencia de Seu Flávio Moreira de Souza e dona Senhora.
Osmar Ponta Grossa seguiu a carreira de militar do seu pai e, no Exército chegou ao posto de General sendo um dos mais jovens do Brasil a ocupar este posto. Seus irmãos Waldyr, Sérgio e Camélia se casaram e formaram famílias em Macaé onde residem. Seu flávio nos deixou Flavido, Titinho, Roque, Arléa e Ruty cujos filhos espalham sua genetica, genuinamente nativa.
Nesse colégio Isolado I ministrava aulas Dona Déa Coelho. Era filha de Seu David da Rua Télio Barreto, um lindo senhor de cabelos brancos .Um homem bonito e alegre.Mas tarde vim a saber do parentesco com minha família através da Lindaura e tia Domingas que moravam na rua da Estação.
TINOCO
Eu, Sylvio Clímaco da Silva, Lenice, Francisco, Elmo Mendes, Indaiá (alguém tem noticias dessa figurinha linda que morava numa casa perto de onde morou Gildinha e Gervásio?), éramos dessa turma. Silvio Araponga não se esquece. Sylvio atualmente mora no Miramar e das informações que tenho ,via Tinoco irmão de Bijú, ele teve a vista afetada pela diabete e faz parte de um movimento de ajuda aos cegos. Sylvio sempre soube dar a volta por cima. Herdou de sua bondosa mãe a persistência pela vida e a alegria de servir. Tinoco tinha uma pequena deficiencia auditva e, quando a gente falava com ele, simplismente esboçava um lindo sorriso de "não entendimento" que deixava a mostra sua beleza de amigo. No ano passado soube de sua morte. Era um dos pilares da vida ferroviária macaense onde seu pai era um dos chefes de turmas.
NA ISOLADA I
Um dia tivemos uma aula de festas. Imagine quem era o cantor? Eu.!!! e, cantei "QUI SERÁ". era uma canção muito famosa na época. Até hoje Sylvio, que perdeu a vista num diabete, ri quando lhe dirijo cantando. Fazem quase 50 anos e recordo. era assim:
Aí vai a música. Que cantei nos meus 8 anos e que Sylvio, hoje com deficiência visual, ri alegremente quando de minha voz escuta e relembra.
QUI SERÁ
DA MINHA VIDA SEM O SEU AMOR.
DA MINHA BOCA SEM OS BEIJOS SEUS.
DA MINHA ALMA SEM O SEU CALOR..
QUI SERÁ.
DA LUZ DIFUSA DO ABAJUR LILÁS .
VASCO
Jogos de Botões, amigos de outros bairros pobre de uma Macaé ainda empoeirada e pura. Tinha um amigo na Barra do Rio Macaé. Adilson irmão de Elson que se casou com Léa irmã de Sylvio e Bonga.
Sobre Adilson devo quase afirmar que sou Vasco por causa dele. Nas nossas tardes de idas e vindas da rua do Meio até sua casa e da casa dele na minha Adilson ia fazendo a minha cabeça para ser Vasco. Mais tarde quando encontrei no INAMPS com Walter Pereira, seu irmão mais novo, este me reafirmou ser Vasco também por incentivamento de Adilson.
Era no tempo de Barbosa, Augusto e Wilson. Ely, Danilo e Jorge.. Tesourinha, Maneca, Ademir, Ipojucan e Chico. Este era o time que a gente sabia de cor e colocava nos nossos jogadores de botão em jogos nas varandas e calçadas. Adilson tinha um botão de casca de coco e eu um tirado do casaco de meu avô que a gente chamava de "Botão Feitiço" porque ele era todo cheio de esteiras saliência , quando a gente virava o botão de Bunda pra Cima.
Eles sabiam levantar as bolinhas e cobrir os goleiros.Castilho, Pindaro e Pinheiro já era o time que Levy, Roulien, Rubinho Patrocinio e Cláudio Moacyr sabiam de cor.
As vezes íamos jogar na varanda da Casa de Cascalho, o time era enxertado por alguns jogadores do Corinthians e Palmeiras, com a presença de Zizinho do Bangu, Heleno do América e Leônidas Cabecinha de Ouro. Quando um jogador fazia gol de cabeça ao se cobrar um córner ou uma bola cruzada era hora de chamar pelo nome de Baltazar.
Todos faziam parte das fantasias infantis que rondam, creio, as imaginações de toda criança até a eternidade.
Ainda sobre Adilson, estudou comigo muito tempo Morava na barra, vizinho da casa onde mora hoje Maria das Graças e Aluisio Costa. Elson eu revi no PT e na Associação de Ferroviários Aposentados nos anos 90 onde juntamente com Mazinho filho de Dandão, Naná, Lauro, Walter Quaresma ,Tinoco deu "Novos Rumos" as lutas sindicais de Macaé.
