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'...Macaé, ano II, Nº 54 - 9 a 16 de fevereiro de 2007
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Precisamos salvar Macaé da criminalidade

Caros senhores e senhoras.

Me utilizo desta nota de desabafo pessoal, mesmo sabendo que estou
by-passando a hierarquia, porque além dos meus 29 anos de empresa e 24 anos
morando em Macaé conheço quase todos vocês e a maioria mora ou já morou em
Macaé. Precisamos atuar rapidamente se ainda quisermos salvar Macaé de um
caos total pelo aumento dos casos de criminalidade na cidade. Gosto de
Macaé, tenho um filho macaense, minha esposa é macaense mas do jeito que
está serei obrigado a sair da cidade por falta de condições mínimas de
segurança.

No dia 23 de janeiro, às 21 horas e 15 minutos recebí uma ligação da minha
filha dizendo que meu filho de 20 anos, que é professor de inglês e precisa
se deslocar de ônibus da cidade para sua casa neste horário noturno, havia
sido roubado dentro do ônibus e os quatro ladrões tinham levado vários
pertences seus e lhe tinham ameaçado com algo que parecia ser um revólver.

Fui dar queixa na delegacia de Macaé e já estava conformado com a perda
quando tive a idéia de tentar achar os ladrões próximos do local onde
tinham descido do ônibus, na linha vermelha, em frente ao parque da cidade.
Comecei a procurar, levando o meu filho para identificá-los e qual não foi
minha surpresa quando os encontrei no terminal central da cidade (próximo
da rodoviária), tranquilamente dividindo o produto do roubo e aguardando
para fazer outro "ganho" como eles falam na gíria.

Poucas pessoas se arriscariam a ir abordá-los sozinho (não havia nenhum
policial no terminal naquela hora) e mesmo com a policia junto havia a
hipótese deles estarem armados. Me dirigi então a delegacia de Macaé e o
atendente chamou a polícia militar. Fomos de volta ao local e conseguimos
prender todos os ladrões levando-os para a delegacia.

Não sei se fiz certo ou errado, cumpri o meu dever de cidadão, mas não sei
o que poderá advir disso pois sei que estes rapazes, que estavam assaltando
tranquilamente é quase certo que sairão em pouco tempo da cadeia graças a
nossa justiça protetora de bandidos e voltarão a fazer a mesma coisa
representando um risco potencial constante de represálias para mim e para
meu filho.

Esta é a situação típica do dia a dia de Macaé. Ao apresentar minha queixa,
já havia outro petroleiro dando queixa de furto a sua residência. Na semana
passada a casa de uma colega (Michele) na Imbetiba  foi invadida por
bandidos que mantiveram ela e sua família cativos limpando a casa e
ameaçando de morte a todos (pai e mãe idosos e irmãos). A casa ficava a um
quarteirão da delegacia de polícia na Imbetiba. Meu filho já foi assaltado
anteriormente duas vezes além desta. Na primeira os bandidos o ameaçaram
com uma faca na garganta em frente ao Shopping Macaé, por volta de 12:00
horas e levaram seu celular. Minha filha, de 26 anos, já tinha sido furtada
em seu celular a 15 dias atrás dentro de um ônibus. Minha filha também foi
sequestrada em Macaé (foi o primeiro caso de sequestro em Macaé) quando
tinha 12 anos e este crime mudou minha vida; até hoje ela sofre sequelas
(crises de síndrome do pânico) e encontra-se atualmente em tratamento
psicológico. Eu mesmo já tive o meu carro arrombado nos Cavaleiros e perdi
meu toca-cd. No mesmo dia do ocorrido com meu filho, um caminhoneiro foi
baleado ao tentar resistir ao sequestro de um comerciante. O comerciante
foi levado pelos bandidos mas graças a pronta intervenção da polícia
militar (falarei dela mais a frente), foi recuperado ileso.

