Modelismo
Não tem classe social!
Antonio Ricardo Nóbrega
(especial para O Rebate on-line)
Conheço engenheiros, médicos, cobradores de ônibus, arquitetos, industriais, funcionários de empresas estatais, bancários, encanadores, pilotos, motorista de táxi, açougueiros, dentistas, militares, professores de diversos graus dentre tantas outras atividades, independente de poder aquisitivo, categoria profissional, condição social ou grau de estudo, que são aeromodelistas, plastimodelistas, ferreomodelistas, nautimodelistas, dioramistas, miniaturistas e outros.
A criança tem um comportamento que ao atingir a idade adulta deixa de lado, seja pelos afazeres profissionais ou por deboche de amigos, parentes e colegas de trabalho. Refiro-me ao jogo de bola de gude (bolinha de vidro), pião, patinete, pipa/papagaio, moldagem de peças de barro, brinquedos de lata e de madeira ou papelão, peteca, diávolo, figurinhas, boneca, casinha e toda a gama de brinquedos prontos ou adquiridos em lojas, nos quais a criança alterna esses brinquedos em ciclos, ou seja, a criança troca de brinquedo para não "enjoar".
Quando cresce ou perde esta inconstância e parte para uma atividade mais ou menos fixa, séria, "de homem", de responsável, "de gente grande", ou então: "Agora sou casado". E essa mudança de comportamento embota e necessidade do adulto por vergonha, por responsabilidades profissionais e familiares e por repreensões dos pais ou amigos. O homem /mulher deixa de continuar a ser criança por força dessas e tantas outras interferências.
Conheço modelistas que possuem seus modelos escondidos, guardados e sem divulgação porque sabem que ao mostrar a alguém será chamado de "criança", "não teve infância?", etc. Ora, o Modelismo pode até ser uma frustração por não se possuir o objeto real.
Ter um modelo de avião pode significar não ter podido ser piloto; ter um barco ou uma caravela em miniatura, por não ter conseguido seguir uma carreira náutica ou não ter singrado os mares; ou mesmo engenheiros e guarda-chaves ferroviários porque estiveram anos de suas vidas junto a uma estrada-de-ferro ou construindo pontes e viadutos. O médico, o nervoso, o acamado, como terapia; o professor para melhor ilustrar sua aula; o mecânico para aperfeiçoar sua técnica.
Quem não gosta de ver uma miniatura? Com a idade de 13 a 16 anos, própria para o início do Modelismo. Com a montagem de seu modelo e as conseqüentes leituras sobre o que escolheu para montar, muitas vezes tem essas dedicações interrompidas pela incompreensão dos pais ou responsáveis. A justificativa é de que o Modelismo atrapalha os estudos, ou que já está em idade para pensar em algo sério, ou que a "idade do brinquedo" já está passando. Ora, o Modelismo é uma atividade que impulsiona ao estudo daquilo que o jovem aprecia, complementa seus estudos curriculares e é um preparo para o seu futuro profissional.
Construiu-se a miniatura da represa de Itaipu ou um Estádio de futebol para estudos preliminares da resistência, força da água, etc. Será que engenheiros, técnicos e operários construíram um brinquedo? E os edifícios, os aviões, os navios, saíram direto da planta para o seu real tamanho? Quantos estudos preliminares, cálculos de resistência, peso, aerodinâmica, tubo-de-vento e mesmo a demonstração para a venda de um edifício, são necessários?
Ser modelista é esclarecer, mostrar e divulgar a sua obra, porque só assim os nossos filhos terão outro modo de pensar, nossos alunos também e nossos empresários destinarão parte de suas máquinas para o Modelismo. Talvez a própria lei venha ser alterada em sua classificação como "brinquedo", ou então, um artigo supérfluo, mas passe a considerá-lo como material didático.
Com menores custos e maior divulgação o Modelismo serve para a base de profissionais e um maior conhecimento daquilo a que se dedicam e com pessoas mais interligadas por um trabalho comum, em vez do isolamento, do esnobismo ou da demonstração de sua capacidade aquisitiva ou de sua condição social.
O modelista não tem porque exibir título escolar nem classe social. Deve apenas mostrar sua capacidade através de sua habilidade pessoal e sua obra em miniatura.

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