ENCABULAMENTO
O encabulamento que cora a face da gente nesta idade de sonhos e realidades que não voltam é comum a todos os tempos que tem criança de l1 ou 12 anos. Faz parte da criação que nenhuma tecnologia irá exterminar. Podem fazer filmes de sexo em horário infantil, massificar em campanhas globalizadas, mais jamais será apagada, da infância, os momentos de seu primeiro amor nascido nos bancos escolares.
Na Escola Isolada dei os primeiros passos na vida meio livre, era uma forma de ir para casa sozinho. Atravessando vielas e becos na Macaé do meu tempo de menino na rua.
Ainda não tinha a casa do Antonino Curi e uma Vala cortava a cidade com seus caminhos feitos pelos passos humanos seguidos por uma carreira de grama certinha como se cortada fosse por máquinas. Era a marca de uma estradinha que ia da Rua Agenor Caldas até a Rua da Igualdade passando pela Rua do meio e indo até a Rua do Sacramento que, por sua vez era ligada a rua da Igualdade por um muro estreito que as crianças pulavam.
. Na vala, onde mais tarde Antonino Cure fez sua casa, a gente tínha um amigo chamado Grebe. Nunca mais soube dele Pergunte por Grebe a Biju Tinoco, ele não soube dizer nada.
São pessoas que ficam gravadas na ,mente e que não se pode deletar. "Zé Relaxado", Orlando - Landinho - Pereira que, aos 84 anos neste inicio de Século tem uma das mais lúcidas e rápidas memórias que se tem notícia.
Landinho era ajudante de Caminhão do Zé de Moura Santos e detalha com minúcias fatos macaenses que ele conta como se tivesse um computador instalado em sua mente.
Por detrás de uma barba por fazer, um sorriso desdentado e um olhar de menino, ele anda pelas nossas ruas com seu rádio de pilha demonstrando o final de uma geração de negros que, com sua morte, ficaremos sem ver nas Andarilhas Ruas de uma cidade que se esvai com o progresso e a virtualidade crescente.. Landinho perambula, fala, recorda e sorri como uma flor que nos encanta em seus momentos de beleza e odor. Talvés como a cigarra, sei lá...
BIRIBA DA FERROVIA
Às vezes a gente ia em Ramialho fazer pião, ou mesmo nos Cajueiros conversar com o sapateiro Fubeca, que jogava futebol igual ao que Garrincha jogaria nos anos 70.
Conhecemos Biriba, Têca, Alfredinho Arley, Padaria , Sinhô, Benoni, e Oséas os melhores jogadores de futebol que Macaé já teve.
Discutíamos, em nossas noites, debaixo das árvores, sentados nos troncos do Pé de Mija-Mija e sob luar belo, quem tinha maior força no chute se Bené. Biriba ou Sinhô. Nunca descobrimos.
Uma coisa sabíamos: nenhum perdia pênalti. Tadeu, Elminho e Bibinho sempre achavam que Biriba jogava melhor que Padaria. Bill discordava e Rubinho dizia ser Fubeca.
Numa coisa todos nos tínhamos uma unanimidade. Sinhô era o mais elegante de todos. Um pela força que era Bené e outro pela maestria que era Biriba. Todos concoravam com as malandragens de Fubeca as nossas discussões caminhavam e varavam tardes noites.
Testeminham estas memórias as frondosas árvores, alguns antigos que ainda vivem e muitos que devem ter tido estas vivências em suas infancias...
EU AFOGADO EM IMBETIBA
Mais tarde, quando num mergulho ia me afogando na Praia de Imbetiba, fui salvo por um irmão de Biriba. Foi minhas sorte, numa hora de almoço dos Ferroviários, alguns ficavam sob a Amendoeira do Bar Mocambo, outros que gostavm do mar, ficavam sentodos na "Pedra de Imbetiva". Eu, menino, ia sendo levado pelo mar. Quando já estava no 3 mergulho fatal, uns braços fortes, com roupas cheirando a oléo de trens, me enlaça pela cintura e me poe na areia. Após recobrar os sentidos me vi diante de Antonio. Apelidei ele de "Salvador" que sempre que o via nossos cumprimentos eram uma eterna .revisão do acontecido. Era o António. Neste dia nem sei como ele fez para entrar na Ferrovia. Estava totalmente molhada as suas vestes. Um ferroviário de nome Sidney, que a tudo viu do alto da Pedra, sempre que a gente se vê nas ruas nos lembramos deste fato marcante. Sidney "Peixe Rei" me cobra uma lembrança deste ferroviário que, me vendo afogar no terceiro e derradeiro mergulho fatal, pulou da Pedra do Rodrigo e me pegou já moribundo.
