"BIZÂNCIO" (F.CAMPANELLA)
Vejo, em uma exposição de pinturas sacras, uma seção inteira dedicada aos ícones bizantinos. São reproduções minuciosas feitas por um artista que, talvez fascinado pela beleza e religiosidade daquelas obras, tentou apreender-lhes o mistério e as particularidades. Alguém encantado , como eu, por aquela admirável produção do espírito humano.
Bizâncio, a partir do imperador Constantino, que a denominou Constantinopla, foi a capital do Império Romano no oriente. Sua arquitetura esplendorosa ainda fascina, tendo como expoente máximo a igreja de Hagia Sofia, considerada uma das mais belas catedrais de todos os tempos. Construída durante o império de Constantino, foi incendiada em um levante contra o imperador Justiniano e reconstruída ainda mais bela e rica , com paredes recobertas por mosaicos de ouro. Seu domo tem a base vasada por janelas que acolhem a luz do dia, proporcionando uma atmosfera celestial dourada ao ambiente. Em 1453, com a tomada de Constantinopla pelos Turcos, a catedral foi transformada em mesquita e hoje, sob um longo processo de restauração, é um museu em Istambul. Na pintura, os bizantinos também nos legaram um estilo primoroso através dos mosaicos, de cunho didático-religioso, e dos ícones, também de caráter religioso, com cenas bíblicas de cristos, virgens santos e imperadores pintados sobre painéis de madeira. Talvez, o mais conhecido, e venerado pelos cristãos, seja o ícone em estilo bizantino retratando a Virgem com Jesus menino (Nossa Senhora do Perpétuo Socorro) pintado, segundo reza a lenda, por São Lucas, obra cuja reprodução se encontra na igreja de Santo Afonso em Roma.
Mas o que mais impressiona nos mosaicos e nos ícones, é a magia da luz, o brilho do ouro e do verniz que neles se manifestam. Talvez um reflexo do poder e da glória dos imperadores que se impunham como representantes máximos de Deus na terra.
A arte bizantina , em sua mais luminosa expressão, ultrapassou impérios, vaidades, cataclismos, continua encantando nossos tempos e inspirou, como um modelo de perene juventude, o grande poeta irlandês Yeats. E dele são estes versos, de um poema intitulado " Velejando para Bizâncio " considerado, pelos críticos, um dos melhores escritos no século vinte:
" ...ou cantarei aos nobres de Bizâncio e às damas,
pousado em ramo de ouro, como um pássaro,
o que passou e passará e sempre passa."
Nesses versos, o pássaro-artifício é o espaço mítico da própria arte, bizantina e em geral, que não envelhece, que a tudo sobrevive, inclusive aos mais poderosos impérios da terra. Arte além da vida, comovente celebração da eternidade da arte.
( F. Campanella, 28 de novembro de 2006.)
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