ENTREVISTA COM MICHÉLE SATO

A Aldeia Multicultural está abrindo nosso ano com muitas esperanças na transformação através da troca , do conhecimento e da cultura. Com nosso ponto de equilíbrio focado neste sentido estamos iniciando a partir de terça feira nossa primeira entrevista do ano com Michèle Sato , professora e pesquisadora das Universidades Federais de Mato Grosso (UFMT) e São Carlos (UFSCar), com experiências em educação ambiental.
Busca a tessitura da arte, espiritualidade e ambiente na dimensão filosófica, com 18 livros publicados .
É consultora de vários organismos nacionais e estrangeiros e representante brasileira em Educação Ambiental na ONU.

Marko Andrade
Não poderia deixar de publicar dada a autorização de Michéle Sato, esta entrevista onde a esperança é revista e um apelo dramático é feito no sentido da construção de um outro mundo possível.
Agradeço ao Marko Andrade e a Aldeia Multicultural por ter nos presenteado com esta presença brilhante e esclarecedora matéria com um formato novo, através do Orkut e seus participantes.
A entrevista seguirá ainda na próxima edição com mais uma série de perguntas e respostas.

Cida Garcia- Colunista do Jornal O Rebate
Convivência humanidade x natureza
Atualmente, são comuns a contaminação dos cursos de água, a poluição atmosférica, a devastação das florestas, a caça indiscriminada e a redução ou mesmo destruição dos habitats faunísticos, além de muitas outras formas de agressão ao meio ambiente...Quais são as consequências e ou alterações promovidas no mundo por conta dessas ações a curto, a médio e a longo prazo?
O que é ser representante brasileira em Educação Ambiental na ONU?
P. Baixa camada de ozônio
O que fazer? o governo não se propõe , pelo ao menos distribuir Protetores Solares a 1 Real?
Querem que todo mundo morra?
Eu sou de origem ucraniana , tive câncer de pele, espino celular, minha mãe faleceu aos 45 de melanoma . Eu pensava que isto era problema exclusivo de branquelos , porém minha fisioterapeuta é negra e teve câncer de pele.
R. O chamado buraco na camada de ozônio é devido ao excessivo uso de substâncias químicas do tipo freon, que altera a estrutura da molécula de ozônio, dissolvendo-a e possibilitando que mais raios ultravioletas atinjam a Terra. O raio é letal, pois atinge o DNA, sendo o câncer de pele um de seus sintomas iniciais. O que o Brasil, e essencialmente os países ricos necessitam fazer é reduzir 1% de seu PIB em matéria de consumo energético. O Protocolo de Kyoto não está sendo suficiente, é preciso mais vontade política para que o consumo seja real e não apenas discursivo como prega Al Gore.
P. A Ed. Ambiental, faz parte dos parâmetros curriculares nacionais, mas percebo que alguns professores ainda estão confusos. Como abordar esse tema com seus alunos para que haja uma ação reflexiva de mudança social. O que a Sra.sugere aos professores para que esses possam atingir diretamente o aluno em seu conhecimento para mudança de atitudes?
R. Olá Ana, grata pela mensagem, estou repostando aqui para melhor discussão.
Inicio considerando que há vários olhares na Educação Ambiental (EA) e que a mudança de atitude é uma destas visões.
Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) orienta que o ambiente seja trabalhado transversalmente, ou seja, não se constituindo disciplina, mas tema em todas as áreas. Há que se compreender, todavia, que o espaço da escola é também o espaço comunitário e que o envolvimento e a inclusão de todos faz-se necessário. Em outras palavras, recomendaria que a escola saísse de seu tradicional espaço dando mais atenção ao seu entorno, realizando atividades conjuntamente com o local em que se situa.
Abraços
P. Convivência humanidade x natureza
Atualmente, são comuns a contaminação dos cursos de água, a poluição atmosférica, a devastação das florestas, a caça indiscriminada e a redução ou mesmo destruição do habitat faunísticos, além de muitas outras formas de agressão ao meio ambiente...
Quais são as conseqüências e ou alterações promovidas no mundo por conta dessas ações a curto, a médio e em longo prazo?
O que é ser representante brasileira em Educação Ambiental na ONU?
R. Ser representante na ONU nas questões ambientais significa falar pelo nosso país em alguns momentos onde o governo federal necessita de ajuda.
Morei no Quênia há um tempo atrás, e fui representando o Brasil num evento que durou 3 meses.
Discutimos estratégias e táticas para o fortalecimento da EA e como tentar minimizar os problemas que você elencou na sua 1ªpergunta.
As conseqüências são dramáticas: ausência de água potável, fenômenos naturais avassaladores, aquecimento global, perda da biodiversidade e, obviamente, exclusão social desde que os danos ambientais sempre acometem as camadas econômicas desfavorecidas. Cada caso tem sua dinâmica, ciclo e formas de combate.
Sempre na luta!
P. A imprensa divulga...
Relatórios sobre o aumento da temperatura da Terra e a elevação gradual do nível do mar.
Sabemos q muitas vezes a mídia alivia a gravidade das notícias, seja por pressão governamental ou qualquer outro motivo.
Qual a realidade da situação? O que cada um de nós pode fazer para conter essa bomba relógio?
R. Andréa, o mundo consome uma média de 4t de energia diárias, e o estado da Califórnia, sozinho, 12 toneladas/dia. Os ricos (20% da humanidade) consomem 80% dos recursos, o que implica evidenciar a disparidade social dos mais pobres (80%) que consomem apenas 20% destes “privilégios”.
No plano mais nacional, acredito que é preciso investir mais em energia alternativa, como biodiesel que não favoreça a monocultura, menos poluente e mais vantajosa do ponto de vista da cadeia produtiva.
Na esfera pessoal, evitar tomar banho longo e principalmente ser for banho quente, evitar os horários de pico, pegar carona (ou andar de bicicleta), abrir menos a geladeira, cuidar da eletricidade da casa.
A imprensa falha, muitas vezes, mas é assustadora a previsão das drásticas conseqüências se o mundo não mudar de estilo de vida.
P. Mas o homem tem que ver que ele mesmo está detonando o próprio ambiente em que ele vive, e a natureza vem dando o troco de tanta palhaçada, como, por exemplo, no caso das enchentes, não é mesmo?
P. Gostaria de saber o que você faz para não sucumbir em
meio a tantas agressões a natureza, por pessoas que tem
consciência da maneira certa de agir, mas assim mesmo
coloca a ambição acima de tudo?
R. É uma pergunta difícil que não sei responder. Alguém precisa estudar melhor o perfil dos ecologistas, pois não é possível ter tanta perda e ainda assim continuar apaixonado pela causa.
Dizem que nós somos ‘melancia' - verdes só por fora, mas com ideários de esquerda por dentro.
De fato, combatemos o consumo e as orientações duvidosas do desenvolvimento, resgatando outros valores para que a humanidade consiga ser feliz.
