
ZANI / ARTE GALERIA DOS IMORTAIS NA LITERATURA
CORA CORALINA
Eu Voltarei
Meu companheiro de vida será um homem corajoso de trabalho,
servidor do próximo,
honesto e simples, de pensamentos limpos.
Seremos padeiros e teremos padarias.
Muitos filhos à nossa volta.
Cada nascer de um filho
será marcado com o plantio de uma árvore simbólica.
A árvore de Paulo, a árvore de Manoel,
a árvore de Ruth, a árvore de Roseta.
Seremos alegres e estaremos sempre a cantar.
Nossas panificadoras terão feixes de trigo enfeitando suas portas,
teremos uma fazenda e um Horto Florestal.
Plantaremos o mogno, o jacarandá,
o pau-ferro, o pau-brasil, a aroeira, o cedro.
Plantarei árvores para as gerações futuras.
Meus filhos plantarão o trigo e o milho, e serão padeiros.
Terão moinhos e serrarias e panificadoras.
Deixarei no mundo uma vasta descendência de homens
e mulheres, ligados profundamente
ao trabalho e à terra que os ensinarei a amar.
E eu morrerei tranqüilamente dentro de um campo de trigo ou
milharal, ouvindo ao longe o cântico alegre dos ceifeiros.
Eu voltarei...
A pedra do meu túmulo
será enfeitada de espigas de trigo
e cereais quebrados
minha oferta póstuma às formigas
que têm suas casinhas subterra
e aos pássaros cantores
que têm seus ninhos nas altas e floridas
frondes.
Eu voltarei...
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CONVIDADO DA SEMANA
SELMO VASCONCELLOS, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, e reside desde 1982 em Porto Velho, RO. Poeta, cronista, contista, antologista, divulgador cultural. Editor da página literária impressa semanal "LÍTERO CULTURAL, jornal ALTO MADEIRA".
Colaborador nos sites:
www.rondoniaovivo.com, do editor-chefe Marcos Souza, com a página "Selmo Vasconcellos - Momento Lítero Cultural"
orebate-selmovasconcellos.blogspot.com - página Momento Lítero Cultural do jornal www.jornalorebate.com, do diretor/ editor-chefe José Milbs de Lacerda Gama.
ESTRELAS
Selmo Vasconcellos
Olhando para o céu
Vi muitas estrelas
Cada estrela, muita luz
Cada luz, com um brilho
Cada brilho manifestando cor diferente.
Vi muitas estrelas
Elas desceram
E vieram florir os meus olhos
Como respostas dei-lhes lágrimas.
Eram muitas estrelas...
Cada estrela
Com sua luz
Com seu brilho
Com um som
( percebi pelo silêncio da noite ).
Elas me alcançaram
Para cada, uma pergunta
De cada, uma resposta.
Vi muitas estrelas...
Vivi muitas estrelas...
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ZANI / ARTE HOMENAGEIA MARIA IRENE ZANIRATO:
15/7/1920 a 15/02/2002
IRENE
Neusa Zanirato
Sempre serena, lenço na cabeça,
Olha o fogo, como olha o filho,
Cuidando para que permaneça.
Olha o fogo, olha o tempo,
Espia a vida pela janela,
Enquanto a fumaça da chaminé
Desenha as mesmas imagens
Projetadas no balé das nuvens.
Um olho no fogo,
Um olho no filho, um olho no tempo :
Adivinha se é chuva ou só vento
Aquele rodopio de nuvens.
Fica mais forte - é temporal -
Melhor correr para o quintal.
E os braços cortam a lenha
Com a mesma energia que conduz a vida.
E retorna ao fogão: vai preparar a comida
E continuar o ritual. Escolhe a lenha,
E a toalha de mesa mais branquinha,
Em volta de si toda a família
Na oração de todo meio-dia.
Depois vem a tarde.
Mais uma vez o preparo da comida
E ela funde a vida, que confunde as lembranças
Enquanto o fogo funde a lenha.
Vai cantando, mexendo a panela :
Hora de chamar as crianças...
Depois a paz repousa nos olhos dela -
Cumpriu a missão do dia,
Mas mantém aceso o fogo
Como mantém a fé na vida.
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INFÂNCIA Maricell (Maria Célia Zanirato)
Não me lembro de meus sonhos infantis
Lembro-me apenas, com saudade,
De um tempo em que fui feliz.
A mina d'água, a poeira, o algodoal
As noites estreladas
Pés no chão, o encanto de viver
Os castelos de areia que nenhum mar levava
Infância feliz que o tempo carregou
E não quis me devolver.
O sino da igreja a tocar
O fogão de lenha, o pão a assar no forno
A mãe sempre a cantar uma canção
Que eu aprendia
E que hoje, com saudades, canto
Tentando espantar a dor...
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Paisagem
Angela Zanirato
Eu vi a poesia aqui. Na mãe que olha o tempo de viver os filhos colherem. Eu vi a poesia aqui. Nos filhos que seguram os filhos da mãe que cuida do tempo de ver os filhos crescerem e terem filhos. Eu via a mãe tecer sonhos nas barras das saias das filhas. E eram sonhos coloridos, saídos do tear do tempo em que a mãe colhia o algodão para fiar fios onde o tempo jamais rompesse ou corrompesse os sonhos dos filhos.
Eu via a mão da mãe, calejada de dias e noites, em varais de roupas branquinhas ao vento, tal como vela de uma embarcação que traz junto consigo um vento leve, que seca as roupas e beija a mão da mãe em sinal de respeito.
Eu via a poesia entrando nos olhos da mãe e se distribuindo em rimas nos olhos das filhas. Eu vi as estrofes de amor e de dor saírem dos dedos dos dias das filhas.
Eu vi as filhas querendo ser mãe, reinventando o tempo, mudando curso de águas, eu via a mãe rodeada de estrelas em dias de breu da vida que escorria inexorável.
Eu vi outros tempos. Eu vi dias sem ar na mãe que buscava fôlego nos filhos. Eu vi os filhos dilacerados em dores ocultas, olhos e bocas sorrindo em dias de coração calado.
Eu vi o outro lado da margem. E passamos todos e todas, atravessamos a ponte, porque era imprescindível atravessar. E hoje, do outro da ponte, eu nem preciso olhar para trás. Quando se sente toda uma trajetória, quando se vê toda uma história que escrevemos, quando sabemos que fazemos parte da paisagem, não há porque olhar para trás.
A pintura esta feita. O quadro está pronto e emoldurado. Todos e todas assinam por ele, fiéis protagonistas e pintores da vida.
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CÍRCULO
para Clarissa
(em dias nublados de janeiro)
Uma nuvem
não é feia ,nem triste,
apenas condição
pra nutrir as flores.
Um sol permanente
jamais será poema,
apenas instrumento
de morte lenta dos seres.
A nuvem escura
pare o relâmpago
que fecunda a terra
e extrai a vida
da poeira e pedra.
Um raio de sol
rasga aos poucos
a nuvem espessa
e a desmancha
inaugurando
o azul do céu
onde garças voam
e onde à noite brilha
a tua estrela bela.
(mesmo quando a nuvem
te impede de vê-la.)
Máyda Zanirato
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FOTOGRAFIA
O marido registrou numa fotografia:
Ela, de braços cruzados,
olhar perdido à distância
- Irene -
em volta dela, as crianças
- Maria -.
Marisa Zanirato
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