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'...Macaé, ano I, Nº 44 - 1 a 8 de dezembro de 2006
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"EPUR SI MUOVE"

( F.CAMPANELLA)   

Pelas imagens do satélite, via internet, posso ver que ela está se aproximando, sinto seu movimento lento, eu diria quase implacável, mas em termos mais precisos, nós, nossa aldeia, a casa onde vivemos, é que estamos caminhando, inadiáveis, para ela.  Navegamos metaforicamente no que chamamos de oceano da noite que seria quando a terra se 'cansa' temporiamente do sol, e mergulha na sombra imemorial do universo.  

Vista assim de fora, pelos olhos dos satélites, a terra é, fundamentalmente, bela. Digo, a terra é, sob qualquer abordagem, bela porquanto uma criação de deuses, uma vontade de um Deus, ou um feliz acaso brotado do caos cósmico. Mas na perspectiva de um satélite, à distância, ela assume uma leveza, quase uma fragilidade, no inimaginável alcance do universo. E fico imaginando os grandes gênios da astronomia, iniciadores desta fantástica epopéia, Copérnico, com a teoria heliocêntrica e Galileu, com a sua lendária afirmação "Epur si muove", referente à terra, assistindo  a este espetáculo permitido hoje a um cidadão comum no conforto de sua casa.   

Mas, voltando à idéia do início, o que mais me chamou a atenção nas imagens do satélite, foi o movimento da sombra que se aproximava lenta, inexorável. Mais que isso, ainda, foi ver ali, estampado, quase como se eu pudesse apalpá-lo, o nosso velho

assombro de cada dia.  Na África do Sul era já noite naquele momento, e a sombra já vinha chegando ao Atlântico oriental. Logo, dentro de 4 ou 5 horas, estaria batendo à minha casa, responsável e pontual. E eu a deixaria entrar e  acenderia as luzes, como sempre. Mas até a escuridão da noite, vista assim de fora, assumiu para mim uma outra dimensão: poder vê-la chegando como que diminuiu em mim uma certa angústia do que não vejo, do que não se revela.  E, sobretudo, poder mudar as posições do globo e ver que no Japão era a luz que agora se aproximava , me deu um certo alívio.   

Coisas óbvias demais, talvez, mas para mim foi como um insight. Ver as coisas pelos olhos de fora como que nos possibilita uma outra relação com elas. Ver a noite e o dia de longe da terra, pelas lentes de um satélite, parece ter me proporcionado uma compreensão , uma perspectiva mais tranqüila dos opostos, dos jogos de sombra e  luz  que tantas vezes se antagonizam em nós.  

Epur si muove.   

(F. Campanella, 26 de Novembro de 2006)   

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