Arte, espiritualidade ou amizade, por ex, são exemplos de que para além de valores, são necessidades em nossas vidas. Portanto, falar de ambiente é também considerar o mundo propriamente dito, movido pelo imaginário falso de que temos que crescer economicamente. “Amigo é coisa pra se guardar no lado esquerdo do peito” (Milton Nascimento) e eu acrescentaria: isso não tem preço!
. Mas o homem tem que ver que ele mesmo está detonando o próprio ambiente em que ele vive, e a natureza vem dando o troco de tanta palhaçada, como, por exemplo, no caso das enchentes, não é mesmo?
R. Duas coisas aí, meu querido rapper:
reconheço que a gramática aceite o ‘homem' genericamente, mas as mulheres agradecem se conseguirmos mudar nossa linguagem para SER HUMANO. Seria mais inclusivo também, não acha? Perdoe a provocação...;
2) este tal humano faz parte da natureza, ou é um elemento segregado dela?
Eu ainda acredito que as dimensões sociais estão intrinsecamente relacionadas com as naturais e, portanto, não há vingança da natureza.
O mundo contemporâneo exige que saiamos do tradicional “causa-efeito”.
Uma causa, por exemplo, poder ter um efeito múltiplo e com intensidade imprevisível.
Ingressamos aí naquilo que os cientistas chamam de “teoria do caos!”.
Mas concordo absolutamente com você, este tal Homo sapiens tem sido bem perverso com a natureza.
É bom tomar cuidado, entretanto, para não generalizarmos a raça humana. Quem degrada o ambiente não são pobres, com certeza...
P. Amiga, eu e minha filha de 19 anos, assustadas com o “efeito estufa”, depois de assistir um documentário bem simples, decidimos sair plantando árvores.
Ainda não traçamos um plano, um método para isso. Não temos propriedades rurais. Você poderia nos dar uma dica, uma opção de “como começar?”
Mensalmente, semanalmente, diariamente? Enfim, por aí
Se precisar mão d obra voluntária, conte comigo.
R. Que participação mais simpática - grata por isso!
Eu acredito em ações e atitudes individuais, entretanto, acredito mais em rodas coletivas, pois sempre temos mais força.
Assim, o ideal é iniciar a conversa nos locais que atuamos, pode ser na escola de sua filha, ou no bairro que vocês moram.
É muito importante munir-se de informações, para tentar sensibilizar as pessoas sobre os dilemas ambientais. Porém, antes de tudo, é preciso conhecer a comunidade a qual iremos atuar.
Muitos dos pgmas de EA falham pq existe um ‘pacote' de interesse alheio à realidade local.
Um rápido diagnóstico do perfil onde iremos atuar e fundamentalmente, a pergunta deve ser: “ PARA QUEM vamos planejar”, muito mais do que, O QUÊ FAREMOS ...
Com este cuidado, a tática chega pela própria ação do local, pois as pessoas sabem exatamente O QUÊ querem e COMO querem.
Em outras palavras, deixe a população escolhida falar...
P. BOM É UM PRAZER TE CONHECER E QUERO TE DAR OS PARABÉNS PELO TRABALHO INCANSÁVEL. É QUASE UMA "GUERRA PARTICULAR", NÃO?
MINHA PERGUNTA É SIMPLES:
SOU MÃE DE ADOLESCENTES E BUSQUEI DESDE SEMPRE COLOCAR NAS MINHAS FILHAS O SENTIDO DE PRESERVAÇÃO E RESPEITO AO MEIO AMBIENTE. MAS O Q OBSERVO NOS ADOLESCENTES DE HOJE (CLARO Q HÁ EXCEÇÕES) É QUE ELES ESTÃO TÃO VOLTADOS PARA O PRÓPRIO UMBIGO, QUE SEQUER CONSEGUEM OLHAR À VOLTA, TÃO PREOCUPADOS QUE ESTÃO NO CULTO AO CORPO E NA FARRA PELA FARRA. FICO PENSANDO EM QUAIS CAMINHOS SEGUIR PARA Q ESTES JOVENS (NOSSO FUTURO) SEJAM MAIS RESPONSÁVEIS E MENOS ARROGANTES, MENOS PREDADORES?
COMO O GOVERNO TRABALHA ESTA DIFICULDADE? OU SERÁ QUE SÓ EU VEJO DESTA FORMA?
R. Olha, eu vejo o mundo um pouco piorzinho que você, desde que na minha opinião, além dos jovens, sinto que as crianças, adultos e velhos estão muito alheios à dimensão ambiental, mas tenho forte otimismo que a gente consiga reverter este triste cenário.
Especificamente no plano jovens, os 2 Ministérios do Meio Ambiente (MMA) e da Educação (MEC) contribuem muito com este debate através dos chamados Coletivos Jovens, existentes em todo e em cada estado brasileiro.
Aqui em MT, por ex, estamos organizando um encontro da rede de EA, com parceria destes jovens do centro-oeste. Eles vão às escolas, promovem cursos, participam conosco nesta ciranda.
Minha sala de pesquisa, por ex, é também a sala deles.
Portanto, há uma ENORME esperança nestes jovens! Aliás, com ego massageado quero te contar que sou a ‘madrinha' deles e eles afirmam: “você é jovem há mais tempo”.
P. Estive acompanhando a entrevista na AFROTUPY e pude tomar conhecimento e me esclarecer sobre vários assuntos referente à Educação Ambiental; tão bem tratada pela Michèle, senhora da simplicidade para com as palavras de um tema sério! O domínio do assunto flui em suas letras com graça e sabedoria,e me dou conta de que existem Seres no caminho de um Mundo melhor.
R. Acho que um anjo caiu do céu revestido de você. Obrigada pelo carinho, você também me traz a doce sensação de que podemos ter esperanças, afinal. Esperanças?
Michéle, parabéns pelo papel importante que prestas neste instante crítico que o planeta azul passa... Sinto cada vez mais que precisamos fazer com urgência algo para tentar reverter uma situação cada vez mais dramática, e tenho pensado em encontrar caminhos para agir, em conjunto com outras pessoas interessadas em despertar as comunidades e tribos para o pensamento ecológico e posturas mais éticas e responsáveis...
Podes me aconselhar?... Também gostaria de saber quais são as esperanças para nosso planeta, caso a destruição continue acontecendo neste ritmo nos próximos anos...
P. O que fazer?
Sempre fui uma amante da Natureza, daquelas de recolher bichinhos na rua e levar pra casa (apesar dos protestos de minha mãe). De chorar ao ver as florestas desmatadas e as árvores urbanas serem mais e mais erradicadas. Já fiz abaixo assinado na minha rua por 4 algarobas, que o morador "dono da calçada", queria derrubar e posteriormente derrubou mesmo (com a conivência da autoridade competente).
Levei o documento na Prefeitura (o abaixo assinado pedindo pela permanência das árvores), Na ENLURB (órgão responsável).
Fiz inúmeras denúncias....E no final não consegui muito! O que você aconselha fazer?
Existe algum órgão governamental ou não, sério, que possamos procurar?
