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...Ano I Nº 11 - 7 a 14 de abril de 2006

O Brasil foi para o espaço há muito tempo

Leonardo Marinho

Marcos Pontes - Astronauta
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No próximo dia 29 está para acontecer um evento nacional. A nave russa Soyuz TMA-8 partirá de Baikonur, Casaquistão, rumo à órbita terrestre para uma missão de oito dias. O tenente-coronel Marcos Pontes será o primeiro astronauta brasileiro.

A propaganda do governo dirá que é uma grande conquista. O próprio astronauta compara a sua viagem a uma vitória da seleção brasileira. O cenário não é bem esse. Enquanto Pontes ficará apenas oito dias, o estadunidense Jeffrey Williams e o russo Pavel Vinogradov deverão ficar no espaço durante seis meses.

Enviar um astronauta ao espaço com o intuito de propaganda política é um costume antigo. Nos anos 1970 a URSS incluiu em suas missões astronautas dos países do bloco socialista. Em 1978, Vladimir Remek se tornou o primeiro astronauta não-soviético e não-estadunidense a chegar à órbita terrestre. No mesmo ano, os russos levaram o polonês Miroslaw Hermaszewski, o alemão oriental Sigmund Jähn (retratado no filme Adeus, Lênin) e o búlgaro Georgi Ivanov. Nos anos seguintes foram ao espaço os astronautas de Hungria, Cuba, Vietnã, Romênia e Mongólia. Só em 1982 é que os Soviéticos levariam astronautas do bloco ocidental.

O Brasil será o 35º país a entrar no clube de países que tiveram cidadãos na órbita da Terra, 21 anos depois da Arábia Saudita, 18 anos da Síria e 17 do Afeganistão. A "conquista" do Brasil acontece quase cinco anos após ao envio do primeiro turista ao espaço e quase um ano do primeiro vôo comercial na órbita terrestre.

O feito de Pontes também é comparado ao de Santos Dummont. A Agência Espacial Brasileira batizou a viagem de "Missão Centenário" em comemoração aos 100 anos do vôo do 14-Bis; esta sim uma "conquista". Já o tenente-coronel Pontes ficou anos a espera da viagem na NASA e dificilmente teria chance de ir ao espaço se o programa espacial russo não precisasse de recursos contabilizados.

Os mais exultantes dirão que o Brasil ganhará com o mercado de satélites e com a importância das pesquisas, mas a correlação de uma viagem com intuito político não desmerece os maciços investimentos necessários para consolidar o programa espacial brasileiro.

Os experimentos utilizados na missão terão pouca relevância científica. A viagem de Pontes custará cerca de US$ 10 milhões aos cofres públicos. Pouco se comparado ao orçamento do país, mas muito comparado aos investimentos em ciência no Brasil, motivo para a "fuga de cérebros" para o exterior.

É comprovado. Um astronauta tupiniquim trará mais retorno político do que apoiar diversos programas científicos de mesmo valor em dólares. Já em longo prazo...

O Brasil é o país do futuro... do pretérito. O longo prazo é raro e a exaltação da filosofia do "deixa a vida me levar" prevalece. O objetivo é igual à construção de Brasília. Apesar da corrupção e inflação no governo JK, os livros e séries de tv destacam os grandes feitos, principalmente se o país ganhar a Copa do Mundo na Europa, como em 1958. O atual presidente adora se comparar a Juscelino Kubitschek. A diferença é que Juscelino gostava de trabalhar e o governo Lula poderia ter o slogan "Quatro meses em quatro anos".

Boa parte da população achará que a nave é brasileira. Muitos vão comparar o feito de Pontes aos chineses, sem saber que a China foi o terceiro país, após a URSS e EUA, a lançar por conta própria um astronauta ao espaço.

