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...Macaé, ano I, Nº 26 - 21 a 28 de julho de 2006
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CONVULSÃO CELESTIAL

escrito por Langstain Almeida em 1964 quando esteve na ilha de Fernando de Noronha como preso político, conforme carta enviada ao jornalista José Milbs:

" O texto assinalado com a epígrafe: CONVULSÃO CELESTIAL , foi escrito com os recursos milagrosos da realidade mágica , em Fernando de Noronha no ano de 1964 quando estive no Quartel Central como preso político.

Era um fim de tarde do mês de julho. O tempo fechou com chuva torrencial e ventos em alta velocidade. Ondas de até quatro metros surravam os rochedos provocando um barulho ensurdecedor. O vento ululava nas grades de minha masmorra imitando o rugido plangente do cão doente.

Havia um lápis deixado por um preso anterior a mim. Não era permitido o uso de papel de escrever. Eu precisava descrever as cenas que a natureza exibia aos meus olhos nervosos. O que fazer? Onde gravar as inspirações de meu espírito atribulado!? Lembrei-me do papelão que ficava entre o lastro de cimento da cama e o colchão de espuma.   

Foi nesse papelão que escrevi o texto que vai anexo.

Um dia antes de ser solto, pedi ao cabo Dino que copiasse esse trabalho e remetesse para o endereço da senhora minha mãe inserido logo abaixo do escrito.

Só depois de aposentado foi que Dino remeteu-me esse material literário, em 1981, dezessete anos depois do pactuado entre nós.

O texto copiado à máquina de datilografia vinha acompanhado de um bilhete apócrifo que informava:

    "Três dias depois de aposentado, cumpro o acertado. Peço que esqueça nossas conversas à procura de melhores caminhos para o Brasil. Ainda estamos sob ditadura...

    Desculpe pela ausência de minha assinatura."

Langstain é autor do romance de combate: A DOMINAÇÃO DO TERCEIRO-MUNDO, uma editoração da Alfa-Ômega, com venda pelo Portal: www.alfaomega.com.br e pelo Sebo Cultural da cidade de João Pessoa-PB.

Explicação: "O texto abaixo foi redigido com o uso de metáforas, figurações e tropos, compondo um quadro de rara beleza literária." (comentários de Agassiz Filho)

A ilha de Fernando de Noronha é um astro no mar, sitiado de orquestras por todas as ilhargas. Parece um olho oceânico contemplando o infinito. Os raios de luz que lhe beijam as faces são mais meigos do que os outros que se deitam sobre outras paragens.

É a solidão deste pingo de orbe que inspira proteção à claridade eterna do universo. Se os raios do sol em zênite queimam-na, só o fazem com o carinho de amante dedicado. Quando os raios de luz se vestem de nuvens, ainda assim o mar fica a velar com os reflexos luminosos de suas vagas, a beleza sedutora da ilha.

A formosura da ilha é mais sensual do que a de qualquer outra vivenda. Proclamar-se-ia como um privilégio imenso, ser filha única do pélago ciclópico. Daí os abraços maternais que a mãe-oceânica lhe concede em estágio permanente.

Logo que se dera o parto divino, a mãe-oceânica aureolara a filha com um diadema eviterno de espumas de prata. O tempo, verdugo do presente e amantíssimo do porvir, que irá obliterar inevitavelmente a auréola da Virgem pintada por Del Sarto, só faz exaltar do florilégio espúmeo da ilha, suas miríades de pérolas brilhantes e nacaradas.

A mãe-oceânica fizera de sua cria de argila um instrumento musical e de suas praias extrai acordes que são a serenata colossal do pó cego à luz etérea das estrelas. Este templo de som perpétuo é a reverência do portentoso mensurável à abóbada infinita do portentoso imensurável.

Há momentos em que a harmonia dessa catedral de música paira mais melodiosa. São os cânticos matutinos das multidões de gaivotas que entram na composição dessa filarmônica de titãs eternais.

Num instante, toda solfa harmoniosa da ilha se transfunde pela aproximação da tempestade formidolosa que ameaça no horizonte. A ilha fica amedrontada diante da procela. Seu pavor cresce de intensidade. Nimbos tenebrosos já se avizinham tangidos por ventos em alta velocidade. A ilha se assusta ainda mais. Ela é fraca e sente medo, reverberando nessa debilidade, toda sublime beleza feminil. Afirmar-se-ia que o coração quer saltar-lhe do peito. Ela toda aparenta tremer de susto. A borrasca, em bandos selvagens, avança a passos iracundos. Agora já corre associada ao tufão. Seu poder de destruição chega ao paroxismo. Essa dupla infernal já está à vista. Dispara suas armas arqueozóicas. O estrondo dos trovões reboa pela barriga da ilha. O nervosismo dela chega aos limites do suportável. A despeito de sua obstupefação, a ilha consegue mobilizar mãos para proteger seus pássaros nas fímbrias de seus morros ululantes. Informar-se-ia à fantasia poética que a ilha neste instante se deitara para resgardar-se do perigo iminente. Frente à impetuosidade da violação impendente, algumas partes de seu corpo oferecem o espetáculo sensual da deiscência, para num esforço ingente abrigar as formigas. Por suas anfractuosidades ainda grita pelas borboletas e as esconde nas dobras de sua saia.