R. Este é um dos grandes dilemas mesmo, não é?
Cheguei até a brigar com o técnico da prefeitura de Cuiabá uma vez, porque enfrentei situação parecida.
Apelei pro IBAMA, juizado ambiental e até a polícia, mas como você, não tive sucessos e as árvores que eu queria vivas foram cortadas.
Um caso pior aconteceu com meu amigo, que foi intimado judicialmente para que eu cortasse a mangueira de sal casa porque estava prejudicando o telhado da vizinha. Ele se recusou e quase foi preso. Além de cortar a árvore no final, teve uma multa louca e um stress emocional lascado. Perdoe, mas não sei como fazer também... Mas estamos tentando rever as leis...
Embora seja um processo tão moroso num mundo tão imediato...
P. Chorei de emoção, chorei de tristeza por ver esse rio tão famoso como está!
É devagar assim mesmo? As pessoas sabem e faz errado, Meu Deus, chega ser ridículo.
Desculpe o desabafo, pois amo esse Rio, ele é maravilhoso.
Têm projetos para o Mercosul através dele sabe?
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R. O Rio de Piracicaba... Embora não seja da sua terra, já comi muito peixe na beira deste delicioso rio...
P. Eu acredito que os professores desde cedo procuram ensinar sobre meio ambiente e etc, todo o be a ba, mas sei que o homem destruiu tanto tudo que tínhamos, que só sobrará aos que aqui chegam o ato de conservar e agüentar as conseqüências daquilo, que os adultos, tão bem instruídos, fazem, sem amar o seu próximo e nem a si mesmo.
R. Acho q a situação agravará bastante ainda infelizmente... Mas certamente, as pesquisas caminham e as pessoas estão mais sensíveis à causa ecologistas.
Acredito sim, na força da paixão - é ela que move o mundo. E você revela muito bem em seus poemas. Precisamos de muita gente na ciranda.
P. Bem, trabalhei um tempo divulgando o protetor solar para negros (que é maravilhoso), porém, se procurarmos no mercado não encontramos, por que dizem que nós negros não precisamos utilizar, vendo algumas respostas percebi, que é mais do que urgente, abordarmos esse assunto, mas o que fazer se as empresas não estão muito preocupadas com essa questão?
R. Que loucura saber desta informação. Lembro de ter visto o produto (acho que era da Sundown, sem comercial! ). A pele negra tem mais melanina que a branca, entretanto, está exposta igualmente aos raios solares e em função do buraco da camada de ozônio, exposta igualmente às radiações cancerígenas. Considero esta informação racista, vou procurar saber melhor com algumas pessoas.
Cara Senhora Michele Sato,
A Johnson & Johnson continua e continuará manter sua linha de produtos para proteção da pele independente de raça, cor ou estado social. Qualquer informação contrária a esta declaração deverá ser encaminhada à política, no código civil que trata sobre as questões raciais.
Atenciosamente
Equipe Sundow
P. Energia alternativa
Hoje, falam da possibilidade de várias formas de energia alternativas não poluentes e de baixo custo, algumas que já saíram da fase experimental e são usadas na prática em alguns países, como a energia eólica e a solar, por que, então, não se investe mais nestes tipos de energia em pesquisas que possam baratear os custos e facilitar suas aplicações, principalmente em países onde a pobreza de recursos é grande? Sabendo-se que as alternativas poluentes e destrutivas do meio ambiente que o petróleo e a energia nuclear oferecem, ainda continuam largamente produzidas e em evidência no mercado internacional, por que os países de mais recursos não investem mais incisivamente em tecnologias alternativas não poluentes e que regulamentador internacional aplica sanções punitivas sobre os países que atentam abertamente contra o meio ambiente e porque tais punições não surtem efeito, já que deparamos com jornais noticiando reincidência de mau uso e destruição do meio ambiente, principalmente, da camada de Ozônio?
Educação ambiental
Que programas aplicados em escolas vem surtindo efeito concreto em relação à preservação do meio ambiente?
Quais os projetos que envolvem não só a criança na escola, mas, também, a família para conscientização da necessidade de preservar o meio ambiente.
R. Há inúmeras iniciativas e experiências em EA nas escolas de todo Br. Recente pesquisa do MEC revela que 97% das escolas abordam a dimensão ambiental.
O grande dilema é: COMO esta temática está sendo tratada, e infelizmente poucas conseguem sair de seus engessamentos tradicionais, resumindo-se em cursos, palestras, plantio de árvores ou coleta seletiva do lixo.
Há propostas e aqui em MT, sou consultora da Secretaria de Educação (SEDUC), propondo que as escolas se orientem nos arrojados “Projetos Ambientais Escolares Comunitários (PAEC)”.
Temos excelentes materiais (ai, desculpe a falta de modéstia, viu?) e as orientações acontecem... Mas há obstáculos terríveis.
Duas coisas:
o ecologismo é de vanguarda e a escola careta. Na sua tradicional visão, não consegue incorporar os discursos da contracultura, e a dimensão ambiental não consegue se inscrever nos âmbitos escolarizados.
E mais importante:
a EA não é ilha isolada do sistema em crise, é apenas um reflexo de toda crise continental. Assim, se a educação vai mal, não é possível q a EA, sozinha, consiga ser um sucesso nas escolas.
A leitura política do mundo exige uma leitura mais complexa, tecendo teias de um tecido conjunto que abarca toda a política do local, país e mundo. Por isso, tratar da EA é considerá-la num olhar político de enormes envergaduras, que possivelmente esbarre também no TEMPO tirano de poucos resultados imediatos, já que o processo é sempre esquecido por todos nós. É preciso considerar o meio URGENTE, para além do produto.
P.. . Não se investe mais nestes tipos de energia em pesquisas que possam baratear os custos e facilitar suas aplicações, principalmente em países onde a pobreza de recursos é grande?
R. Ultimamente tem me preocupado demais a mudança climática ... Mais do que nunca, tenho pesquisado sobre o assunto e estou cada vez mais horrorizada com a situação planetária.
A redução de apenas 1% do PIB mundial evitaria catástrofes trágicas, embora não resolvesse a situação já instalada. Com certeza o consumo energético é o vilão de todos. No Brasil, a energia alternativa veio no álcool, que certamente foi um dos grandes avanços tecnológicos, ainda que mereça todas as críticas...
Mas temos trabalhado com biodiesel também, já que somos campeões da biodiversidade mundial. O grande dilema é quando se fixa apenas uma espécie de oleaginosa, mas aqui na UFMT, uma inovação científica traz a possibilidade de mistura de sementes, o que é realmente excelente, já que se aproveita do recurso local sem introdução de exóticas e valoriza o potencial econômico da região.
Estive recentemente em Vitória, num curso pra Petrobrás.
Fiquei assustada com o desperdício do gás! Ainda não existe tecnologia suficientemente viável do ponto de vista econômico para evitar este prejuízo. Mas estamos avançando, ainda que lentamente.
Outras fontes também estão em desenvolvimento e o Brasil se configura com um país bem produtivo em termos de ciência e tecnologia.
