Fundado em 16 de abril de 1932

...Macaé, ano I, Nº 17 - 19 a 26 de maio de 2006

AMANDA PAIVA VILAR está enriquecendo as páginas do O REBATE com suas matérias a partir desta edição. Bem distante, mora em João Pessoa e eu a conheci no Orkut. Esta meiga presença irá retratar suas experiências, vivencias, cotidianos e tudo que ela achar que poderá fazer deste jornal um órgão diversificado e lido. Bem vinda, Amanda as nossas edições. José Milbs


E aqui estou eu, redigindo um texto para um jornal! Quando imaginaria que um dia isto fosse acontecer? Eu que sou da geração de aprender a fabricar redações que agradem a corretores de vestibular?No entanto, as surpresas da vida novamente me ensinam que são elas que dão sentido à nossa existência.Espero conseguir realizar um bom trabalho.Como sugerido, aqui segue meu perfil no orkut, escrito em "internetês", só a título de apresentação:

"Tava lendo minha descrição anterior...e lembrei qto tempo faz q a escrevi...1 ano!Ano q me mudou muito!
Mas como diria Seu Fernando, "estamos aki pra somar e n pra dividir"!" Por isso, a antiga ainda tá valendo.Só vou adicionar umas cositas q estou aprendendo:
*a entregar um problema a Deus e realmente fechar os olhos
*q n posso kerer ter o controle td em minha vida...eh bem +seguro entregar nas maõs dEle
*a ser + humilde
*a me cobrar menos
*q posso organizar meu tempo pra sair com os amigos com uma frequência q eu jamais sonharia poder
*a conviver com pessoas e situações q antes eu poderia jurar q eram coisa de novela
*a n pré-julgar as pessoas
*a escrever pra alguém sem medo q a pessoa me ache ridícula
*a jogar 21 hehehehe
*q o café chegou ao ponto d não diminuir tanto + o limiar de exitação dos meus neurônios,o jeito agora é juntar com cacau!hehehe
*q se antes n sabia...agora q n sei mesmo ficar de férias!
*q por +q eu chegue cansada depois de um dia completo de aula,eu amo meu curso e meus amigos,e é assim q eu sempre sonhei em estar.

Agora...a Amanda pré-ufpb(q tá aki,lógico!):

Sou uma pessoa que gosta de fazer amigos e cultivá-los.Só me comprometo com uma responsabilidade qdo sou capaz de cumpri-la...e prometi...tá prometido!Se mesmo assim eu não cumprir, a pessoa merece ao menos uma explicação.Não gosto de deixar ninguém no vácuo...pq tenho ódio qdo me deixam!
Costumo ser tranqüila e centrada nos meus objetivos.
Qdo fico ansiosa...ou como feito uma louca,ou minha fome vai embora de vez...hehehe
Gosto de ficar mexendo nos cabelos dos outros,estralando os dedos do povo...de dar um abraço só pra dizer bom dia...a galera fala q sou carente...kkkkk mas é só pq sou carinhosa e cheia de manias msm!!! kkkkk
Sou um pouco tímida, mas pegou amizade...kabou...kkkkk...aí é só festa!!!""


Vitória

Conheci Vitória logo quando comecei a participar do projeto Saúde com Arte.Em uma das minhas primeiras visitas à ala pediátrica do Hospital Universitário, deparei-me com uma menina de quatro anos, com sua inseparável avó.Era uma criança negra de olhos bem grandes, pretos e desconfiados.

Com muito trabalho, consegui levá-la à recreação.Nunca queria se deslocar, o mínimo que fosse, sem a avó do lado.Lá na "escolinha" (como as crianças atendidas chamam a área de recreação), eu e outra aluna do projeto tentávamos convencê-la a desenhar, como os outros.Mas sua única resposta era:

"-Eu não gosto de você, sua chata! Eu só gosto da minha vó!".

