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...Ano I - março de 2006

A guerra americana

Leonardo Marinho de Souza

O gigantesco disco voador paira sobre o deserto. Ele já pulverizou a Casa Branca e o pentágono com seus raios yx e agora avança para dar cabo do presidente dos Estados Unidos, que está escondido numa base aérea, um dos últimos bolsões de resistência. Alguns caças tentam se opor ao avanço, mas vão sendo abatidos um a um, com ridícula facilidade.

O cruel Xmux acompanha o massacre por sua tela ômega, sorrindo satisfeito pelas três mandíbulas. Mas eis que acontece algo inesperado:

- Ali, Zbog! veja ali! - grita Xmux apavorado. - O que é aquilo?!

- Ai, meu Deus! - responde Zbog.

Um dos aviões americanos vem rumando direto para o umbigo da nave, o centro nervoso, o miolo, o ponto G... Se tocar ali, explode tudo.

- Um terrorista! - berra Xmux, erguendo-se nas seis patas traseiras.

- Ai, que horror, um terrorista camicase! - acrescenta Zbog.

- Alerta cinza! - grita Xmux pelo auto falante. - Atenção operárias, soldadas, rainhas fêmeas, rainhas macho, ninfas e larvas, alerta cin...

BUM!

Estava tudo acabado. A imensa nave dos orgulhosos ExxoM'ianqs, que era também sua cidade e toda sua civilização, havia explodido junto com o avião do terrorista. Uma tragédia!

Tragédia? Tudo é uma questão de ponto de vista. Para os americanos, esse mesmo acontecimento foi algo glorioso, celebrado com bandeirinhas, bexigas e mulheres vestidas com bandeiras; e o piloto "terrorista" foi considerado um herói.

E esse é o final do filme Independence Day.

É interessante como Hollywood gosta de inverter as coisas. Lá, ser prostituta parece algo glamouroso, leve e lindo. A solidão doentia do caubói - que não precisa de ninguém, e vai-se embora sem olhar para trás - parece o modelo ideal de vida de um homem. E os soldados americanos parecem heróis. Heróis que enfrentam sempre inimigos infinitamente mais poderosos, e que intrepidamente sacrificam as próprias vidas.

É um fenômeno curioso, que deve ser causado por alguma espécie de compensação psíquica. Algo como o baixinho valente, o brutamontes dócil, a modelo analfabeta que tenta parecer inteligente, o homem impotente que age como conquistador insaciável, ou algo do tipo... Pois a realidade é exatamente o oposto do que o cinema mostra.

A guerra americana da vida real não é heróica; é torpe como o raio yx do disco voador: um apocalipse de bombas, mísseis, fogo, explosões, radioatividade, agentes químicos e napalm, caindo sobre pessoas que nunca saberão o que as atingiu e que nunca tiveram nenhuma chance de se defender... Dresden, Hiroshima, Bagdá... a lista é longa.

Não há nenhum heroísmo em apertar um botão à distância e disparar projéteis com urânio empobrecido (arma proibida), como os EUA fizeram em 1991 no Iraque, causando deformidades tão brutais em bebês que minhas palavras jamais conseguiriam descrever [Se o leitor quiser ver por si mesmo: www.answering-christianity.com/iraqi_torture.htm]; nem em bombardear os soldados Iraquianos com napalm (outra arma proibida) [digitaljournalist.org/issue0212/pt_index.html]; nem em usar a ONU para criar sanções contra o Iraque, cujo real objetivo era enfraquecer o país e invadi-lo, mas que provocaram a morte por desnutrição de centenas de milhares de crianças.

A guerra americana da vida real é uma gigantesca engrenagem de triturar gente, uma fria máquina da morte. E quem serve e opera essa máquina são as antíteses dos heróis dos filmes: os soldados americanos da vida real, alter egos dos insetos do disco voador. Bravos apertadores de botões na retaguarda; mas que, quando se vêem no mano a mano, parecem galinhas inquietas, de olhos esbugalhados, que enxergam inimigos até na própria sombra e disparam contra tudo que se move, inclusive mulheres, crianças, jornalistas e seus próprios companheiros.

Mas, apesar de tudo isso, a crença dos americanos no próprio heroísmo segue viva, resistindo aos fatos. O único lampejo de realidade ocorreu em 11 de setembro, quando - além de provar uma pitada do próprio veneno - eles viram os pilotos da Al Qaeda fazer exatamente o que seus heróis sempre fizeram nas telas, mas só nas telas; e viram cair por terra não as torres, mas a nave espacial de seu próprio narcisismo; e viram restar no lugar delas um amargo vislumbre da própria face, uma incomoda reposta para a pergunta que jamais ousaram fazer: quem é o herói, e quem é o covarde?

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