Oxalá este benefício reverta à sociedade, na inclusão social de todos, com muito cuidado e carinho ambiental.
P. Que idéias/planos você pensa implementar daqui para frente, junto à ONU e também a outras organizações/instituições para ajudar, ainda mais, a conscientização de todos sobre a preservação do meio-ambiente?
R. Em relação a ONU, a orientação deles é perversa: uma década da educação para o desenvolvimento sustentável, retirando o ambiente, que não é mero qualificador neutro da educação, mas configura-se como uma luta identidária dos ecologistas. É trocar o ambiente pelo desenvolvimento. Minha luta? Uma observadora CRÍTICA das políticas internacionais, não apenas olhando, mas fazendo intervenções e sendo contrária a esta orientação. Não é tarefa nada fácil, mas tenho atuado nesta perspectiva e, essencialmente, dado palestras e publicado desta maneira com veemência.
Se vamos ganhar? Não sei... Mas não sou educadora ambiental para vencer, escolhi-a pelo meu projeto pessoal de vida, de estar na luta, ainda que em grupo minoritário de resistência, transgressão e liberdade.
P. A PROPOSITO DO IBAMA E OS FORNOS QUE ESTÃO QUEIMANDO ÁRVORES TODOS OS DIAS! UMA VERDADEIRA DESTRUIÇÃO, LÁ NA SERRA VERMELHA!TEM ALGO ME DIZER SOBRE ISSO?
R. Sobre o IBAMA há várias implicações por aí, muitas negativas, mas muitas positivas também. Em MT, tivemos a ação Curupira e muita gente foi presa!
Há encaminhamentos sendo cuidados, portanto e é bom a gente saber antes a razão de eles estarem queimando a madeira. O gerente do IBAMA participa da rede de EA aqui em MT, vou perguntar pra ele e te trago a resposta, caso ele me responda esta semana.
P. Reforma Agrária
A América do Sul esta num estado lamentável - Jacques Chonchol foi Ministro da Reforma Agrária do Governo Allende – está vivo e é Cátedra da Sorbonne - diariamente recebo e-mails do mundo inteiro( do mundo ocidental) pedindo noticias dele - menos de qualquer brasileiro - não entendo porque nunca a nossa imprensa sequer mencionou seu nome e sua atuação política. Jacques Chonchol, sociólogo chileno é cultuado na França! Porque será que permitem que a historia se perca e que os jovens não tenham qualquer noção do passado da América Latina e porque o Lula jamais esteve com ele, para sequer trocar idéias e perguntar porque não deu certo - não deu certo porque boicotaram o transporte dos alimentos
para a população chilena.
R. Eu fui até a sua página, tentar descobrir seu nome, mas não consegui. Perdoe então, tratá-la por “Euro”, assim diz seu profile.
Há vários nomes da América Latina que o Lula nunca conversou ou deu importância. Mas não é porque somos famosos na França ou em Bangladesh, mas talvez porque sejamos várias pessoas com inúmeras divergências, opiniões e visões de mundo.
Creio ser terrível ter apenas um consultor, mas é preciso ter vários. Há várias mazelas no governo Lula, mas penso que você está coberta de razão em apontar inúmeros talentos na América Latina que não possuem reconhecimento devido. Um dos caminhos deste reconhecimento, talvez seja reconhecer que a qualidade das pessoas não podem ser reduzidas ao marco europeu, senão intrinsecamente relacionada com a política local.
(Madá??????) R. Uma pergunta pessoal de difícil resposta. Pessoalmente, aprendi com a fenomenologia tentar aceitar as diferenças com tolerância.
Não consegui ainda, mas é uma aprendizagem de vida que talvez jamais se alcance. Aceitar o diferente, entretanto, não significa aceitar Bush. Violências devem ser denunciadas para que o anúncio de uma nova era possa ser possível.
Sou uma pessoa eminentemente emocional, muitas vezes sem nenhum equilíbrio com a racionalidade. Sou movida pela paixão, pela busca constante de mudar as coisas ruins e construir um país mais justo e mais feliz. Talvez as andanças pelo mundo tenham me feito 110% brasileira e com efeito exagerado, mas o que me move é ajudar meu país a ser mais feliz.
O processo disso não ocorre somente pela academia, mas sou militante, mulher, cidadã... Embora meus orientandos me chamem de ‘exigente', sei que eles são capazes e evoco os talentos escondidos.
Sou tolerante aos erros, inclusive aos meus próprios e lido bem com a desarmonia, talvez pq sempre a considere como parte desta luta. E, portanto, não há fragmentos entre a pesquisadora Michèle Sato e a mulher Mimi - senão a conjugação disso e aquilo em plena metamorfose ambulante.
Tento construir “CONFETOS”, no híbrido dos CONceitos e aFETOS, sempre com fraternuras! Escolhi viver minhas opções acolhendo arte, ciência, filosofia ou ambiente como plenitude de minha vida, seja pessoal ou profissional. Mas cá entre nós, não sei se são escolhas... acho que pra ser sincera, eu não sei viver de forma diferente.
Michéle ai vai minha pergunta
Seria possível dentro deste modelo de desenvolvimento onde o mercado é deus
Termos de fato uma política global com parâmetros claros e rígidos no sentido da saúde planetária e da qualidade de vida das populações?
Que tipos de implicação política econômica e cultural teriam caso isto se viabilizasse? R. Tenho cá comigo que o grande vilão do mundo é sempre o capital, a sua forma injusta de distribuição e a corrida acelerada do TER em detrimento do SER. Não creio ser diferente no ambientalismo, a grande concorrência neoliberal do mercado se explicita na dimensão ambiental.
Há vários estudos que as pessoas realizam em termos de valoração econômica da natureza. Nosso grande Celso Furtado é um exemplo clássico e muito bom nisso.
Na área internacional, gosto do Ignacy Sachs, mas parece-me que existem duas correntes na economia: a) economia AMBIENTAL - que dá valor a tudo, matematicamente calculada, inclusive de quanto vale a vida de um favelado do RJ caso o morro caia; e b) uma economia ECOLÓGICA - que se inscreve na ética do respeito à vida e declara que nem tudo tem preço e que ainda não conhecemos tudo do planeta para dar um valor.
Não preciso dizer que sigo a segunda corrente e vale aqui uma frase do Sachs: “A economia é uma ciência humana matematicamente perfeita e socialmente equivocada”.
As implicações culturais estão no tecido conjugado com à vida, propriamente dita. Não é possível viver sem a arte, mas também não é possível viver com ar poluído.
A saúde ecossistêmica não pode ter meros indicadores de ausência de doenças, senão considerar a saúde em sua totalidade: física, mental e espiritual. Por isso, a luta ecológica não pode ser da minoria, mas de todos nós.
P. Entre a antropofagia e o surrealismo, como vês a produção poética hoje no Brasil e no mundo? O que é que a internet e todas as suas variantes vieram a contribuir para essa produção ou não.Onde cabe poesia hoje neste universo de informática e globalização?
