A DEMOCRACIA DA SENHORA RICE
por Langstain Almeida*
A senhora Condolezza Rice proferiu no Conselho das Américas, em Washington, este argumento deliberadamente enganoso:
"As nações e as organizações regionais devem atuar decididamente para evitar que os avanços do desenvolvimento democrático sejam arruinados por "demagogos ou ditadores".
Sua Excelência se referia ao esforço de integração da América Latina despendido pela Venezuela, Brasil, Bolívia, Argentina e Cuba. Na cabeça louvada dessa eminência notória, a política de integração latino-americana é ato de demagogo e de ditadores. Será que toda essa ira é devida à certeza de que a união da América Latina será o fim da espoliação decenal das elites estadunidenses!? Sem ter nada de bom para exibir durante seu reinado de 60 anos sobre os latinos, a Senhora Condolezza mostra as garras em seus discursos. Nem o atoleiro da elite buxinina no Iraque se presta para aplacar a virulência da diplomacia coice-de-mula.
Para essa dignatária estadunidense, Pinochet foi um democrata e Hugo Chaves é um ditador. Na democracia dela, voto é dólar. Quanto mais dólar um governante arranca de seu povo e remete para a plutocracia americana, mais esse indivíduo é democrata.
Faz sessenta anos que políticos safardanas e generais sanguinários esfolam os povos latino-americanos para remeter a riqueza do trabalho social para as elites do Primeiro-Mundo. Esses tracambistas são os únicos responsáveis pela existência de cerca de 270 milhões de miseráveis que vegetam em morros e favelas da América Latina.
Com as mãos nos cofres públicos, esses arrivistas se valem de um processo eleitoral intencionalmente preparado para perpetuá-los nessa posição enche bolso.
Se num esforço ingente, o povo de um país latino elege um Chaves por seu dirigente, a Senhora Condolezza logo o chama de "anti-democrata e demagogo".
Não somos videntes, mas podemos presumir que S.Exª colocou em sua galeria de democratas o pôster do general Videla que assassinou cerca de trinta mil intelectuais argentinos para mandar riqueza para a plutocracia ianque. Em sua coleção de democratas, lá devem estar as caras de Garrastazu e Geisel, lustradas com o sangue dos heróis do Araguaia e com o sofrimento dos torturados dos Dói-codes.
Nas elaborações mentais de S.Exª, Evos Morales é um ditador justamente porque retomou para seu povo a posse dos recursos energéticos doados à plutocracia internacional por governos bolivianos extremamente corruptos. Enquanto Evos é tido por ditador, o ditador Musharraf do Paquistão é aplaudido como democrata. Para Drª. Rice, voto não vele nada. A democracia dela é toda feita de dólar, haja vista a admiração que Sua Excelência defere ao monocrata ditatorial da Arábia Saudita.
Para essa respeitável senhora, democrata é um tipo Kissinger que impôs aos ditadores militares sul-americanos a doutrina macabra da morte pura e simples dos presos políticos de esquerda.
Em obediência a essa teoria de sangue, o corruptíssimo general René Barrientos mandou executar Che Guevara, já na condição de preso político, numa escola de Lá Higuera, centro-sul da Bolívia, no ano de 1967.
Subtrair Guantánamo do território de Cuba, e neste solo alheio construir fortalezas adredemente preparadas para torturar pessoas sem qualquer culpa formada, é para a Senhora Condolezza e para a plutocracia ianque que ela representa, democracia do melhor calibre!
Invadir o Iraque para impor um governo que entregasse os campos de petróleo às companhias estadunidenses, é para Sua Excelência, democracia da melhor espécie.
Hugo Chaves foi na América Latina quem mais se submeteu ao veredicto de seu povo em eleições supervisionadas pela OEA. Até a um plebiscito revocatório em meio de mandato, ele se subordinou. Ainda assim, a Senhora Rice o chama de ditador. Isto comprova que para Sua Excelência, democrata é o governante que permite a transferência de riqueza de seu povo para a elite econômico-financeira do país dela. Aquele governante que se opuser à pilhagem dos recursos naturais de seu território pela plutocracia ianque, é para a Senhora Condolezza um incorrigível ditador.
Se Lula nacionalizasse os 60% de ações da Petrobrás que Fernando Henrique filipetou para os especuladores internacionais, logo seria considerado pela Senhora Rice um ditador da pior espécie.
Se Lula nacionalizasse a Vale do Rio Doce e expulsasse da Amazônia os estrangeiros que patenteiam para os laboratórios internacionais, os remédios naturais dos nativos, imediatamente seria considerado pela Senhora Rice um tirano sanguinário. Se Lula nacionalizasse o nióbio, o quartzo, o petróleo, a floresta amazônica e todos os minerais estratégicos que esse impatriótico Congresso Nacional desnacionalizou, Drª Condolezza devotaria a ele a mesma náusea que consagra a Fidel Castro.
Pelo léxico de qualquer idioma, governo democrata é o que atende aos interesses de seu povo. Para a Excelentíssima Secretária de Estado, governo democrata é o que atende aos interesses das elites do Primeiro-Mundo. Dai o motivo pelo qual ela chama Hugo Chaves de ditador, Evo Morales de anti-democrata e Fidel Castro de déspota feroz.
Nem adianta se fazer eleição para que se tenha a glória de ser eleito por uma democracia. O negócio é arreganhar os recursos naturais da América Latina à sanha das elites do Primeiro-Mundo, e depois correr até o palanque da poderosa Senhora para receber o emblema de democrata.
Façam-se votos para que a Drª Condolezza leia a manchete do jornal alemão: Der Spiegel , sobre a nacionalização decretada pelo governo de Morales:
"O saque feito por empresas estrangeiras terminou"
Será que as transnacionais do país da nobre autoridade usam a pilhagem como forma de execução de contratos leoninos firmados pelos governos corruptos da América Latina, da África Subsaariana e do Sul da Ásia!?
Por que a miséria social da América Latina que girava em torno de 5% até 1960, hoje alcança a cifra infame de cerca de 50%?
A eminente Senhora Rice precisa saber que os dois bilhões de miseráveis do Terceiro-Mundo, foram uma construção lúgubre do modelo econômico dependente injungido pela plutocracia estadunidense aos governos bandalhos e subservientes do hemisfério sul.
Os 80 milhões de miseráveis do Brasil devem seu engrossamento dantesco aos ditadores militares, aos Sarneykins, aos Renan Kalheirokins, aos Alkiminkins, aos Fernokins Henrikô, à política econômica dos Lurrikins e a esse Congresso Nacional que vota fechado por suas lideranças quando é para decidir contra os interesses da nação.
A história revela que foram pouquíssimos os governantes que se sacrificaram pelos índices de bem-estar de seus povos. Para identificá-los, o pesquisador perspicaz só necessita saber a quais governantes da América Latina, a plutocracia estadunidense odeia. Os que não forem odiados pela elite econômico-financeira ianque, ou surrupiaram seus povos ou governam carreando o grosso dos recursos públicos para os cofres dos grupos econômicos estrangeiros.
Se o capital estrangeiro do país da ilustríssima Secretária de Estado, produziu cerca de 270 milhões de miseráveis na América Latina, é justíssimo que os povos procurem se salvar dessa hecatombe com seus próprios instrumentos de progresso.
Tudo pela integração da América Latina!
__________________________
*Langstain é autor do romance de combate: A Dominação do Terceiro-Mundo , uma editoração da Alfa-Ômega, Portal: www.alfaomega.com.br.
Veja outros artigos de Langstain Almeida |