Peregrinações de uma planta de manguezal
Arthur Soffiati

O botânico campista Alberto José de Sampaio recusou-se, em sua Fitogeografia do Brasil, a considerar os manguezais como um ecossistema exclusivo da América. Em grande parte, o ilustre botânico tem razão. A origem dos manguezais situa-se há cerca de 50 milhões de anos, numa região que futuramente constituiria a península do Sudeste Asiático. Deste ponto, as sementes das plantas de manguezal navegaram milênios a fio até colonizarem a região intertropical da América, da África e da Ásia. Enquanto a vegetação nativa costeira dos continentes provém do interior, a vegetação típica dos manguezais chega dos mares, como os navegadores.
Uma destas plantas tem uma história curiosa. Trata-se de uma das duas espécies de siribeira da América atlântica, em alguns lugares denominada siribeira branca ou siribeira eucalipto, em razão do formato e da disposição de suas folhas. Seu nome científico atual é Avicennia germinans.
No século XIX, von Martius referiu-se a duas espécies do gênero Avicennia: A. tomentosa e A. nitida , hoje renomeadas como A. schaueriana e A. germinans , respectivamente. O naturalista alemão delimitou a área geográfica de distribuição da A. nitida ( germinans ) entre a Flórida e a Bahia. Em 1919, Luederwaldt, seguindo os passos de von Martius, diz que a A. tomentosa ( schaueriana ) era típica da América meridional tropical. Dando crédito a Loefgren e Everett, ele procurou em vão a A. nitida ( germinans ) nos manguezais de Santos.

Por muito tempo, o limite sul da espécie foi fixado no Espírito Santo. Em 1980, as biólogas Dorothy Sue Dunn de Araujo e Norma Crud encontraram-na medrando na foz dos rios Itabapoana e Paraíba do Sul, no Estado do Rio de Janeiro. O segundo rio passou, então, a constituir o seu limite meridional de distribuição. Mesmo assim, a espécie continuou, na literatura, com sua geografia limitada ao Espírito Santo como seu ponto mais austral de ocorrência. Em 1987, Flávia Cavalcanti Rebelo registrou o gênero na foz do rio Macaé, mas não determinou a espécie, recomendando estudos neste sentido. Dez anos depois, minhas andanças em manguezais, para fins de estudo, revelaram uma população significativa de A. germinans na foz deste rio, o que me levou a registrar o fato num relatório sobre a situação dos manguezais do norte do Estado do Rio de Janeiro. Juntamente com Norma Crud, dei notícia da nova área de distribuição num trabalho científico. Em 1998, incursionando pelos rios das Ostras e São João, acreditei ter deparado com uma população muito jovem de A. germinans no segundo, não contando com elementos seguros para identificá-la. Era um grupo extremamente novo de plantas, tudo indicando ter origem numa leva de sementes flutuantes, já que não foi encontrada nenhuma árvore-mãe da espécie no manguezal. Retornando ao local um ano depois, verifiquei tratar-se de Avicennia schaueriana .
Cabem as perguntas: de longa data, a espécie está presente nestes pontos, sem ter sido registrada pelos especialistas ou está navegando rumo ao sul? Neste segundo caso, a dispersão estaria ocorrendo naturalmente ou por interferência humana? Tornam-se necessárias mais pesquisas para responder a estas questões com segurança, além de buscar-se também os possíveis fatores limitantes a estabelecerem sua área geográfica. |