R. Como tudo na vida tem pós e contras, a Internet também, mas em termos de divulgação e visibilidade, não tenho dúvidas o quanto a informática proporcionou que inúmeras pessoas pudessem ser incluídas digitalmente. O You Tube são táticas interessantes, semelhantes às fotocópias que as editoras proíbem em função do mercado. Transgressora do jeito que sou, gosto do dele e incentivo meus estudantes a fotocopiarem meus livros.
Além disso, disponibilizo uma parte boa dos meus textos na minha page. Não sei o que o mercado do livro acha sobre isso, de qualquer modo, são táticas interessantes para divulgar nossos trabalhos, ainda que não se lucre nada com isso.
A poesia (poietike) exige que se crie (poiesis), e ambas possuem o mesmo radical. Não acredito que seja necessário ter talento como vc para criar poesias tão lindas e um papo pelo scraps já basta para que uma poesia surja de suas mãos... Mas aos menos habilidosos, vale a mágica força da sensibilidade, em se ler e se suspirar.
Arnaldo Antunes disse que há música para tudo. Eu digo que há textos para tudo também . Mas se a vida tiver a magia poética, parece que viveremos mais felizes. E se os textos carregarem a dose poética, hummmm, melhor ainda!
P. EXISTEM HOJE MUITAS ONGS ATUANDO EM DIVERSAS REGIÕES DO MUNDO NO SENTIDO DE DENUNCIAR AS POLÍTICAS LOCAIS RELATIVA A QUESTÃO DO MEIO AMBIENTE INCLUSIVE PROPONDO A INTERNACIONALIZAÇÃO QUE ALGUMAS REGIÕES QUE SÃO CONSIDERADAS ESTRATÉGICAS. COMO VOCÊ VÊ ESTAS QUESTÕES?
QUE TIPO DE PAPEL SERIA POSSÍVEL PARA AS CULTURAS LOCAIS NUM CENÁRIO "IMAGINÁRIO" NO QUAL ALGUMAS REGIÕES ESTARIAM SOBRE A TUTELA INTERNACIONAL?
Então, acho que a maioria deve conhecer aquele texto do Cristovam Buarque, onde ele pergunta por que não internacionalizamos o Vaticano, o Museu Britânico ou Manhattam, já que todas estas coisas parecem ser patrimônios de suma importância ao mundo inteiro. Por que somente a Amazônia?
Ele nem fala em distribuição das riquezas do Vaticano, mas desafia que cada país internacionalize a criança. Assim ela poderá ir à escola, não terá que dormir nas ruas e terá direito ao seu ligar na sociedade.
Posto nesta perspectiva, também sou favorável à internacionalização. PORÉM enquanto o mundo nos tratar como desiguais, acredito que a soberania da Nação é o maior bem que um país pode ter.
É a escolha livre e democrática de seu próprio destino.
E nesta mirada, sou completamente contrária à internacionalização de qualquer coisa que seja. “Cada macaco no seu galho”! Mas para isso, temos que oferecer o mínimo de condições para que os povos saibam fazer suas escolhas.
Este é um desafio da EA: estabelecer políticas locais sem se despedir da visão de mundo, ou o tal GLOCAL (global e local conjuntamente). No slogan da EA “Pensar globalmente e agir localmente”, eu mudaria: Pensar globalmente e agir LOUCAMENTE!!!!
P. Quero saber da entrevistada o que ela acha que os descendentes de africanos têm a ensinar sobre sustentabilidade, principalmente num momento de crise ambiental como este que estamos vivendo?
R.
Na Califórnia começou um movimento de racismo ambiental, desde que os danos ambientais atingiam a população negra de forma abusiva.
Esta rede entrou no Brasil através da Rede Internacional de Justiça Ambiental, considerando que as vítimas são pessoas de poder econômico baixo e não somente negros.
Em toda história da humanidade, os impactos ambientais sempre prejudicam mais as populações carentes e a Rede busca reverter o processo, jamais ‘conscientizando' as pessoas, desde q ninguém é tão poderoso para dar consciência à outra pessoa, senão promover fóruns democráticos e planejar táticas educativas para que as populações pudessem mobilizar, saber atuar politicamente e resistir as mazelas.
No plano racial, a recuperação histórica dos escravos e a parte medíocre da nossa história civilizatória merecem sempre ser lembradas.
A recuperação mitológica dos Orixás, por ex, é um grandioso exemplo desta recuperação e a sustentabilidade ambiental está intrinsecamente relacionada com a cultural e não é mais possível calar-se às hegemonias estabelecidas. Sustentar, entretanto, não é congelar.
Na dinâmica da vida, o movimento avança, mas tb recua. Estamos longe de termos conseguido equidade social, racial ou de gênero e há inúmeras vozes que ainda precisamos recuperar para darmos devida audiência, como os povos indígenas ou grupo de pessoas não heterossexuais.
O mais importante de tudo é que as pessoas percebam que a luta ecologista não está à margem da história do mundo. Ser ecologista implica em trazer à tona a dimensão social como parte intrínseca e jamais divorciada de nossa luta.
P. Porque é tão difícil introduzir a Educação Ambiental nas escolas desde o inicio...até na universidade..... Independente do curso?
Eu acho que já respondi previamente, mas gostaria de reforçar que o movimento ecologista nasceu na contracultura, quando a década de 60 fazia revoluções cá e lá, entre Woodstock e Tropicália. Movimento de vanguarda, foi absorvido tardiamente pelas estruturas engessadas da escolarização. A universidade é careta mesmo! Inovações custam muito para serem incorporadas e temáticas ambientais, indígenas, negras ou saber popular, por ex, estão sempre à margem das prioridades universitárias. Uma pena, mas estamos lutando para mudar o quadro.
Pessoalmente, faço a política do cupim: ataco a estrutura engessada da academia por dentro.
Não é tarefa fácil, acredite, pois além dos tradicionais inimigos que destroem o ambiente, enfrentar os nobres colegas da corte é um desafio cotidiano.
Beijos de quem te adora
http://www.earthday.net/footprint/info.asp
Apertando no mapa do Br com o botão direito, há opção do idioma português. Faça o seu teste e veja quantos planetas precisaríamos se os 7 bilhões de habitantes do mundo tivessem o mesmo consumo que o seu estilo de vida. Quando fiz o teste, fiquei muito envergonhada do meu consumo e nem quero revelar quantos planetas seriam necessários se todos tivessem meu modo de vida.
Mas depois refiz o teste, retirando meus vôos (eu viajo muito!!!!), bem... Melhorou demais. Acho que o teste é um alarme para nós mesmo, para mostrar o quanto somos consumistas e não enxergamos.
Como você se sente sabendo dos casos de Dengue que correm pelo Brasil?
R. Dengue... Um caso sério esta endemia que não conseguimos combater.
Tanta informação, casos graves e freqüentes e, simultaneamente, o processo profilático é tão simples, bastando retirar água parada dos nossos quintais ou locais que moramos e atuamos. Embora com vários desafios e mazelas testemunhadas, a medicina já percebeu que não é possível falar em saúde sem considerar o ambiente em que vivemos.