A Av. Rui Barbosa está um caos, bandidos assaltam à luz do dia pessoas
indefesas, mulheres, idosos e adolescentes. Comerciantes são assaltados
rotineiramente em toda a cidade. A coisa não é divulgada porque as pessoas
têm medo de represálias ou acham que os órgãos competentes não resolverão
nada. Fazem a ocorrência (uma exceção) apenas por uma questão de receber um
seguro ou coisa que o valha. O jornal da cidade divulga notícias parciais
talvez para não fazer propaganda negativa da prefeitura, já que recebe
muito dinheiro dela. Aqui não se pergunta mais se alguém já foi assaltado
mas quantas vezes isso já ocorreu. A padaria próxima da minha casa, no
Bairro da Glória foi assaltada por dois elementos armados a menos de um
mês, o dono veio do Espírito Santo para se estabelecer em Macaé e já faz
planos para ir embora. Pessoas são assaltadas na saída dos bancos. Vários
sequestros relâmpagos já ocorreram e continuarão a ocorrer (colegas nossos
já foram alvo dessa modalidade de crime aqui). O crime organizado se
instalou na cidade, o tráfico de drogas virou rotina. Alguns bairros são
totalmente dominados pelos traficantes (Malvinas, Botafogo, Fronteira,
Engenho da Praia, Ajuda), para entrar neles é preciso pedir autorização aos
bandidos. Outro dia, durante uma aula de direito da UFF (sou estudante do
último período), sentimos forte cheiro de maconha na sala - a escola onde
estamos tendo as aulas é estadual e localizada no bairro Visconde de Araújo
- verificamos depois tratar-se de três garotos com menos de 15 anos que
fumavam tranquilamente no pátio da escola.

Temos casos recentes do assassinato do Hely Tavares, conhecido corretor de
imóveis da cidade, sequestrado e morto há poucos meses atrás, do
assassinato do secretário de transportes de Macaé por dois homens
encapuzados armados de fuzis AR-15 (dizem que foi crime político
encomendado).

Vários e conhecidos matadores de aluguel agem na cidade atacando de moto
sem deixar rastros.

Existe um assaltante bem vestido e armado que ataca as vítimas (mulheres)
para roubar a bolsa machucando quem não coopera. Uma vizinha já foi vítima
desta modalidade de assalto entre várias outras.

No domingo tivemos um tiroteio em Cavaleiros, local onde moram meus filhos,
na frente de um bar muito freqüentado da orla (Picanha do Zé). Vários
colegas nossos estavam na praia brincando com seus filhos e poderiam ter
sido atingidos pelas balas perdidas.

Nosso colega Igreja teve sua casa furtada por vários elementos que fizeram
uma limpa no prédio onde morava (já se mudou com medo de novas
ocorrências).

Nossa colega Laura, moradora da Imbetiba (bairro muito visado para assaltos
a residências e onde se localiza a delegacia de Macaé) teve a garagem de
sua casa arrombada, onde vários carros foram danificados em busca de
aparelhos de reprodução de cds. No mesmo prédio dela mora também o
Virmondes que vocês conhecem.

Praticamente todos os dias pessoas mortas são encontradas nas ruas, na
guerra silenciosa dos traficantes de drogas. Na semana passada minha filha
viu um cadáver estirado com vários tiros pelo corpo e ficou traumatizada
com a violência.

O objetivo desta nota é alertá-los e pedir ajuda. Alertá-los porque estes
fatos são desmotivadores para quem já mora na cidade, que fatalmente
buscarão sair daqui para locais menos violentos, e para os novos empregados
pois Macaé passará a não ser atrativa para morar e precisamos cada vez mais
de novos empregados para revitalizar nosso trabalho. Além de ser uma cidade
caríssima (aliás sempre foi) se tornou uma cidade mais perigosa do que o
Rio e São Paulo, guardadas as devidas proporções, e com dois agravantes
sérios: o não aparelhamento das polícias civil e militar e o descaso das
autoridades em todos os níveis. Segundo relato do policial civil que me
atendeu na ocorrência do meu filho e que já trabalhou em Nova Iguaçú, a
delegacia de lá é muito mais tranquila do que a de Macaé e com a vantagem
de ser uma delegacia moderna e conectada em rede.