A ilha toda já emite um gemido abafado pelejando por se ocultar da tempestade insensível. O tufão impiedoso dispara sua arma arrasadora. A ventania agora adquire poder de destruição. A tempestade solta suas metralhas. Relâmpagos em ziguezagues de ódio cortam a atmosfera. Mesmo aterrorizada ao extremo do tolerável, a ilha ainda olha preocupada para as ilhotas de Rata, Lucena, do Meio, de Sela Gineta e Rasa. Estas ilhazinhas elegantes compõem o turbante arqueano que a mãe-oceânica postara na fronte dileta da filha predileta. Por seu olhar suplicante, a ilha queria salvar essas lembranças ornamentais do inexcedível desvelo maternal. Num ápice, esses adornos multimilenares desaparecem na bruma trevosa. Os dois Hércules do espaço agora se dirigem contra as praiazinhas do Espinhaço, das Caracas, do Cupim-Açu, da Sapata e Barro Vermelho. Estes cinco brinquedos também foram um presente da mãe-oceânica à filha venerada. Com eles, ela se entretinha muito no tempo em que seus cueiros ainda eram tecidos com rochas eruptivas e magma vulcânico. Pelo jeito prosternado de seus braços, a ilha também queria preservar esses frívolos recreios. Esforço inútil. Em pouco tempo a treva envolve em seu manto sinistro os relevos cândidos desses folgedos pueris.

O tufão, conspurcado por uma incorrigível incontinência libidinosa, investe pelos picos do Francês e do Leão e sobre estes dois mamilos majestosos, deita a boca numa sofreguidão de louco. Num ímpeto de ciúme, rasga-lhe a blusa feita de orquídeas e jasmins e joga tudo para os ares. A dor moral fora intensa e a vergonha, desmedida. A ilha cai em desespero profundo. De suas entranhas se desprega um uivo de socorro dirigido à mãe aflita. Fora o último pedido arrebatado de remição.

O barulho atroa ensurdecedor. Só o ouvido sensível do amor de mãe lograra captar esses ecos de valimento desesperados.

A mãe-oceânica estremece toda. Em seus átomos de hidrogênio e oxigênio, sente o fervilhar imensurável do amor materno. Nunca o havia sentido antes e nunca se achara com tanta força em seu âmago. Parecia que toda matéria frágil de seu ser se havia transformado em músculos de aço.

A fêmea é fraca, mas a mãe é forte. A fêmea é um arminho de candura, a mãe, uma fera indomável. A fêmea conquista com a beleza, a mãe, com a doçura. A fêmea envolve com o olhar, a mãe, com o ventre. A fêmea sente o amor no corpo todo, a mãe o sente em todo o coração. Uma é só medo, a outra, só heroísmo.

É uma mãe assim, dotada de força hercúlea, que ouvindo o clamor da filha, corre em seu socorro. Por um processo taumatúrgico, a mãe-oceânica num ímpeto, transmuda toda sua imagem. Propalar-se-ia pelos jorros da imaginação lírica que ela franzira o cenho bravio como o tigre antes do ataque. Todo seu vulto se crispa em movimentos assustadores. Num segundo, arrojando-se numa deslocação abissal, afigura querer raspar de sua última profundidade, o segredo todo de toda sua força. Depois desse gesto abismal, lança o corpo numa atitude convexa. Supor-se-ia um dromedário desconforme. Num encrespamento metamórfico, transfigura-se numa salamandra descomunal. É nesta forma sobrenatural que a mãe-oceânica vai ao encarniçamento em defesa da filha. Mete-se pela Baía do Sancho e pela Enseada da Galera que são as partes mais baixas da ilha. Espicha o pescoço para enxergar os inimigos e os descortina em sua obra dantesca de destruição. O vestido da ilha já estava todo em frangalho. Não havia um só ramo de vegetação que não houvesse sido arrancado da epiderme da vítima. O tufão havia despido todo o corpo da ilha com mãos de sádico. A tempestade jogava pedras de granizo na cara da coitada. O gemido da ilha se fazia constante. A intervalos curtos, soltava gritos horríveis. A detonação dos trovões denunciava-se persistente e atroadora. Os relâmpagos fosforesciam a cena teratológica.

Diante da filha quase moribunda, a mãe-oceânica avulta-se! e sobre suas próprias vértebras, levanta-se tal qual uma serpente monstruosa. Interpretar-se-ia que essa mãe assim angustiada queria arrastar o campo de batalha para o espaço sideral. Estira seus braços formidáveis tentando agarrar os inimigos pelas goelas. Não os alcança. Desprende bramidos furiosos, tão aterradores quanto os rugidos tétricos da loba que se atira à matilha para defender seus filhotes. Essa mãe-oceânica nunca fora derrotada! Ela sabe vencer gigantes sobrenaturais. Num átomo concebe que precisa dominar logo essa batalha de colossos prodigiosos.

A vitória ao nível do chão ser-lhe-ia impossível. Seus inimigos estavam protegidos pela altura de trincheiras celestiais. Neste ambiente infernal, a mãe alucinada busca a todo custo impedir o instante apocalítico da filha infortunada. Num gesto brusco, olha à sua retaguarda e vê no horizonte que o teto azul do céu roçava-lhe os pés descomunais. Num relance, verga-se para esse novo teatro sacudindo o corpo em convulsões formidáveis. Com os inimigos ao alcance de seus gadanhos soberbos, aos dois tritura e aos dois sorvera para as profundezas misteriosas de seu ser.

Passado o fragor dessa pugna singular, tudo se enchera de silêncio na ilha de Fernando de Noronha. Nem o pio do menor passarinho e nem o menor zumbido da menor abelha se ouviam. A existência imitava o mutismo sepulcral dos panteãos. A mãe-oceânica não permitia que a menor escâmula se urdisse em sua pele gláucica. A calmaria ostentava-se absoluta!

Em verdade, essa mudez paradisíaca decorria do respeito que todos devotavam à ilha convalescente.


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