P. Como encarar estes fenômenos da mente, face a tudo que ocorre a sua volta?
O estarmos indignados com os caminhos, nos faz vítimas, ao invés de cooparticipantes, por não encontrarmos soluções reais de paralisação deste processo destrutivo?
R. Não sei se compreendi bem sua pergunta, acho que ando atolada em serviços mentais que o cérebro me confunde. Se não for a resposta que deseja, por favor, peço que retorne e me esclareça, desde já pedindo desculpas.
Gattari é um filósofo francês que trata de 3 ecologias: mental, social e ambiental. Na MENTAL, ele sugere uma reinvenção do sujeito na sua relação com o corpo. Na SOCIAL, o grande desafio de ser-em-grupo, não apenas por atividades comunicacionais como este iogurte, mas na relevância das mutações existenciais que se situam no campo da subjetividade de um coletivo, como a família, instituições, grupos, ‘tribos', enfim que nos conduzam à reflexão da territorialidade de nossas existências perante uma organização social.
As chaves transversais instauram o sujeito e o coletivo no mundo (AMBIENTAL), circunscrevendo-se naquilo que os fenomenólogos consideram de EU-OUTRO-MUNDO.
Estou pedindo ajuda ao Hiran, Ivy e Virgínia (3 psicólogos) para me ajudarem nesta resposta!
O que estas 3 ecologias podem fazer para que não nos paralisemos frente às violências sofridas? Bem, aí teremos que recorrer à Marilena Chauí, no seu brilhante txt sobre ‘o silêncio dos intelectuais'. Nunca testemunhamos tanta mudança e catástrofe em tempo recorde. A humanidade atravessa um período sem precedentes e não conseguimos nos mobilizar. Na verdade, NÃO SABEMOS COMO ATUAR frente a esta era. Inscrevendo em Gattari, o AMBIENTAL transmuda em velocidade feroz, atingindo o SOCIAL e, obviamente, o MENTAL. Mas não temos resposta, infelizmente. Estamos construindo e tentando com mais erros do que acertos, mas é inegável que estamos fazendo algo...
Abraços preocupantes...
P. ... desastre ambiental na Bacia do Rio dos Sinos.... Acho que deveria ser bem mais ampliado este debate pelos ministérios responsáveis tanto do meio ambiente quanto da educação para que no futuro não assistamos mais esses absurdos. E uma punição mais energica contra empresas que agem desta forma.
Gostaria de saber sua opinião sobre este tema.
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Na UNISINOS há um grupo forte de EA que tem trabalhado com esta dimensão. Há uma ONG (esqueci o nome) muito ativa pró-rio dos Sinos, certamente o povo da UNISINOS saberá te informar melhor. Mas respondendo sua questão, os ministérios da Educação (MEC) e Meio Ambiente (MMA) fazem diversos pgmas e com enormes dificuldades. A punição que vc cita é parte do IBAMA e claro que há corrupções, mas há pessoas sérias e engajadas que vc pode confiar tb. Ao tratarmos de punição ou fiscalização, entretanto, não estamos mais tratando da abordagem pedagógica que venho trabalhando.
A EA opera muito mais no plano profilático do que corretivo e pessoalmente, acredito que as leis devam ser revistas cuidadosa e detalhadamente. Concordo que as multas devam ser altíssimas e que a punição (poluidor pagador) seja concretizada. Para além de leis, porém, é preciso que a sociedade civil se engaje e participe ativamente do processo, do contrário teremos responsabilidade apenas de um lado. Mas não há muita receita, é preciso investigar os cenários locais e conjuntamente com as pessoas do local, traçar táticas e mediações pedagógicas que possam reverter o cenário. Na maioria das vezes, perdemos, infelizmente. Mas o importante talvez seja lutar para mostrar de que lado estamos.
Sempre alerta!
P. Na sua opinião a mídia tem feito uma boa cobertura sobre os problemas relacionados ao meio ambiente? O espaço que a mídia oferece para a temática ambiental é suficiente?
R. Não, não são boas. Muito pelo contrário, a mídia é desastrosa, com perdão ao Kenji, meu irmão jornalista.
Sei que não é possível generalizar, e reconheço as exceções, há vários jornalistas engajados e sérios cumprindo maravilhosamente bem seus papéis, mas na maioria das vezes, equivocam-se, omitem-se ou buscam notícias sensacionalistas para o mercado da comunicação.
Tenho tentado ajudar esta esfera através da educomunicação e eu e a Lika temos uma matéria interessante no Jornal da Tarde, de boa circulação no estado de SP, conjuntamente com o povo da ECA-USP. Aqui tb temos tentado realizar várias atividades, mas claro que não é em nenhum horário nobre que possa desbancar as novelas que mais incitam competições e intrigas do que humanidade. Há também uma ausência forte da dimensão ambiental no currículo da comunicação, pergunta que respondi , sobre a inserção da temática nas universidades.
Não poderia finalizar tão pessimista, mas acenar que o cenário se modifica e que vários profissionais da mídia se engajam e somam-se à luta ecologista.
P. Sei que a Tecnologia esta numa fase bastante avançada e que estes programas espaciais ,colaboram bastante para este avanço, será que o homem no propósito de facilitar sua própria sobrevivência neste planeta
R. Prezado HOMEM , compreendo que vc se refere genericamente à raça humana, mas esta MULHER agradece se vc puder reconsiderar que somos SERES HUMANOS, ainda que a gramática machista permita o uso do 'homem'.
Sua pergunta é um debate muito antigo. De um lado, estão os ALIENADOS: os que buscam nas ciências as descobertas do conhecimento, sem se preocupar com a sociedade. Por outro, estão os UTILITARISTAS, que só aceitam as invenções científicas se houver uma função social. Eu gosto muito da dialética, embora não me preocupe em encontrar a síntese. Podemos conviver com os conflitos, negociando - vencendo e tb sendo vencido. Mas já que vc tende a um lado, gostaria de te convidar a entrar No site da NASA, se é que nunca fez isso. Navegando por lá, vc vai descobrir inúmeras vantagens humanas que a corrida espacial tb traz. O controle de queimadas, o nível de elevação da água e tantas outras informações chegam dos satélites acoplados à esta investigação que as ciências espaciais desenvolvem.
Os problemas do Universo co-existem e não há como priorizar um em detrimento do outro. Todas as atividades são importantes, assim como cada pessoa é singular no mundo. O melhor caminho é saber co-existir, naquilo que respondi anteriormente sobre as 3 ecologias: mental, social e ambiental. Cada qual tem seu papel, função e responsabilidade e não há como definir o que é mais ou menos importante, senão unir forças, dar passos conjugados, ultrapassar fronteiras e co-existir neste planeta azul tão bonito e que carece tanto de nosso cuidado. Para além de provocar outras áreas, que a EA saiba ACOLHER os diferentes, numa gde roda mágica de todos nós. P. Recentemente tenho lido matérias de página inteira alertando tanto para estas ações citadas como à desnacionalização da Amazônia. Por que tão repentinamente esse "fervor nacionalista" erguendo a bandeira de defensores da natureza?