Enquanto aguardava ser liberado da delegacia conversei com vários policiais
obtendo deles preciosas informações as quais repasso para vocês.

Quero inicialmente fazer um elogio de público a atuação destes policiais no
meu caso em particular. Todos, sem exceção, civis e militares tiveram um
comportamento profissional exemplar. Em nenhum momento eu e meu filho nos
sentimos constrangidos ou desconfiados da atuação destes policiais. O
relato crítico que farei não se refere às pessoas mas aos parcos recursos
de que dispõem para nos defender.

1) Polícia Militar: atendeu prontamente nosso pedido de ir até o Terminal
Central e graças a esta velocidade conseguimos prender os ladrões. Acho que
eles não imaginavam que alguém iria conseguir localizá-los tão rápido (uma
hora depois) pois estavam tranquilamente esperando outros ônibus para
atacar outras vítimas. Outros elementos também agiam no terminal e foi uma
corrida geral, alguns portando drogas.

Os policiais militares mostraram os automóveis que utilizam para perseguir
os bandidos perigosos (inclusive os do sequestro daquele dia, que citei
anteriormente). Todos estão em estado deplorável de manutenção, cheios de
buracos de balas. Não há condição mínima de cobrir toda a cidade de Macaé
com estes carros, estão muito ruins e são muito poucos para tal, além disso
tenho dúvidas quanto ao efetivo e os demais recursos de informática e
comunicação necessários (não fui ao quartel para ver mas pode ser
facilmente levantado).

2) Polícia Civil: os policiais são bons e experientes e foram escolhidos a
dedo para trabalhar em Macaé. A delegacia está em condições miseráveis, o
prédio está cheio de goteiras, os poucos computadores são velhos, vários
com defeito (sem dinheiro para manutenção), e não estão conectados em rede,
os policiais dependem de ajuda de várias pessoas para conseguir trabalhar,
inclusive da PETROBRAS, que fornece alguns materiais administrativos (papel
de impressora, e outros). Para viajar dependem da macaense que fornece as
passagens, para comer dependem de um macaense que tem um restaurante e
fornece a alimentação, para a estadia dependem de outro macaense que possui
uma pensão, até para fazer um carimbo foi necessário que o dono de uma
loja, em agradecimento, confeccionasse o carimbo.

Parece incrível, mas é isso, os policiais, além de mau pagos e arriscando a
vida diariamente ainda não contam com os recursos mínimos necessários para
executar o seu trabalho.

Bom, até aqui só falei dos problemas, vou dar algumas sugestões também e
vocês podem ajudar muito com o seu poder de influência:

Levar ao conhecimento das autoridades federais, municipais e estaduais o
que vem acontecendo em Macaé e que chega atenuado ao ouvido da sociedade.
Temos que reaparelhar as polícias, temos que reformar ou construir uma
delegacia moderna em Macaé, onde se combata o crime com inteligência, com
informação, com comunicação rápida, com recursos suficientes para atender
rapidamente as ocorrências. A logística do atendimento é fundamental.

