Fundado em 16 de abril de 1932

Macaé, ano I, 2006

O jazz tem um deus:

ARMSTRONG

By Armando Rozário

Num chalé em Las Vegas, Estados Unidos, (em 1956)Darwin Brandão e Armando Rozário ouviram, fotografaram e entrevistaram o mais famoso pistonista do mundo

Louis Armstrong é o mais famoso músico e cantor de jazz de todo o mundo. Pertencente ao que se pode chamar de "velha guarda", "Satchmo" (boca de saco), é vedette internacional. Seus "shows" são caríssimos e quando êle se exibe em teatros e "boites" de Paris, Londres, Roma às vezes é necessário a intervenção da polícia, dado a entusiasmo dos fãs do famoso trompetista. Mas êle é um homem sereno, simpático e dono de uma risada volumosa e sôlta. Quand ri seus dentes brancos se mostram todos contra a cara preta, larga e sempre lustrosa. Armstrong se confessa um homem rico. Quando lhe perguntei se poderia deixar de tocar piston naquele instante, êle me disse:

--- Não posso dizer que seja um homem rico, um millionário como querem muitos. Mas posso agora, nesse instante, deixar de lado meu instrumento e passar o resto da vida sem maiores dificuldades. Porque sou econômico. Eu me lembro das farras de King Oliver e outros nos nossos tempos de Nova Orléans. Eram banquetes fabulosas em que todos comiam e bebiam por conta daquele que dava a festa. Minha vida porém não é assim. Faço minhas festas, mas com um pequeno número de amigos. Posso parar de tocar, sim. Mas não quero.

Essa sua declaração pode ser juntada a outra: a resposta que Louis deu ao empresário brasileiro que o foi contratar para uma temporada no Brasil:

--- Eu só sei tocar piston. É a única coisa que sei fazer e não quero realmente fazer mais nada. Vivo para minha música e para meu instrumento. Gostaria imenso de ir ao Brasil e agradeço bastante seu convite, mas vôce terá que falar com meu agente, em Nova Iorque. êle é que trata de meus negócios: Louis toca aqui, Louis toca ali. Eu toco. Nada me dá mais prazer do que tocar piston. Mas não me envolvo com negócios, contratos e dinheiro.

Considerado pelos historiadores do jazz como o homem que mais tem contribuído para manter o verdadeiro jazz em sua pureza, naturalmente que Armstrong não concordo com tôdas as formas de jazz moderno que aparecem a todo instante.

--- Eu não brigo com aquêles que insistem em fazer o chamado jazz progressivo. êles querem briga, mas eu não topo. Afinal, cada um tem o direito de tocar o que quiser. O que é certo, porém, é que existe a música boa e a música ruim. Eu toco a boa música.

E quando lhe perguntamos o que achava do be-bop, Louis coçou a carapinha rala, depois botou a mão no queixo e disse como estivesse pensando em alguma coisa:

Be-bop, be-bop? Não sei o que é be-bop.

Mas logo depois explica:

--- Uma vez me convidaram para uma jam-session em Pittsburg. Tocaram música durante quarenta minutos. Fiquei ouvindo, mas só depois de quarenta minutos foi que identifiquei que música tocavam: era um velho sucesso do jazz. Isso, para mim, é be-bop.

Criado num orfanato e depois entregue a um pai adotivo ("que nas vésperas do Natal fazia grandes festas e dava tiros para o ar") Louis cantou em côro de igreja e, no Exército, tocou também corneta. Mas seu aprendizado de pistonista é êle mesmo quem explica:

--- Aprendi a tocar piston sózinho. No orfanato havia um velho piston e a gente ensaiava coisas de jazz. Depois fui para ser soldado e terminei corneteiro. Não sei como me fiz pistonista. Mas ninguém me ensinou a tocar o instrumento.

Mas êle não se esquece dos mestres:

Eu tocava piston mas não era um pistonista de verdade. Só depois, em contato com os mestres, aprendi os segredos do instrumento. Os meus mestres famosos de Nova Orléans, Bunk Johnson, Kid Ory e Buddy Bolden. Êste tocava tanto piston que acabou louco. Estes três me ensinaram a tocar, a lidar com o instrumento. Mas meu conselheiro foi o grande Joe "King" Oliver. A música moderna de hoje deve tudo a King Oliver. E não há pistonista de jazz que não siga seu estilo.

Louis Armstrong é um homem extremamente simpático. Dá a impressão daquele sujeito que a gente já conhece bastante e que não vê há muito tempo. É um misto de Louis Cole com Pixinguinha, risonho e fraternal. Nós tínhamos ido a Las Vegas só para vê-lo, mas quando chegamos nos Sand's o "show" já havia terminado e estávamos dispostos a voltar no dia seguinte. às 2 da manhã, saindo do Silver Slipper, alguém nos perguntou:

--- Mas aquêle não é o Armstrong?

