GALERIA DOS IMORTAIS DA LITERATURA
Alberto de Oliveira - 1857-1937
Vestígios Divinos
(Na Serra de Marumbi)*
Houve deuses aqui, se não me engano;
Novo Olimpo talvez aqui fulgia;
Zeus agastava-se, Afrodite ria,
Juno toda era orgulho e ciúme insano.
Nos arredores, na montanha ou plano,
Diana caçava, Actéon a perseguia.
Espalhados na bruta serrania,
Inda há uns restos da forja de Vulcano.
Por toda esta extensíssima campina
Andaram Faunos, Náiades e as Graças,
E em banquete se uniu a grei divina.
Os convivas pagãos ainda hoje os topas
Mudados em pinheiros, como taças,
No hurra festivo erguendo no ar as copas.
* Nota: O Conjunto Marumbi, ou Serra Marumbi (na Serra do Mar), PR, é formado por diversas montanhas, sendo que a mais alta, com 1.539 m., chama-se Olimpo. E Os povos do litoral paranaense, notadamente os do pé da serra, acreditavam que o Marumbi era um vulcão passivo, pois muitas vezes soltava fumaça. Diziam ainda que em seu topo havia uma lagoa dourada. Seu primitivo nome batizado pelos índios era "Guarumby", que em tupi significa "Montanha Azul".
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CONVIDADO DA SEMANA:
Ricardo Senna Guimarães
http://ricardo.senna.blog.uol.com.br/
Choramos a Morte da Árvore Centenária
Choramos a morte
da árvore centenária
personagem central
da nossa infância
gigantismo surreal
frente à pequena riqueza
da nossa infância.
(Catástrofe ecológica em nossos corações enraizados)
Choramos a morte
da árvore centenária
as raízes expostas
longos, pétreos, calosos cordões rumo ao infinito
penosamente expõem
quão profunda a relação
da nossa juventude com sua temperança.
(Resta-nos agora chorar a morte
da nossa velha árvore centenária)
Choramos a morte
da árvore centenária
esperávamos um dia
mostrar aos nossos filhos
nomes troncamente escritos
velhos sonhos
que acabaram por tombar.
(Que nossas lágrimas reguem a terra
e que as sementes da árvore centenária
façam surgir uma nova companheira
para a infância dos nossos netos)
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Talvez um grito de alerta, senão um grito de dor...
(Maria Célia Zanirato)
Agoniza a Terra
E as águas do oceano, rebeladas
Inundam a terra e torrenciais rajadas
A tudo levam, varrendo do árido solo
O pouco que restou...
Não mais se vê a luz do sol
Tudo é treva, é fogo, é cinza e é fumaça,
Não é noite, nem é dia
Não mais se ouve no ar a melodia
De pássaros a cantar...
Foram-se as flores, as árvores e a vida
E da ferida ulcerada do solo
Brota fétido liquido
De todo lixo plantado
Por tanto tempo neste chão...
O mar pare, de suas entranhas em dor
Não mais a vida,
Mas a morte
E se demuda em tumba
Dos sonâmbulos silêncios agonizantes
Espalhados na amplidão...
É o crepúsculo da Terra
Que não terá nova aurora
Assassinada que foi pela estupidez do homem
Pela ganância,
Pela insensatez...
Ah, homens insensatos!
Devolvam à Terra o ar, as matas,
O solo fértil, os límpidos regatos
Devolvam os sonhos que tivemos um dia
O paraíso que há muito existia
Devolvam a alegria de viver...
Devolvam os bosques, as tardes outonais,
As floridas primaveras
O canto dos pardais, os mananciais
De onde brotava água cristalina
Devolvam as auroras, os poentes
E as campinas
Onde pastavam tranqüilos os animais...
Devolvam a visão do sol, do céu,
Do brilho das estrelas
Devolvam as noites enluaradas
O verde das matas, as cascatas
Os girassóis, os jasmins, as margaridas
Devolvam a magia do viver
Devolvam os jardins
Devolvam a vida!