Foi daí que meu medo de nadar se firmou com mais veemência e os pesadelos noturnos se acentuaram com maior agressividade.
OS CAJUEIROS
O bairro do Cajueiro era um prolongamento da Rua do Meio. Velhos moradores, os Sardinhas, Tibira Vianna pai de Maury, Seu Pinto, pai de Lucimar, Heitor Paes. Almir que veio a se casar com a irmã de Suênio. Ë um bairro de formação nitidamente ferroviário. Uma mistura de cores e peles lindas se formavam a cada ano e eram vistas nas verdes ondas da praia de Imbetiba em seus finais de semana.
O banho de mar era uma obrigatoriedade e nos fins de semana se podia ver, saindo das Ruas e Vielas que levavam até a Imbetiba, centenas de jovens belas seguidas por outras que vinham passar verão em Macaé.
A cidade ficava cheia nos meses de novembro, dezembro, janeiro e fevereiro. Os carnavais eram os melhores do Estado do Rio. Clubes, como o Fluminense, Ipiranga, Tenys, Palmeira, Americano, Atlético e Reis tinham freqüência garantida em 4 noites super cheias. As ruas eram tomadas pelas escolas de Samba saídas dos bairros.
O Independente da Rua do Meio, o bloco dos Cajueiros faziam disputas que eram acirradas nas ruas e becos.
Cláudio Pinto, filho de Monclar, sobrinho de João Pinto e Titinha estudou todos os meandros do Samba e se tornou um conhecedor profundo. Dona Arlete Pinto, sua saudosa mãe, foi uma das mais eficientes doceiras de Macaé e que, sempre que a gente se via nas esquinas macaenses, nos lembrávamos dos peixes "Gordinhos" que era nosso gosto comum...
CLUBES
O Tenys desfilava com dois blocos o "Azul" e o "Branco" onde se destacava a figura inesquecível e folclórica de José Passos Jr. que, deixava de ser um sisudo Farmacêutico para assumir o folião. "Juquinha" que com sua simpatia e irreverência era sempre uma constante presença organizativa e alegre.
O velho Abraão Agostinho funda um Clube perto de nossa casa. Esquinas da Igualdade com Júlio Olivier e lhe dá o nome de "Club Atlântico". Funcionava onde mais tarde, na parte térrea, seu Lima teria a "Padaria São Jorge" onde Lazyr e Mouzart e Angela, vindos de petrópolis, se fizeram nosso.
Durou pouco tempo o clube Atlântico, como duraria pouco o clube que "Dermeval do trailler" fundaria no Bairro Visconde com o nome de "Rodo". Suas ausências foram se juntar ao "Palmeiras" e o "Reis" que também deixaram histórias nos Cajueiros.
As boas coisas, dizem, duram pouco. De uma coisa tenho certeza. Muitos namoros e casamentos foram iniciados no "Atlântico" de "seu Abraão" e no "Rodo" de Dermeval. Quem se refere a Dermeval desde,seu tempo no SAPS com Manduca, realça a sua beleza interior de homem simples e prestativo. Ainda vivia, até pouco tempo, das alegrias de um trailler que pôs no terreno da FEM e que ele teve autorização para colocar.
Dermeval é uma história viva de nossas ruas. Tinha ainda o sotaque meio carioca/macaense e sempre alegre fez sua trajetória nas ruas macaenses. Do alto de seus lm90 tinha dentro uma criança sempre pronta a perguntar e servir. O filho de Ronaldo Madeira, que nos deixou tão precoce e alegre o sabia entender melhor que ninguém.
Quando da morte do menino de Ronaldo, as lágrimas que escorriam em seu rude rosto era a manifestação do afeto paterno/amigo que deixou-se trair.
LEALDINO E O MORRO
O Sol ainda teimava em ficar nas tardes e seu fim de inicio de noite era um vermelho moreno nas casas do Morro do Carvão onde habitava o alegre líder comunitário Lealdino Magalhães. Era uma espécie de homem que serviA com carinho todos os moradores. O Viaduto, onde tinha sua residência, não parava de ser visitado por todos que o admiravam e recebiam dele o afetuoso sorriso e a voz compassada e firme. Seus filhos se espalharam por toda a cidade e Lealdino, que chegou a ser vereador e líder, tinha o carisma que falta e some em nossas andanças por um tempo de beleza que se extingue...
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* José Milbs de Lacerda Gama Historiador e Memorialista
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