Eu já respondi esta questão , e reafirmo que não é de repente que nos tornamos brasileiros, sempre fomos. “A César o que é de César” e “a Amazônia ao Brasil”.
Há muito, o México luta contra o imperialismo americano em suas terras. Um slogan muito popular “Go green, go (vá, verde, vá)” se referia aos soldados americanos com seus uniformes verdes. Os mexicanos os convidavam para saírem de suas terras com esta expressão (green, go!) e ela acabou se tornando muito mais popular e conhecido como GRINGO (green-go).
Acho que está na hora de chamar os mexicanos para esta luta. Enquanto isso, deixo o meu slogan: Xô tio Sam!
P. O FAMOSO "JETINHO BRASILEIRO???"... ACREDITO QUE SE ESTAMOS DISCUTINDO ISSO,NÃO SEMPRE ESTÃO INCLUIDAS NISSO PESSOAS QUE APRENDEM PARTICIPANDO QUE POSSAM PREJUDICAR A VIDA NA TERRA! O IMPORTANTE QUE CADA UM FAÇA SUA PARTE,DENUNCIANDO ESSE TIPO DE AGRASSÃO!
R. Tenho verdadeiro arrepio desta expressão. Morei na Inglaterra e no Canadá tb, além do Quênia. Nos tais países ricos as mazelas são parecidíssimas e talvez até piores em certos casos. Não nego que não exista, mas prefiro acreditar que há pessoas sérias envolvidas no processo que tb estão envolvidas para melhor bem estar ambiental. A generidade é um perigo, bem como a particularidade. É preciso relativizar... Na era contemporânea, o dualismo cartesiano do preto no branco não responde mais aos desafios complexos que o mundo sofre.
P. FAVELA URBANIZADA?!?!?!
OI, MICHÉLE? O QUE VC ACHA DO MOVIMENTO FAVELA - BAIRRO E COMO VC VÊ O PROCESSO FRENÉTICO DAS FAVELAS NOS GRANDES CENTROS URBANOS, SITUADAS EM ENCOSTAS OU EM ÁREAS DE PRESERVAÇÃO CAUSANDO UM GRANDE IMPACTO AMBIENTAL?
Um cientista que tem um currículo respeitável, diz que o problema não está relacionado ao CO2...Ele é um cientista russo o nome dele é Khabibullo Abdusamátov( ele diz que o aquecimento global é culpa do sol e não dos homens...) O pessoal da União Européia, que esteve em Davos a pouco diz que tem que baixar o nível de CO2, e elaboraram uma proposta. Vc acha que isso poderá resolver?
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Amiga queridíssima, de sonhos, delírios e amizades... Este cara de nome incrível e irreproduzível está louco. De vez em quando chegam uns doidos atirando para todos os lados para chamar a atenção, polemizar e depois rir às nossas custas. Ele publicou aonde? Em jornais de circulação ou em revista qualificada? Dificilmente terá acesso às revistas científicas, desde que estas exigem tese-antítese e síntese para sustentar o tamanho da besteira que falamos. Cientistas do mundo todo foram consultados para escreverem o relatório do milênio, que abertamente denuncia o consumo energético dos países industrializados como maior responsável pelo aquecimento global. Há evidências científicas que a mudança climática vem do CO2:
http://www.maweb.org/en/index.aspx
Não, não creio que planejar, escrever relatórios ou fazer pesquisas sejam suficientes. É preciso muito mais do que isso. Convencer o Tio Sam a reduzir 1% de seu PIB é tarefa hercúlea que nem Bin Laden alcança. Proteger o ambiente TOCA EMERGENCIALMENTE na mudança no estilo de vida das pessoas e isso implica em cadeia produtiva, máquinas mafiosas e estruturas podres que dominam o mercado.
P. E aí? Como é que nós vamos convencer o Krakatoa a assinar o protocolo de Quioto (ou Kioto)? Não conseguimos convencer nem o Bush. Por favor, Michelle desconsidere as ironias, elas fazem parte do contexto da discussão dele, e não foram comigo, só acompanhei.
Em relação às provocações, vamos então por parte:
1. É fato que um fenômeno natural possa emitir mais CO2 que toda poluição industrial junta pode causar. É OUTRO FATO que as mudanças climáticas provocadas pelas ações humanas fomentam fenômenos naturais avassaladores. SC testemunhou um furacão recentemente, qdo este fenômeno NÃO existia no Br.
2. Respondi em algum momento desta entrevista, que lutamos contra o mercado. Somos de esquerda, portanto. E a direita sempre irá obstruir nossos trabalhos e nossa luta. Mas cientificamente considerando, é preciso publicar as bobagens que falamos, senão é mesmo um verdadeiro “blábláblá”. Os perigos ambientais do mundo estão sendo continuamente anunciados, publicados e debatidos e posso citar INÚMEROS pesquisadores famosos e confiáveis. Provavelmente não conheça seu amigo, por quê será que ele não publica, já que tem tanta certeza?
3. Uma organização chamada ECO-NOT (pode procurar pelo google que vc acha) nos intitula por fundamentalistas da caverna, afirmando que os ecologistas apregoam idade das pedras e o livro que eles soltaram intitula-se: Máfia Verde. Vc verá que no site que esta organização faz parte do anti-semitismo alemão, ainda nazistas e com ações na indústria bélica.
4. Lomborg, da Noruega, tb soltou um livro (o ambientalista cético) com números comprovando de que somos alarmistas e antidesenvolvimentistas. A comunidade científica de TODA EUROPA já comprovou a falsificação dos dados e o mau agrupamento de informações que revelaram as tendências deliberadamente provocadas por este prof de Estatística. A palavra estatística origina-se de status (ESTADO) e foi criada para se cobrar imposto da população. Confiável? Se vc tiver domínio básico da estatística, verá que é fácil manipular dados.
O mosaico é rico e é proporcional à vontade de mudar o mundo. A escolha desta educadora ambiental é deixar-se levar perdida e apaixonadamente pela luta ecológica que faz a diferença, não nega os conflitos sociais, não foge das tramas, e saboreia a aventura de ter riscos. Pois somente aqueles que ousam mudanças sabem o significado da luta pela construção de um ecologismo político ousado, teimoso e incansável à construção de uma Nação que ainda sonha pelas utopias das transformações desejadas.
P. O QUE VC ACHA DO MOVIMENTO FAVELA - BAIRRO E COMO VC VÊ O PROCESSO FRENÉTICO DAS FAVELAS NOS GRANDES CENTROS URBANOS, SITUADAS EM ENCOSTAS OU EM ÁREAS DE PRESERVAÇÃO CAUSANDO UM GRANDE PACTO AMBIENTAL?
