"OUVIR ESTRELAS"
Tantas vezes percebo um romântico inesgotável em mim, algo ' fora do tempo' ou dentro de um outro tempo, assim como ouvir a sinfonia pastoral de Beethoven e sair pelos campos após as chuvas contemplando cogumelos, um interesse pela literatura 'romântica' de todas as
épocas e por aí vai. 'Ora, direis, ouvir estrelas' - sim, concordo que há mais concretas urgências no Brasil e no mundo. Que o país necessita de um projeto educacional de base com instrução de qualidade para todos, isso todo mundo sabe. Que há um esquema de corruptos, de fraudadores, das cúpulas às administrações locais do poder, é fato notório que vem manchando nossa história como uma chaga ou um esgoto a céu aberto. Ah, a violência nas grandes e médias cidades brasileiras quantos não a sentiram na própria pele? E , na política internacional, que as garras dos colonialismos, imperialismos fazem mil vezes vezes mais vítimas que ditadores locais delirantes só um republicano não consegue mesmo ver. E mais cenas de um circo de horrores : desastres, fome, guerras apocalípticas, cataclismos, crimes, tudo vinte e quatro horas por dia no ar. E o que fazemos? Vamos alimentando este monstro surdo, multifacetado, que chamamos genericamente de stress.
Ora, digo, resolver os problemas do mundo! Não consigo.Prefiro a utopia dos românticos ou a palavra dos cristos e budas que pregam o desapego e o respeito a tudo que vive. Prefiro a ética, a luz da ciência que minora o sofrimento humano ou a luz dos poetas, dos artistas que, mesmo não mudando o mundo, mudam a si próprios pelo mergulho na profundeza da alma de onde trazem mais verdade e beleza à vida. Bilac estava certo, precisamos ouvir estrelas, sim, nem que seja para situarmos nossa insignificância diante do vasto, do ainda incognoscível. E, daí, agradecermos pela capacidade , mesmo insignificantes, de ouvir e entender estrelas.
( F. Campanella , 01 de dezembro de 2006 )
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