ZANI / ARTE
GALERIA DOS IMORTAIS DA LITERATURA
FEDERICO GARCÍA LORCA
1920
HORA DE ESTRELLAS
El silencio redondo de la noche
sobre el pentagrama
del infinito.
Yo me salgo desnudo a la calle,
maduro de versos
perdidos.
Lo negro, acribillado
por el canto del grillo,
tiene ese fuego fatuo,
muerto,
del sonido.
Esa luz musical
que percibe
el espíritu.
Los esqueletos de mil mariposas
duermen en mi recinto.
Hay una juventud de brisas locas
sobre el río.
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CONVIDADO DA SEMANA
ANIBAL BEÇA
Anibal Beça nasceu em Manaus, AM (13 de setembro de 1946 ). É poeta,
compositor, ator, artista plástico, letrista, produtor de
espetáculos e de discos e jornalista.
Especialista em tecnologia educacional na área de Comunicação Social
(UFRJ), teve passagens, como repórter, redator, colunista, copy-desk
e editor, em todas as redações dos jornais de Manaus, do início da
década de 60 até final da década de 80; foi diretor de produção da
Televisão Educativa do Amazonas - TVE. Atualmente é consultor da
Secretaria de Cultura e Turismo do Amazonas. Idealizador e
Editor-geral do suplemento literário "O Muhra", de circulação
bimestral, editado pela referida secretaria.
Anibal Beça, além da sua condição artística é produtor e animador
cultural nato. É profissional que, nos tempos atuais, se encaixa no
rótulo de multimídia, tal a sua abrangência na área artística.
CIRANDA MANAUARA
Essa moça que baila pelas praças
volta e meia dá voltas nos meus sonhos.
Ela vem e me leva na ciranda
com seu leve vestido todo branco
com seu cheiro levado de lavanda
lavando meus desejos em contradança.
É menina morena de Manaus
do verde da floresta essa menina
bela cunhã é flor patchuli
me prende ao seu anel de tipiti.
Essa moça que vem do igarapé
é tão brejeira é meu mimo do céu
seu beijo doce sabe a jandaíra
é minha índia dos lábios de mel.
É cabocla nativa de Manaus
A moça que contorce esses meus sonhos.
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MAYDA ZANIRATO
POEMABOIO
Quando criança, morei em Iepê, uma cidadezinha quase à beira do Rio
Paranapanema.
Havia um carreiro que sempre passava com seu carro de bois. Não me
lembro mais se eram quatro ou seis. Eu o via sempre tocando os bois
e chamando-os pacientemente pelos nomes. Alguns tinham até
sobrenome. Chamava cada um, devagar, repetidamente, enquanto
passava pelas ruas. Esqueci como se chamavam os bois, mas me lembro
que todos os nomes tinham uma sonoridade semelhante, parece que em
todos eles a sílaba tônica era sempre a terceira e que a vogal dessa
sílaba variava em cada nome. Sei disso porque a "sombra". do som
ainda está na minha lembrança: o chamado dos bois misturado com o
ranger das rodas criava uma cadência gostosa de se ouvir, e é isso
que ficou gravado.
Eu percebia que não havia necessidade dele ficar repetindo os nomes,
que ele fazia isso porque gostava e queria que outras pessoas
ouvissem e apreciassem também.
Hoje eu o vejo como um poeta quase consciente da beleza que criava e
que espalhava pelas ruas poeirentas.
E eu, sem perceber ainda, era a pequena "vigia catando a poesia que"
ele "entornava no chão".
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MARISA ZANIRATO
ARTESANATO
Há quem faça da poesia um ofício
e lavre da palavra a pedra dura.
Há quem faça dos versos um suplício
para disfarçar na trama a nervura,
tal qual um construtor de catedral
a esconder, no efeito, os tijolos do edifício.
Que os bons poetas não me levem a mal.
Para mim, fazer versos é magia.
É transmutar sentimento em escritura.
Sou mulher e nada sei de pedras e parede.
Sei do tear e trama, do fio por trançar,
do fuso, do ponto, do nó e da laçada.
Não construo catedral.
Tranço meu verso como teço a rede:
peça de artesanato rudimentar.
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NEUSA ZANIRATO
UN JOUR DE PAIX
Aujourd'hui je cherchais seulement un jour de paix.
Entendre une flûte douce à rebours
D'une sirène de police. Et davantage
Un sourire d'enfant encore une fois.
Aujourd'hui je cherchais un collier d'étoiles
Enjolivant la Terre de couleur et de lumière,
Nombreuses fleurs à toutes les fenêtres
Et que nul ne sache ce qu'est la guerre.
Aujourd'hui, seulement aujourd'hui, en finir avec la faim
Qui loge dans les yeux de la plus petite fillette
Au compte de la pauvreté qui consome.