Vitória era uma criança agressiva.Talvez pelo o que sua enfermidade a obrigava a suportar, como internações recorrentes e tratamento com corticóide.No início, ela me pareceu fisicamente saudável.Andava, conversava e não dava sinais de abatimento.Eu estava no primeiro período de Medicina, e meu olhar clínico não diferia do de um leigo.Informei-me depois e descobri que Vitória tinha púrpura trombocitopênica idiopática.Tal patologia sem causa definida prejudica a coagulação sanguínea e causa, entre outros sintomas, manchas roxas na pele.As várias internações decorriam de dois fatores: a paciente apresentava a forma crônica da doença e o tratamento era interrompido bruscamente quando recebia alta.

Apesar de tudo, semana após semana, era notável a evolução positiva do seu comportamento social.Ela se mostrava mais alegre e expansiva, e corria pelo corredor que nos leva da enfermaria, onde já nem se despedia da avó, até a área da recreação.Ela nos via como seus amigos, que a tiravam da cama para a descontração das brincadeiras, e eu me maravilhei com este lado da relação com o paciente, que eu desconhecia.

Vitória passou a conversar comigo, e a relatar, na sua inocência pueril, o que lhe acontecia no hospital.Um dia me disse orgulhosa:

"-Oh, eles me furaram aqui no braço, mas eu nem chorei! Eu nem chorei!".

Depois apontando para o esterno:

"-Mas uma vez botaram uma agulha bem grossa aqui, olha. Aí eu chorei. Doeu, doeu...".

Essa situação foi mais uma dentre tantas durante as quais aprendemos a olhar o paciente com naturalidade, por mais cruel que seja sua situação. É só na prática que nos é ensinado a não os olharmos com olhar de pena, a não passar nosso espanto com o que estamos vendo ou ouvindo deles.

Foram inúmeras as vezes que brinquei e conversei com Vivi, mas a experiência mais marcante aconteceu em um dia que esquecemos a chave do armário.O único material que tinha disponível era uma caixa de massinha de modelar, para todas as crianças.

Neste dia, nós, alunos do projeto e crianças internas, sentamos nas cadeirinhas, como em outras ocasiões, e juntos nos pusemos a criar com as massinhas de cores diversas.

Vitória estava ao meu lado, e eu lhe pedi para que fizesse um bonequinho parecido com o que eu fazia.Logo ela pegou a massinha mais escura da mesa e começou a imitar meus movimentos.Depois fui a deixando livre e lhe mandei escolher a cor dos olhos dos bonecos.

"-Verdes, azuis ou pretos, Vivi?".

"-Pretos! -ela respondeu sorrindo".

Depois, nem eu sabia mais o que fazer com o resto da massinha, e pedi idéias a ela.Para a minha surpresa, respondeu prontamente:

"-Uma cama! Vou fazer uma cama para cada boneco!".

E assim, com a massa da mesma cor que usara antes, Vitória fabricou uma cama para cada um.Disse que eles nunca saíam da cama, porque viviam doentes e ninguém lhes dava tal permissão.Insisti que os bonecos tivessem direito a vir brincar na "escolinha", do mesmo modo que ela própria tinha.Apesar disso, Vitória foi irredutível.

Eu ainda não tinha visto uma criança expressar sua situação tão claramente em uma brincadeira.Os bonecos de olhos negros que não podiam sair da cama representavam à condição que ela se encontra desde a mais tenra idade.

Na última vez que a vi, ela estava bastante abatida e triste.Não tinha mais os olhos desconfiados do começo, nem os vivos de algumas semanas antes.Suas manchas, que eu sempre achei quase imperceptíveis, saltavam aos olhos, estavam imensas.Não queria sair da recreação para ir jantar.Nós a levamos e trouxemos de volta com cadeira e tudo.Foram os únicos instantes que riu com vontade no dia.Sua melancolia nos exigia atenção especial.Chorou em vários momentos.Pensei que daquela vez demoraria no HU.Mas ao chegar na semana seguinte fui surpreendida com a notícia que havia recebido alta.

Já faz dois meses que não sei notícias dela.Deve estar em sua cidade, Cruz do Espírito Santo, no interior da Paraíba.Espero que esteja bem e que seu tratamento não tenha sido interrompido como das outras vezes que saiu do hospital.De qualquer forma, jamais esquecerei as experiências que ela me proporcionou, do que me ensinou com seu sorriso e sua eterna busca pela vitória.

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