Não, eles não são inofensivos, apesar de serem usados em grande escala, com ou sem indicação médica. Estamos falando dos antiinflamatórios, que têm efeitos colaterais graves e que em 80% das doenças infantis não precisariam ser utilizados. Por determinação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a maior parte desses medicamentos tem na bula a informação de que são contra-indicados para crianças menores de 12 anos.
Inflamação nada mais é que uma reação de defesa do organismo em resposta a um agente agressor, seja um vírus ou uma bactéria. O objetivo da inflamação, que se caracteriza por vermelhidão no local, inchaço e dor, é restabelecer o equilíbrio do organismo. Segundo a dentista Waenya Fernandes de Carvalho, de Londrina, a inflamação concentra os agentes agressores naquele local, não os deixando ir para outras partes do corpo.
Mas se o objetivo da inflamação é restabelecer a saúde, e você usa antiinflamatório, não estará interrompendo o processo natural de defesa do organismo? É com esse argumento que o pediatra e homeopata Maurílio de Oliveira, de Londrina, questiona o uso indiscriminado do medicamento, que também tem ação analgésica e antitérmica. A dentista Waenya argumenta também que, ao mesmo tempo que o remédio diminui a inflamação, diminui a cicatrização.
Segundo Oliveira, é preciso entender o mecanismo das doenças e o mecanismo de defesa do organismo contra elas antes de usar qualquer medicamento. Nas crianças, por exemplo, ele explica que mais de 80% das doenças são autolimitadas. Quer dizer, na sua maioria são causadas por vírus, que o próprio corpo, com ou sem medicamento, vai combater. ''Se a população entende os mecanismos de defesa do corpo, usa menos remédio''.
No caso de uma dor de garganta, por exemplo, muito comum em crianças, a inflamação incha a amídala, fazendo com que haja aumento de sangue no local, e consequentemente maior quantidade de anticorpos. Isso dói. Mas prescrever medicamentos nesse caso, alerta o pediatra, depende de uma avaliação do estado geral da criança - se ela está bem, se alimentando, interessada pelo que acontece, não é necessário. Mas quando o quadro é de uma criança prostrada, com febre que não cede, os pais devem é procurar atendimento médico, não dar remédio.
Na opinião dos especialistas, nos casos em que há dor poderia ser utilizado o analgésico, que, segundo o pediatra, ''teoricamente têm menos efeitos colaterais''. Os antiinflamatórios não são indicados para crianças porque, segundo dados do Conselho Federal de Farmacoterapia, não há estudos suficientes que comprovem os riscos nessa faixa etária, e na Europa já aconteceram reações adversas decorrentes do uso de nimesulida, um tipo de antiinflamatório.
Apesar de poder mascarar sinais de progressão da doença e até mesmo um quadro mais sério, há casos em que é necessário o uso de antiinflamatório. Por exemplo, asma e doenças reumatológicas crônicas. Só que o uso deve ser feito sob orientação médica, já que na asma, por exemplo, são usados corticóides, antiinflamatórios hormonais. Sem critério e sem acompanhamento, esse medicamento pode causar aumento de peso, distúrbios psiquiátricos e distúrbios do crescimento. ''Todo remédio tem riscos e benefícios, e é preciso dosá-los'', afirma o pediatra. |