Aleitamento Materno: alguns cuidados
Marly Santiago
1. Ingurgitamento mamário:
É mais comum em primíparas (mães de primeira viagem) e costuma aparecer no segundo dia pós-parto. Resulta do aumento da vascularização e congestão vascular das mamas e da acumulação de leite. Pode atingir apenas a auréola, o corpo da mama ou ambos.
Quando a auréola está ingurgitada, a criança não consegue uma boa pega, o que pode ser doloroso para a mãe e frustrante para a criança, pois, nestas condições, há dificuldade para a saída do leite.
Para o tratamento do ingurgitamento mamário, são úteis as seguintes medidas:
Manter as mamas elevadas; usar um soutien apertado.
Compressas frias entre as mamadas para reduzir a vascularização.
Compressas quentes (ou ducha de água morna) antes das mamadas facilitam a saída do leite.
Amamentar com freqüência. Se necessário, extrair o leite manualmente ou com bomba de sucção.
Usar analgésico, se necessário.
2. Hipogalactia (diminuição do leite)
Queixa comum durante a amamentação é afirmar que se tem "pouco leite", ou que o leite é fraco. Esta está relacionada, freqüentemente, com a insegurança materna quanto à sua capacidade de nutrir o seu filho, fazendo com que interprete o choro da criança e as mamadas freqüentes (normal no bebê pequeno) como sinais de fome. A ansiedade que tal situação gera na mãe e na família pode ser transmitida à criança, que responde com mais choro. O complemento com leites artificiais muitas vezes alivia a tensão materna e essa tranqüilidade vai-se repercutir no comportamento da criança, que passa a chorar menos, reforçando a idéia de que ela realmente estava passando fome.
A suficiência de leite materno é avaliada através do ganho ponderal da criança e o número de micções por dia (no mínimo 6 a 8). Se a produção do leite parecer insuficiente para a criança, pelo baixo ganho ponderal na ausência de patologias orgânicas, cabe ao médico conversar com a mãe e tentar determinar o que está a interferir com a produção do leite.
Nesse caso, é importante orientar a mãe a complementar a mamada ao invés de substituí-la pelo leite artificial, mantendo assim o estímulo da sucção, indispensável para a produção do leite.
Além da sucção dos mamilos, alguns fatores estão relacionados com o aumento dos níveis séricos de prolactina, tais como o sono e o exercício físico.
3. Traumas nos mamilos
As mães devem ser orientadas a procurar assistência médica quando surgirem traumas dos mamilos. A amamentação não deve ser dolorosa. Atuação:
Manter os mamilos sempre secos.
Após as mamadas, passar algumas gotas de leite sobre os mamilos.
Secar os mamilos.
Expressão manual da auréola antes das mamadas.
Iniciar a amamentação pelo lado menos lesado.
Variar o posicionamento do bebê nas mamadas, evitando que ele pressione as áreas traumatizadas.
O uso de cremes com vitamina A e D ocasionalmente pode ajudar.
Usar creme com corticóide após as mamadas em casos de fissuras graves.
Analgésicos, se necessário.
Se o tratamento não surtir efeito e as fissuras forem suficientemente dolorosas a ponto de pôr em risco a amamentação, recomenda-se a suspensão da amamentação no seio mais comprometido por 24 a 48 horas, e efetuar o esvaziamento (manual ou com bomba de sucção) da mama comprometida, após cada mamada no outro seio. Após esse período, proceder da mesma forma com a outra mama.
4. Mastite
São as fissuras, na maioria das vezes, a porta de entrada para os germes (especialmente o Staphylococcus aureus) que provocam a mastite. Tal patologia deve ser precocemente diagnosticada e tratada. A mastite, em geral, compromete o estado geral da mulher, provocando dor local intensa, febre e mal-estar. A mama apresenta-se com edema, hiperemia e calor.
O tratamento é conduzido com antibióticos antiestafilocócicos (como, por exemplo, oxacilina e dicloxacilina) e esvaziamento suave e completo da mama comprometida, prevenindo, assim, o ingurgitamento e mantendo o suprimento do leite.
A amamentação não deve ser interrompida. Nos casos em que não ocorrer melhora após 48 horas de tratamento, pode estar a haver a formação de um abscesso, que pode ser palpado e identificado pela sensação de flutuação. Em tais casos está indicada a drenagem cirúrgica e, freqüentemente, a interrupção temporária da amamentação no seio afetado.