Colocar restrições a atuação dos meliantes para que eles se sintam cada vez
mais desconfortáveis em agir impunemente é um passo inicial importante.
Para construir uma delegacia moderna os recursos necessários estão na ordem
de R$ 1.500.000,00. Aquele monumento inútil da entrada de Macaé, sem
nenhuma finalidade de interesse público, construído para enaltecer um
político macaense cujo nome começa com S (é  o que se vê do alto quando se
olha o monumento, quem será?), custou a bagatela de R$ 3.000.000,00, ou
seja, duas delegacias poderiam ter sido construídas com este dinheiro gasto
inutilmente. Porque a prefeitura e o Estado não modernizam as polícias?
Porque a guarda municipal de Macaé não esquece um pouco a sua finalidade
principal que é cobrar multas e aumentar a arrecadação e começa a trabalhar
na proteção ostensiva dos cidadãos, ocupando os terminais de ônibus
totalmente entregues aos meliantes? Porque não se instalam câmeras de TV em
pontos estratégicos da cidade, inclusive os terminais, praças, Av. Rua
Barbosa, e se identificam os meliantes que atuam nestes locais? Porque não
se usam detetores de metais nos terminais e na rodoviária para coibir o uso
de armas? Porque a polícia não dá incertas e para os ônibus nos trechos
mais visados pelos assaltantes fazendo revista geral e identificando os
meliantes contumazes? Será que é tão difícil assim fazer isso?

Lógicamente existem ações de curto, médio e longo prazo. É necessário
investir e nós cidadãos também podemos ajudar se a PETROBRAS não quiser
(poder ela pode, tem dinheiro). Eu me proponho a doar uma parte do me
salário para resolver este problema, não quero que ninguém da minha família
continue a correr os riscos que corre hoje. Garanto que se os demais
empregados forem instados a ajudar todos ajudarão pois esta situação afeta
a todos. Pagamos muito para seguranças particulares e nos esquecemos de
equipar a nossa própria polícia.

Precisamos cobrar dos governos federal, estadual e municipal a aplicação
correta do nosso dinheiro. Chega de monumentos inúteis, queremos segurança,
queremos educação, queremos oportunidades para estes jovens que não têm
como se empregar e partem para a marginalidade como meio de sobrevivência,
queremos o combate ao tráfico de drogas em Macaé com o reforço das polícias
e se possível, a instalação da força federal em Macaé, cidade que se tornou
visada pelo tráfico pelo alto padrão de vida, pela impunidade gerada pelo
medo dos cidadãos de intervir, pela fragilidade do sistema repressivo, e
pela dificuldade dos traficantes de atuar nos grandes centros devido a
maior repressão.

Queremos que o exército saia dos quartéis deixando de fazer tarefas
meramente burocráticas e sem valor para a sociedade e venha ajudar no
combate ao crime. Ocupe posições nas áreas de maior risco, diminua a
sensação de impunidade dos criminosos.

Queremos um trabalho social forte nos bairros mais frágeis, junto aos pais
dos adolescentes delinquentes. Queremos opções de lazer orientados nestes
bairros e estudante durante todo o dia na escola, com boa alimentação e
atividades que os tirem das drogas e da marginalidade.

A polícia precisa atuar ostensivamente e em grupos grandes, a exemplo do
policiamento no carnaval da Bahia que foi tirado das decúrias romanas. Não
adianta combater o crime de gangs com poucos policiais, eles estarão
numericamente em desvantagem. Para combater gangs a estrutura tem que se
adequar a este tipo de situação.

Portanto o que peço é que saiamos da inércia e passemos a nos preocupar
seriamente com este problema que nos afeta no dia a dia. Por favor não
menosprezem o que digo nesta nota, a situação é gravissima.

Precisamos salvar Macaé da criminalidade.

Aguardarei notícias rápidas de vocês. Caso não haja resposta pretendo agir,
mesmo que sozinho, divulgando esta e outras notas junto ao corpo de
empregados da PETROBRAS, a imprensa (jornais, revistas, televisão,
internet) e aos políticos que realmente queiram resolver o problema.

Estou à disposição para ajudar.

Sds.

Antonio Goes Camelier de Souza - M.Sc.
Mestre em Logística - UFSC
Engenheiro Mecânico - UFBA
Bacharel em Administração - UFF
Bacharelando em Direito - UFF
Engenheiro de Equipamentos Senior
Petrobras - E&P-SERV/US-SUB/ANC
Supervisor da Atividade de Ancoragem
e-mail: camelier@petrobras.com.br
Tel.: (22) 2761-4270
Fax.: (22) 2761-7210
Cel.: (22) 9967-8369


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