Era. Armstrong estava na porta do cassino com sua mulher "Brown Sugar" -- (açucar mascavo) e um grupo de amigos. Usava um terno cinza e camisa côr-de-rosa, sem gravata. A abordagem foi feita de maneira um tanto escandalosa, e, rindo rouco, Louis combinou que nos receberia em sua casa, no dia seguinte, às 4 da tarde. E quando lá chegamos Armstrong estava, êle próprio, de calça preta, camisa de peito engomado e gravata borboleta, parecia que ia usar um "smoking". Sua casa era um chalézinho de madeira, caiado de branco, como uma boa casa de favela. Nos recebeu e pediu que esperássemos. Entrou, fechou a porta, e durante quinze minutos ouvimos, de lado de fora, o som de seu pistom fabuloso: Louis dava um "show" para nós às escondidas. Depois veio sua mulher, uma mulata bonita, mais jovem do que Louis, parecendo uma pastoronha de escola de samba. E. em seguida, o próprio Louis, agora com um pesado casaco de casemira azul que o fazia suar bastante no calor de Las Vegas. A um pedido nosso voltou e apanhou o piston: o concêrto continuou agora ao ar livre. Nós, éramos quatro, estávamos à sua frente, ouvindo seus solos. Êle interrompeu por um instante a música e pediu:

--- Fiquem ao meu lado. Eu não sei tocar assim sozinho. Preciso sentir sempre que tenho gente ao meu lado.

Entre uma música e outra Louis Armstrong apanhava uma latinha de vaselina e lambusava os lábios. Seus bolsos estavam cheios de lenços brancos, de linho, que êle também passava a todo instante nos lábios. A explicação para isso é simples e horrível: Armstrong é um homem para sempre marcado pelo seu instrumento. Seus lábios têm uma rodela esbranquiçada de uma ferida que não cicatriza nunca. A ferida é exatamente do tamanho do bocal de seu piston e foi feita pelo esfôrço de Louis em soprar seu piston. Quando êle toca muito a ferida sangra. Por isso Armstrong usa sempre aquela pomada, feita especialmente para êle por um laboratório alemão. Na caixa de seu piston vão sempre uma lata de vaselina e quarenta lenços brancos. É a bagagem de Satchmo.

Pergunto-lho qual a orquestra ideal que formaria. Quais músicos que recrutaria para seu conjunto, se lhe fôsse possível escolher os melhores.

--- Isso é difícil. Entre dezenas de magnificos músicos para cada instrumento é difícil se escolher um. Mas posso assegurar que sempre toquei com os melhores. Em minha orquestra só entram grandes músicos.

Entre os músicos do conjunto de Satchmo (sete pessoas) está o famoso Edmond Hall (clarinetista) e Trummy Young (trombone), além da gorda Velma Middleton que canta "blues", fazendo dueto com Louis.

--- E quais os maiores pistonistas do mundo? --- pergunto ainda.

--- Há muitos bons pistonistas. Até mesmo o Harry James, para citar um mais conhecido do grande público. Acontece que James e muitos outros, não fizeram do piston sua vida. Um, rico, resolveu criar cavalos; outro, montar cabarés. Quem é pistonista só pode fazer uma coisa: tocar piston. Tocar sempre, ensaiar mais e mais. É o que eu faço.

Armstrong fala agora de seu novo filme, feito ao lado de Bing Crosby e Frank Sinatra e que na época fazia grande sucesso nos Estados Unidos. Armstrong relembra outros filmes e não esconde sua preferência por "New Orleans": foi o que êle mais gostou.

--- Minha experiência no cinema tem sido boa. O cinema me dá muita publicidade, mas eu prefiro o palco.

Aos 57 anos de idade (1956), com uma vida de sucessos desde rapaz, tendo conhecido e trabalhado mesmo com os nomes mais famosos da música americana, é natural (e esperado) que Armstrong esteja escrevendo suas memõrias:

--- Já tenho dois volumes escritos e qualquer dia dêste vou levá-los ao editor. Não tenho muito tempo para escrever e o livro vai saindo nas minhas excursões. Agora estou descrevendo minha primeira visita a Londres, em 1934.

E ainda no setor das memórias êle se lembra de um nome:

--- Um dos maiores trombonistas que conheci em minha vida foi um brasileiro. Seu nome era Guimarães. Tocamos juntos em Paris, em 1934, e êle falava muito da música brasileira que, como a nossa, tem origem negra. Um dia vou visitar o Brasil para ouvir seus músicos.

Nossa última pergunta: --- Armstrong, mestre como você é, nunca ensinou ninguém a tocar piston?

--- Êsse é um dos poucos desgostos de minha vida. Nunca pude ensinar ninguem a tocar piston por falta de tempo. Uma vez vi um rapazinho que poderia vir a ser um grande pistonista. A única coisa que pude fazer por êle foi comprar um bom piston e dar lhe de presente.

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