A alimentação da mulher que amamenta
Uma mãe saudável, bem nutrida, tem mais possibilidades de amamentar com sucesso. Calcula-se que para a produção do leite uma mulher necessite ingerir um acréscimo de, no mínimo, 500 calorias e 15g de proteínas por dia. Isto pode ser conseguido através de uma dieta variada que forneça todos os nutrientes essenciais. Estudos demonstram que mulheres sem alimentação adequada, e mesmo desnutridas, têm nas mesmas condições para amamentar os seus filhos.
O papel do Pai na amamentação
Nas famílias modernas surge a necessidade de os pais darem apoio psicológico e assistência às mães.
Em estudos efetuados provou-se ser o pai uma figura importante para a prática do aleitamento materno. No entanto, muitos pais não sabem de que maneira podem apoiar as mães, provavelmente devido à falta de preparação. O profissional de saúde deve dar atenção ao novo pai e estimulá-lo a participar neste período vital para a família.
Além dos pais, os profissionais de saúde devem tentar envolver as pessoas que têm uma participação importante no dia-a-dia das mães e das crianças, como avós, familiares, etc.
Conciliando a amamentação e o trabalho fora de casa
O trabalho materno fora do lar é um obstáculo à amamentação. Apesar disso, as taxas de aleitamento materno entre as mães que trabalham fora do lar mostram que é possível conciliar trabalho e amamentação. Conselhos a observar:
1. Praticar o aleitamento materno exclusivo.
2. Avaliar no local de trabalho onde poderá retirar e armazenar o leite.
3. Familiarizar a criança com antecedência (10 a 14 dias) com a pessoa que vai cuidar dela e o alimento que vai receber na sua ausência.
4. Amamentar o maior número de vezes que puder, quando estiver em casa.
5. Amamentar logo antes de sair de casa e assim que chegar.
6. Não alimentar o bebê próximo do horário de chegada da mãe para que o seio seja esgotado durante a mamada.
7. Evitar ao máximo o uso de biberão no período em que a mãe estiver fora de casa. Se a criança não for muito pequena, alimentá-la com papas ou sumos, usando uma colher ou um copinho.
8. Durante as horas do trabalho, esgotar o seio manualmente, ou com bomba, e guardar o leite no frigorífico no máximo 24-48 horas.
9. Oferecer o leite à criança na ausência da mãe ou congelá-lo (até 6 meses).
10. O leite em estoque nunca deve ser fervido ou colocado no microondas. Deve-se deixar descongelar naturalmente e aquecer em banho-maria.
Desmame
Desmame é definido como o processo que se inicia com a introdução de alimentos diferentes do leite materno. Deve ser gradual, com início entre os 4 e 6 meses de idade. Nas comunidades onde o saneamento é precário, recomenda-se atrasar o desmame, caso a criança se esteja desenvolvendo adequadamente.
Alimentos complementares não são necessários nem recomendáveis antes dos 4 meses, idade em que a criança desenvolve o mecanismo de secreção salivar e a capacidade de mastigação, podendo deglutir alimentos semi-sólidos.
A partir do 6º mês o aleitamento materno exclusivo pode tornar-se inadequado, uma vez que após essa idade um número crescente de crianças necessita também de outros nutrientes para manter um crescimento adequado.
A altura para ser retirado completamente o seio depende muito de fatores sociais, econômicos e culturais.
A Organização Mundial de Saúde preconiza o aleitamento materno exclusivo nos primeiros 4-6 meses de vida e parcial até aos 2 anos, especialmente nas populações de baixo rendimento econômico, uma vez que o leite materno pode ser uma importante fonte de calorias e de proteínas de alto valor biológico no segundo ano de vida.
As razões mais freqüentes para a interrupção precoce do aleitamento materno são: leite insuficiente, rejeição do seio pela criança, trabalho da mãe fora do lar, "leite fraco", hospitalização da criança e problemas com o seio.
Acredita-se que, entre as razões alegadas pelas mães, estão ocultos fatores de ordem emocional e erros técnicos no aleitamento, principalmente a administração de biberões intercalados entre as mamadas no seio.
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