Vou correr o risco de ser apedrejada, mas os favelados precisam morar em algum lugar. É lamentável por um lado, porque o Br possui SOMENTE 5% de sua gigantesca área em unidades protegidas, o que é irrisório e faz ‘cosquinha'. Por outro lado, a situação social destas pessoas é dramática e de difícil solução. Por isso, tenho repetido várias aqui que considerar a dimensão ambiental NECESSITA incluir os dilemas sociais junto. Não é possível falar em meio ambiente desconsiderando a política perversa de exclusão social. Isso implica dizer que a sustentabilidade não deve ocorrer de forma ilhada, ainda mais no mundo contemporâneo de comunicação e globalização.
Assumir a identidade da EA significa querer uma revolução, talvez silenciosa, mas certamente apaixonada. É também reconhecer que a EA nada fortemente contra uma correnteza econômica incapaz de se sensibilizar com a necessidade do silêncio das águas, nos obrigando a navegar em águas inóspitas. . ando muito preocupada com as mudanças climáticas...até demasiadamente desanimada, às vezes acho que não temos mais como reverter...
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Que a esperança nunca seja roubada, porque ai de nós, humanos, se perdermos a mágica vontade de construirmos um outro mundo possível. Como você, ando lendo muito sobre mudanças climáticas e me arrepiado de corpo e alma cada vez que ligo os pontos e vejo a possível tragédia que poderá assolar este planeta.
Mas estou aguardando minha orientanda de mestrado finalizar sua defesa logo, para que ela possa começar seu doutorado na UFSCar com este tema. Gostaria muito de continuar aprendendo com ela, não apenas a vida acadêmica, mas a lição que ela me dá todo dia: em ser generosa, atenciosa e amiga de coração aberto, sem exigir trocas, reconhecimentos ou méritos.
Esta é sua grandeza Mi, e não estou transferindo responsabilidade para você, mas apenas te convidando que vc continue a pessoa linda que sempre foi, num novo vôo que poderá nos mostrar mais caminhos para que a luta jamais seja vencida. Não ainda.
Que a esperança nunca seja roubada, porque ai de nós, humanos, se perdermos a mágica vontade de construirmos um outro mundo possível. Como você, ando lendo muito sobre mudanças climáticas e me arrepiado de corpo e alma cada vez que ligo os pontos e vejo a possível tragédia que poderá assolar este planeta.
Mas estou aguardando minha orientanda de mestrado finalizar sua defesa logo, para que ela possa começar seu doutorado na UFSCar com este tema. Gostaria muito de continuar aprendendo com ela, não apenas a vida acadêmica, mas a lição que ela me dá todo dia: em ser generosa, atenciosa e amiga de coração aberto, sem exigir trocas, reconhecimentos ou méritos.
Esta é sua grandeza Mi, e não estou transferindo responsabilidade para você, mas apenas te convidando que vc continue a pessoa linda que sempre foi, num novo vôo que poderá nos mostrar mais caminhos para que a luta jamais seja vencida. Não ainda. . quero saber
sabendo que no futuro próximo os recusos hidricos serão muito importantes para cada pais pois com aceleração de esgotamento desses recursos como podemos coencentivar a população brasileira pois nois temos uma massa hridica ivejada mais desperdissada pela propria população e nossos gorvenaates nada fazem tambem como eu um unico cidadão posso ?
muito obrigado sou john pra nossa aldeia
abraço prof. michele sato e ao prof. Marcos R. Nossa, este é outro tema de fundamental importância que estamos esquecendo, grata por evocá-lo, John! Eu gosto muito de falar ÁGUA, pq sinto que ‘recursos hídricos' encerra uma visão utilitarista de uso humano, e a água é um bem transcendente à humanidade, é a própria vida planetária! De fato, de transposição do rio SFrancisco às erosões que destroem nossas matas ciliares, parece que pouco se faz em relação à proteção hídrica.
Eu tenho trabalhado com a mitologia relacionada com a água, resgatando o próprio conhecimento popular das comunidades pantaneiras, reinvento táticas pedagógicas para que o ambiente seja cuidado. O resultado é fantástico, pois as comunidades se assumem “donas da proposta” (e de fato são mesmo!), e acabam promovendo a EA sem que eu ou a equipe que coordeno estejam presentes. O Ivan está trabalhando com mitologia da baía Mariana, talvez ele possa narrar sua pesquisa para esclarecer de que maneira temos dado atenção à água, num toque diferenciado para além dos tradicionais cursos.
P. O que são as matas ciliares e as reservas legais?
Quais as causas da degradação das matas ciliares e reservas legais?
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R. Sabe os cílios que vc tem nos olhos? Você já imaginou que eles servem para proteger seus olhos? Esta metáfora conduziu os ecólogos a nominarem a mata em torno do OLHO DA ÁGUA como mata ciliar. Ecologista é o cara que está no movimento político, ecólogo é o especialista em ecologista. Eu sou uma ecóloga ecologista!
As reservas legais são demarcadas pelos governos (tripartite), para que uma determinada área rica do ponto de vista ambiental seja protegida. Há várias categorias, entre parques, estações, reservas e afins. Nunca lembro da hierarquia entre eles, mas sei que alguns permitem visitações, atividades de EA, outros permitem mais coisas e há alguns que nem visitas são permitidas, excetos pesquisas.
Deixei um link de pegada ecológica, em algum lugar desta entrevista. Faça o seu próprio teste para verificar qtos planetas seriam necessários se 7 bilhões de habitantes do planeta tivessem o seu estilo de vida... mas não fique chateada, pois os resultados são terríveis! Por que tudo isso é danificado? Graças a uma coisa terrível chamado capital. Na época de Magritte, havia um pintor francês burguês que pintou sua mulher numa sala decoradíssima, cheia de ostentação e intitulou a tela como “Madame Recamier”. Magritte repintou a tela, com a mesma ostentação e detalhes, entretanto, ao invés da burguesa, pintou um caixão em seu lugar. Sua mensagem era: “Morte ao capital”!.
Saudades do Magritte...
P . Hj eu li várias matérias alertando para o aquecimento acelerado do planeta que pode trazer como consequência o degelo do polo norte em 2090. Isso procede e quais as conseqüências?
Conseguiríamos neutralizar essa atitute predatória cada vez mais agressiva vivando sob o modo de produção capitalista?
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R .Olá Ev, conforme já dito anteriormente, o problema da mudança climática está sendo largamente discutido em todo o mundo e há inúmeros estudos, relatórios e pesquisas que evidenciam uma grande catástrofe, caso a humanidade continue consumindo da forma predatória. 5 gdes ameaças são previstas: 1) esgotamento da água potável; 2) mudança climática; 3) perda da biodiversidade; 4) poluição; e 5) redução de recursos energéticos. Todos estes fatores estão diretamente relacionados com a dimensão social, afetando a todos, excluindo mais as pessoas, aumentando o abismo que segrega ricos e pobres.
O capital é um vilão, certamente, mas é bom ponderar que mesmo nos países socialistas, há vários impactos ambientais. Os danos ambientais ultrapassam a cartografia política, transcendendo o espectro da esquerda ou direita. Há várias teorias sobre este estudo, mas obviamente são apenas teorias. Eu acredito no potencial educativo que possa colaborar com as modificações desejadas. Mas é um processo longo e que talvez nem seja perceptível. |