Enquanto isto o cenário no Brasil é desolador. Recentemente, a dívida interna ultrapassou a estratosférica barreira de R$ 1.000.000.000,00. Some-se a isto o caos das instutições alimentado pela corrupção, acordos políticos (acordão e demais), caixa dois, valerioduto, sigilo bancário quebrado ilegalmente, dólares na cueca, roubo de armas do exército, crimes sem solução, superlotação nos presídios, impunidade para os privilegiados e o pífio crescimento da economia (O Brasil só superou o Haiti em crescimento econômico em 2005 na América Latina. Detalhe, o Haiti está em Guerra Civil).

É triste, mas o Brasil foi ao espaço há muito tempo, o presidente no mundo da Lua e a oposição parece que nunca esteve no planeta corrupção.

A ridícula dança da Pizza da deputada petista Angela Guadagnin (PT-SP) é apenas mais um capítulo nefasto do cotidiano político. Logo após a confirmação da absolvição do seu colega de partido João Magno (PT-MG), a parlamentar comemorou sambando no plenário enquanto seu caro amigo ria e falava ao telefone celular.

O deputado mineiro confirmou que recebeu R$ 476 mil do empresário Marcos Valério e não declarou à Justiça Eleitoral. Sua cassação foi recomendada pelo conselho de ética que apura as irregularidades do escândalo do mensalão (neologismo criado pelo deputado Roberto Jefferson para citar os deputados que supostamente recebiam quantias periódicas para aprovar os projetos de interesses do governo).

A comemoração da deputada foi uma demonstração de escárnio com a opinião pública. Em qualquer país sério ela teria o mandato cassado com esta atitude, aliás, em qualquer país sério a deputada não teria esta atitude desrespeitosa com os eleitores e demais parlamentares.

A falta de opção política é clara. PSDB e PFL estiveram oito anos antes no poder e a administração foi recheada de escândalos (reeleição, privatizações, etc.). Um suposto acordão para livrar os deputados junto ao PT é o ponto alto da falta de credibilidade dos políticos. O cuidado em não mencionar a participação do atual ministro da fazenda em orgias com prostitutas parece que todos estão envolvidos, no Brasil prostituição é crime não custa lembrar.

Os outros grandes partidos ou estavam envolvidos ou então fazem parte de escândalos. A falta de perspectiva é grande. Os pequenos partidos ou são oportunistas ou são legendas de aluguel.

O PT agora é vidraça. O partido não pode ser o único culpado pelos fracassos históricos do Brasil nem da missão política ao espaço. Entretanto, o presidente exagera nas afirmações incorretas e seu partido rasgou o rótulo de defensores da ética. As inaugurações de obra visando a reeleição é um exemplo. O PT votou contra a reeleição, Lula declarou-se contra ela e agora, quando interessa, está em campanha para se reeleger. Assim como o presidente e o partido propagam que tudo não passa de uma tentativa de golpe das elites, enquanto eles mesmos fazem parte da elite política e econômica do país.

A falta de coerência não é privilégio do PT. O programa de esmolas "Bolsa Família" foi adaptado do governo anterior. Apresentado como investimento em pobres, os programas assistencialistas se revelaram ineficazes no combate à pobreza e eficientes em manter políticos oportunistas no poder.

O cenário brasileiro não vai mudar com a ida de um astronauta ao espaço. Investimentos concretos e duradouros em pesquisa e educação são o caminho para que o país melhore o padrão de vida de seus cidadãos. O Brasil está em 70º lugar no PIB per capita e 63º no ranking do IDH - Índice de Desenvolvimento Humano - atrás de países como Kuwait, Bahamas, Líbia, Costa Rica, Brunei e Tonga. Tonga! Os políticos sabem onde fica Tonga?

O Brasil não está no rumo da China, Índia e Rússia. O sonhado BRIC (Brasil, Índia, China e Rússia) é uma comédia sem graça, assim com a dança da deputada petista e a viagem do primeiro astronauta brasileiro.

Saiba mais e veja o vídeo da Dança da Pizza.

Especial Brasil no Espaço

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