O CONCEITO DE MESTRE NAS ARTES MARCIAS
O conceito de mestre se perdeu no tempo. Atualmente, o que mais vemos são mestres ausentes nas salas de aulas e que passam muito pouco seus conhecimentos, além de muitas vezes não terem satisfação em lecionar. Muitos se cansaram, seja por falta de motivação, ou por falta de treino, o que acarreta no esquecimento das técnicas aprendidas. Por muitas vezes, não sabem muito, ou por motivo de serem descendentes de pais famosos ou por que aprenderam muito pouco. Estes vivem sob o manto do “eu sei”, “eu sou oriental”. A verdade é que a grande maioria vive e se esconde atrás deste título e nutre o espírito com a cobiça por dinheiro ou pela fama.
Tempos atrás, era diferente: os mestres escolhiam os seus discípulos. Existiam aqueles que cobravam e os que não cobravam, mas permanecia à vontade na escolha do pupilo. Hoje qualquer um pode ser discípulo, por um lado é bom, mas por outro não, pois muitos se prevalecem de técnicas marciais para usá-las de modo inadequado, ou melhor, de modo infiel e descredibilizado sob os princípios morais das Artes Marciais.
Ser mestre ou ser professor tem o mesmo valor, o que a sociedade precisa entender é o conceito sobre a qualificação do ensino prestado por cada um. Na atual conjuntura, sabemos que para atingir um grau de mestre o interessado precisa passar por vários exames, muitos deles caríssimos que podem chegar, dependendo da arte marcial, até 6.000 reais. Sabemos também que, por motivo do grande investimento e pela falta de emissões de notas fiscais, não existe nenhum caso de reprovação. Portanto, para ser mestre, basicamente só precisa ter uma boa condição social e comprar o título.
É muito fácil se passar por mestre oriental, só precisa ter olhos puxados. A cultura nacional brasileira está muito mal acostumada e pouco informada por achar que estes são os verdadeiros e melhores mestres.
Comparando o termo mestre e professor dentro das artes marciais, podemos analisar desta forma: mestre é aquele que domina e professor aquele que ensina.
Não muito distante, vemos muitos “mestres” fumando, bebendo, se alimentando de maneira irregular, agindo e falando contra a moral e os bons costumes, praticando falcatruas etc.
O verdadeiro mestre precisa dar atenção, ter equilíbrio, estar presente com sua integridade e com a de terceiros. Ter compaixão e sinceridade em dizer que não conhece ou não domina tais conhecimentos quando perguntado por algum aluno.
Ser mestre significa ter domínio dos conhecimentos da vida, conhecer e estar em comunhão de forma profunda com as teorias do Yin Yang , do Chi e do Tao . Deve demonstrar sabedoria em suas palavras e ações, sempre mostrando soluções e apontando diversos caminhos, sem interferir no caminho escolhido do seu neófito. O interesse oculto do mestre é fazer com que seus seguidores não o sigam, mas que criem e desenvolvam sua própria autonomia e atinjam a sua iluminação. Esta iluminação é imensurável, não podendo ser descrita ou determinada. Sua realidade é comparada ao Tao . “Quando se define o Tao , ele deixa de ser o Tao ...”. Da mesma forma é a iluminação, quando se pensa: “Estou iluminado”, “Alcancei a iluminação”, esta se vai.
Quando fechamos nosso pensamento em “eu sou” (“sou professor, sou mestre, sou faixa preta, sou campeão mundial”), abrimos uma porta para a vaidade, a qual nos dá uma falsa realidade de que estamos preparados e uma porta seguinte para o “eu sou o melhor!”. Entre o final e o início, em um intervalo de tempo, realmente seremos. Contudo, se aplicarmos a teoria do Yin e do Yang , observamos que não seremos por completo, pois o Yin contém parte do Yang e o Yang contém parte do Yin , sendo assim, dentro do “eu sou” existe o “não sou”. O mestre deve orientar seus discípulos a tomarem cuidado com a vaidade e com o empobrecimento da alma, porém não é o que acontece.
O mestre sabe ser justo, distinguir coisas e fatos, ao mesmo tempo em que percebe que as partes fazem parte do todo, enaltece a harmonia interior e exterior de todos ao seu redor. Não chega a ser um homem santo, apenas uma pessoa equilibrada que domina o que conhece, busca a sua evolução marcial e espiritual, além de ser centrado e buscar preservar a harmonia por onde passa.
É através da arte marcial que viabiliza seus conhecimentos herdados, aprimorados, descobertos e teóricos para os seus alunos.
Também não é de seu interesse dizer que sua arte é melhor e que suas verdades são as máximas, salvo as teorias milenares. Sabe e tem consciência que o sofrimento não é totalmente ruim e que o termo maldade por muitas vezes é mal interpretado. Deve estar, pelo menos, próximo à periferia da iluminação.
Paracelso dizia que para ser reconhecido como médico precisa de diploma, mas este não se faz médico, somente Deus tem a capacidade de fazer um médico. Da mesma forma se transcreve o mestre. Ser mestre é puramente um dom!
Ms. Roberto Cardia
www.taochido.com
robertocardia@ig.com.br
fevereiro de 2007
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