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Macaé, ano II, Nº 59 - 16 a 23 de março de 2007
 
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Hoje a pedidos, estou modificando um pouco a abordagem de meus textos e acrescentando histórias que me foram narradas por amigos e encaixam-se perfeitamente no tema de hoje:

“ASSÉDIO MORAL e A VIOLÊNCIA PERVERSA ENTRE CASAIS”

Cheguei em casa, contente por ter recebido uma boa proposta de trabalho. Eu deveria, uma vez por semana, ir à cidade vizinha para fazer manutenção na rede de computadores de uma fábrica de automóveis. Para isso eu teria um salário duas vezes maior do que aquele que recebo para trabalhar durante um mês inteiro, além, é claro, do prestígio. E seria perfeitamente possível ficar com os dois empregos. Enfim, quando anunciei a novidade, minha esposa foi extremamente "solidária". Aquela sim é que é parceira, companheira, camarada! "Olha só, eu acho que você está viajando. Você acha mesmo que eles vão te pagar isso tudo? Tem alguma coisa errada nisso aí. É claro que eles têm gente muito competente lá na cidade, por que eles "importariam" um técnico? Aí, sabe o que vai acontecer? Você vai se complicar no seu atual emprego e vai ficar só com a ilusão desse outro." Gente, isso foi animador, fiquei super empolgado. Deu vontade de tomar um uísque pra comemorar. E ela continuou. "E tem mais. Você vai ficar pra lá e pra cá e sua família que se dane, né? Vê lá o Antonio Adalberto. Aquilo sim é que é um homem, um pai de família, um profissional. Faz o trabalho direitinho, tranqüilo e vai para o aconchego do lar, ficar com sua família. Você acha que seu chefe não repara esse tipo de coisa? Você vai acabar é perdendo seu emprego. É claro. Você já percebeu que, quando surge alguma boa oportunidade lá na empresa, é o Antonio Adalberto que é chamado? Hunf! Que chefe que gosta de um funcionário que se acha o melhor? E você não é. Se fosse, você já seria, no mínimo, gerente. Mas não. Continua aí, um simples técnico. E continua sonhando, viajando..." (...) Pessoal, isso é lindo! Procurei uma garrafa de cachaça com etanol para comemorar aquele momento lúdico, mas não encontrei. Felizmente uso barbeador elétrico. Porque procurei também por uma lâmina, uma navalha ou qualquer coisa assim só para fazer chafariz nos pulsos. Mas depois, pensando bem, vi que ela realmente tinha razão. As coisas não estão dando muito certo mesmo pra mim lá na empresa. Acho que falo demais. Estava até pensando em fazer uma faculdade, alguma coisa ligada à tecnologia da informação, que é minha área, ou administração de empresas, mas talvez seja melhor ouvir minha esposa. Às vezes ela parece ser um pouco tirana, mas pode ser realmente que eu esteja sendo um pouco imaturo mesmo...

Pois é! Alguns de vocês já escutaram histórias semelhantes, aparentemente o texto narrado nada tem de errado, faz parte da vida.

Porém se analisado a fundo encontraremos um exemplo típico de “Violência perversa entre casais”.

MUITAS VEZES A VIOLENCIA perversa entre casais não é levada a sério, ou até mesmo, muitas das vezes, negada pela vítima como forma de proteção, e interpretada como sendo simplesmente uma relação normal, na qual existe proteção, preocupação e até dominação. Alguns estudiosos da mente humana consideram o parceiro cúmplice ou até mesmo responsável pela relação perversa. Isso seria negar a dimensão do domínio que deixa a vítima paralisada, impedida de qualquer defesa. Negando-se a admitir a gravidade e violência subjetiva das agressões no que aos poucos repercutirá psicologicamente em sua auto-estima. Tais agressões são normalmente sutis, não deixando vestígios palpáveis, fazendo com que eventuais testemunhas e/ou a própria vítima dêem uma interpretação simplista ao fato, como sendo uma manifestação normal ocorrida entre parceiros de personalidade forte, o que, na realidade, é uma tentativa cruel e violenta de destruição moral ou até física do outro, não incomum, bem sucedida.

Há de se observar que este processo pode-se desenvolver por meses ou anos e apresentar-se em distintos estágios da evolução da violência perversa.

No caso narrado o processo seria típico da “DESQUALIFICAÇÃO”, que objetiva exaurir da vítima todas as qualidades, dizendo-lhe repetidas vezes que ele não vale nada, até que a vítima sinta-se como tal.

Dá de uma forma sutil, na maioria das vezes através do diálogo não verbal, representados muitas vezes por olhares de desprezo, murmúrios seguidos, alusões desestabilizadoras ou maldosas, comentários desabonadores, seguidas em sua maioria de críticas indiretas disfarçadas em brincadeiras, com conotação de censura.

• Por tratar-se de agressões indiretas, é difícil identificá-las com clareza, consequentemente defender-se delas. A menos que as palavras venham atingir a uma personalidade já frágil em quem a falta de confiança já existe, como também, proferidas a uma criança que, pela sua própria característica, as incorpora como verdade: “Você é tão bonitinha, pena que seja tão burrinha”. O agressor perverso impele a vítima a uma realidade mentirosa, sempre com a intenção de impor-lhe sua visão distorcida da realidade.

A vítima, a partir de então, passa a acreditar-se incapaz e, aos poucos, traz para si uma realidade que não lhe pertence, tão somente porque o agressor tendenciosamente estabeleceu que assim o fosse.

A estratégia de desqualificação, usando o absurdo, a mentira e outros meios, é desdobrada desde a vítima a todo o seu meio, seus amigos, familiares e conhecidos. Dando à vítima a nítida impressão de que ela só se relaciona com idiotas.

Estas são algumas das muitas estratégias destinadas a rebaixar o outro para melhor se altear.

• Os personagens aqui relatados são imaginários nada tendo em comum com qualquer fato relacionado a pessoas reais, servindo-se tão somente como mera ilustração didática.

• Hoje em especial, agradeço a colaboração do meu amigo e conhecido Radialista Ricardo Franco.

• Bibliografia consultada: Hirigoyen, Marie France – Assédio moral: a violência perversa do cotidiano.

Adriana De Cenzo
decenzoadvocacia@terra.com.br


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