
Incomunicável
Fiquei incomunicável um dia desses. Combinara de jantar com uma amiga. Acertamos que eu ligaria antes de sair de casa. E assim fiz. Primeira tentativa: telefone mudo. Segunda tentativa: a mesma coisa. Resolvi dar mais um tempinho à tecnologia. Terceira tentativa: nenhum sinal. O telefone continuava simplesmente mudo. Bem que tentei outros números. Celular da mãe, do irmão, telefone residencial...Nada.
Mesmo assim, arrisquei. “Vou lá sem avisar”. Durante o curto trajeto entre o hall do elevador e o estacionamento do prédio foram várias tentativas. Todas em vão. A situação era a mesma. Um silêncio. No meio do caminho parei para abastecer. Uma entrada na loja de conveniência do posto e novas tentativas. Frustração. O único barulho que escutava era o som do teclado. Tão somente o som do teclado. Pim, pim, pim... Que desespero! Era uma mudez que tomava conta do meu ouvido sedento por um sinal qualquer.
Assim que cheguei no prédio dela, fiz mais algumas ligações. Sem sinal. Continuava incomunicável. Apertei o interfone. Esperei. Apertei novamente. Esperei mais um pouco. Nada. Fiquei uns dez minutos buscando alguma comunicação. Enquanto isso, a senhora passou e olhou desconfiada; o homem chegou do trabalho e nem uma ajuda me ofereceu. E eu lá...tentando, tentando, tentando. A resposta continuava sendo a mudez. Aquele silêncio desesperador.
Aliás, bota desesperador nisso. Pela Santidade. Fiquei horrorizado. Nunca um silêncio me ensurdeceu tanto. Ecoava na minha cabeça. Atormentava meus pensamentos. Questionava minha própria existência. E afirmava minha solidão. Olhava para os lados e nada via. O silêncio havia me hipnotizado. Estava cego. Eu pensava apenas na falta de comunicação. “Incomunicável não, meu Deus!”, pensava com as partes ainda não atingidas pelo castigo daquela noite.
A sensação de solidão momentânea pareceu uma eternidade. Fiquei ali, parado naquela calçada em frente a um interfone que não respondia aos meus toques. A cara era de decepção. Estatelado. Imóvel. Fiquei com dó de mim mesmo. Nem o barulho dos carros passando na rua conseguia quebrar o meu silêncio indesejado. O som que eu gostaria de ouvir, naquela hora, simplesmente não existia. Continuei com aquela sensação de solidão. E, ao fundo, aquela voz. Constante.
Silêêêêêncio...
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