Maricell - Setembro - 2005
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Constatação
Ângela Maria Zanirato
eram meninos
e eram tantos
e eram santos
e eram os sonhos
e era o destino
e era roto
roído
frágil
e era a vida
trazia os ventos
trazia os vãos
mostrava o chão
e nem tinha pão
e eram meninos
e eram vermelhos
e eram tantos
e eram vivos
olhos vividos
dias aflitos
e eram as mães
e eram tantas
e eram brancas, negras
azuis verdes e amarelas
e era a fome
e tinha nome
e tinha hora e tinha dia
e tinha a dor
e era o céu
e eram os meninos
todos ao léu
e era a faca e era cega
e eram velas
e ninguém a vê-las
a velar
pelos meninos
que eram tantos
que nem a noite
que nem a morte
conseguiu (re) velar
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SUGESTÃO DE LEITURA
RUBEM ALVES
Meu "uai-cai"... "O último sabiá canta seu canto... Que pena! Já não há ninguém para ouvi-lo..."
Alguns dos meus livros estão espandongados: lombadas descoladas, folhas soltas, outras rasgadas. Estão assim pelas muitas vezes que com eles fiz amor repetido e furioso. Outros livros estão perfeitos. Nunca desejei fazer amor com eles.
De todos os meus livros os que mais amo e que, por isso mesmo, estão em pior estado, são as obras de Nietzsche. Quando li Nietzsche pela primeira vez eu me espantei e disse: "Esse homem passeia por lugares da minha alma que não conheço!" Hoje é meu companheiro.
Ele escreveu em alemão. Mas o meu alemão é capenga. Tenho de usar o dicionário como bengala. Com isso perco o essencial: a música da sua escritura. Por isso valho-me das maravilhosas traduções de Walter Kaufmann para o inglês. Para se traduzir Nietzsche não basta saber alemão; é preciso ser poeta.
Agora, na velhice, minha grande preocupação é o fim do mundo. A Terra está morrendo. Os cientistas já fazem cálculos acerca dos poucos anos que lhe restam. Convivo bem com a idéia da minha morte. Mas a idéia da morte da Terra é-me insuportável. Até já escrevi um "uai-cai".
"Uai-cai" é o jeito mineiro de fazer hai-kais. "Uai", para expressar o assombro ante a vida. E "cai" para exprimir a tristeza de ver cair o que estava lá no alto. Meu "uai-cai" é assim: "O último sabiá canta seu canto... Que pena! Já não há ninguém para ouvi-lo..."
Relendo a "A Ciência Alegre" de Nietzsche reencontrei-me com o seu texto mais famoso, aquele em que ele diz que "Deus morreu". E de repente, à medida em que eu o degustava antropofagicamente, o texto foi se apossando de mim, como se fosse vinho. Fiquei meio bêbado. E, na minha embriaguez eu troquei umas palavras. O texto ficou assim: A cena: um louco grita numa praça. Dirige-se àqueles que ali estão.
Eles riem e zombam. "O que aconteceu com a nossa Terra?", ele gritou. "Pois vou lhes dizer. Nós a matamos - vocês e eu. Todos nós somos seus assassinos.
Mas como é que fizemos isso? Como é que fomos capazes de beber os rios e comer as florestas? Quem nos deu a esponja para apagar os horizontes do futuro? O que fizemos quando partimos a corrente que ligava a Terra à Vida? Para onde ela irá? Vagará pelo Nada infinito? Esse hálito que sentimos, não é o hálito da morte? E esse calor! Os gelos estão se derretendo.
Já se vê o cume negro do Kilimanjaro, outrora vestido com a brancura da neve. O mar subirá. O sol está mais quente e mortífero. Temos de nos proteger contra os seus raios. E esse barulho que ouvimos em todos os lugares, o ruído das fábricas, o barulho das bolsas de valores não será, porventura, o barulho dos coveiros que a enterram? O ar que respiramos é o ar da decomposição.
A Terra está morta. Nós a matamos. Como poderemos nós, os assassinos da Terra, nos confortar a nós mesmos? A Terra, extensão dos nossos corpos, a mais sagrada, sangrou até a morte sob nossos punhais... Quem nos limpará desse sangue?" Relatou-se depois que, naquele mesmo dia, o louco entrou em várias bolsas de valores, bancos e indústrias e lá cantou o "Réquiem para a Terra Morta". Retirado de lá e compelido a se explicar, a cada vez ele disse a mesma coisa: "Que são esses templos do progresso se não os sepulcros da Terra?"
PS: O texto tal como Nietzsche o escreveu pode ser encontrado no site: www.rubemalves.com.br
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