Un jour en paix, Seigneur, puisse être approchée
L'urgence de cette pause de douleur
Au nom de l'amour nouveau venu.
Do original de Neuza Zanirato "Um dia de Paz",
Traduzido por Jean-Paul Mestas em JALONS no. 86,
Cahiers de Poésie Jalons;Vichy 4o.tri.2006
(45770 Paris ISSN: 0184-8100)
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ÂNGELA ZANIRATO
ESCOLHA
Sou a cria do criador
Sou animal mineral vegetal
Molho seco cresço alimento
Queimo perfumo floresço
Abasteço
Branda feroz
Lenta veloz
Sigo
Sou elo
Sou belo sou bela
Feminino masculino
Sou a coerência na contradição
Sou a mão
Solidão amplidão
Sou céu
Luz
Não me vês, mas me sentes
Sou trilha partilha
Sou filha
Seu filho
Sou mãe
Seu pai
Homogeneidade
Heterogeneidade
Se me permitires sou ( por me sentir)
A tradução da natureza.
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SUGESTÃO LITERÁRIA
MARICELL ZANIRATO
SENHORA DAS TEMPESTADES
MANUEL ALEGRE
Senhora das tempestades e dos mistérios originais
quando tu chegas a terra treme do lado esquerdo
trazes o terremoto a assombração as conjunções fatais
e as vozes negras da noite Senhora do meu espanto e do meu medo.
Senhora das marés vivas e das praias batidas pelo vento
há uma lua do avesso quando chegas
crepúsculos carregados de presságios e o lamento
dos que morrem nos naufrágios Senhora das vozes negras.
Senhora do vento norte com teu manto de sal e espuma
nasce uma estrela cadente de chegares
e há um poema escrito em páginas nenhuma
quando caminhas sobre as águas Senhora dos sete mares.
Conjugação de fogo e luz e no entanto eclipse
trazes a linha magnética da minha vida Senhora da minha morte
teu nome escreve-se na areia e é uma palavra que só Deus disse
quando tu chegas começa a música Senhora do vento norte.
Escreverei para ti o poema mais triste
Senhora dos cabelos de alga onde se escondem as divindades
quando me tocas há um país que não existe
e um anjo poisa-me nos ombros Senhora das Tempestades.
Senhora do sol do sul com que me cegas
a terra toda treme nos meus músculos
consonância dissonância Senhora das vozes negras
coroada de todos os crepúsculos.
Senhora da vida que passa e do sentido trágico
do rio das vogais Senhora da litúrgica
sibilação das consoantes com seu absurdo mágico
de que não fica senão a breve música.
Senhora do poema e da oculta fórmula da escrita
alquimia de sons Senhora do vento norte
que trazes a palavra nunca dita
Senhora da minha vida Senhora da minha morte.
Senhora dos pés de cabra e dos parágrafos proibidos
que te disfarças de metáfora e de soprar marítimo
Senhora que me dóis em todos os sentidos
como um ritmo só ritmo como um ritmo.
Batem as sílabas da noite na oclusão das coronárias
Senhora da circulação que mata e ressuscita
trazes o mar a chuva as procelárias
batem as sílabas da noite e és tu a voz que dita.
Batem os sons os signos os sinais
trazes a festa e a despedida Senhora dos instantes
fica o sentido trágico do rio das vogais
o mágico passar das consoantes.
Senhora nua deitada sobre o branco
com tua rosa dos ventos e teu cruzeiro do sul
nascem faunos com tridentes no teu flanco
Senhora de branco deitada no azul.
Senhora das águas transbordantes no cais de súbito vazio
Senhora dos navegantes com teu astrolábio e tua errância
teu rosto de sereia à proa de um navio
tudo em ti é partida tudo em ti é distância.
Senhora da hora solitária do entardecer
ninguém sabe se chegas como graça ou como estigma
onde tu moras começa o acontecer
tudo em ti é surpresa Senhora do grande enigma.
Tudo em ti é perder Senhora quantas vezes
Setembro te levou para as metrópoles excessivas
batem as sílabas do tempo no rolar dos meses
tudo em ti é retorno Senhora das marés vivas.
Senhora do vento com teu cavalo cor de acaso
tua ternura e teu chicote sobre a tristeza e a agonia
galopas no meu sangue com teu catéter chamado Pégaso
e vais de vaso em vaso Senhora da arritmia.
Tudo em ti é magia e tensão extrema
Senhora dos teoremas e dos relâmpagos marinhos
batem as sílabas da noite no coração do poema
Senhora das tempestades e dos líquidos caminhos.
Tudo em ti é milagre Senhora da energia
quando tu chegas a terra treme e dançam as divindades
batem as sílabas da noite e tudo é uma alquimia
ao som do nome que só Deus sabe Senhora das tempestades.
De:Revista de Letras e Culturas Lusófonas, número 2, julho/setembro
1998.
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