Jornalistas - os legítimos tomadores de café
Por: Marcos Souza (¹)
Somos todos tomadores de café. Todo jornalista é um desgraçado tomador de café, se não fuma, se não bebe, se não cheira, se não introjeta, não tem jeito, tá tomando o seu cafezinho, o seu tanto de cafeína pra agüentar o tranco dos dias chatos e movimentados de uma cidade decidida a renascer das cinzas. Não é praxe, é necessidade psico-fisiológica.
A necessidade vital é enganadora, mas o querer do vício parece ser consagradora aos profissionais de miolo duro. A cafeína permite mazelas e benefícios, e os mais evidentes e rasteiros benefícios são: o estar sempre alerta, desperto, atento, com os neurônios em ebulição permanente, captando, analisando, num estado de euforia controlado o ambiente em sua volta - pra cobertura de pauta funciona que é uma beleza, mas para "ratos" de redação é redentor, uma maravilha, com uma garrafa cheia, trocada a cada 45 minutos pela servente.
O estado de espírito pode até não permitir inspiração pra escrever ou colocar o seu olho clínico ( jornalístico ) nos fatos com a veracidade necessária, dependendo dos problemas pessoais e financeiros de cada um, mas nada que um pouco de café - e olha que tem nego que engole até o pó - não resolva, na hora o profissionalismo aparece. Ô beleza!
Sorvido em goles generosos, em copinhos descartáveis, em xícaras de porcelana indiana, ou em invólucros de barro queimado, o "santo" café é uma bênção para os jornalistas.
Oras, a maioria das pessoas toma o seu café diariamente - inclusive nós, jornalistas- e não sabe que substância contém, pensa que apenas a cafeína está em seu composto, o que é um ledo engano. Abordando um professor de química, amigo meu, que por vezes se mete a jornalista - escreve pra caramba! - e adora uma xícarazinha de café, ele esclareceu que o café possui apenas de 1 a 2,5% de cafeína e aglutina em sua composição outras substâncias em maior quantidade.
Entre os compostos que integram o café encontram-se diversos minerais, como potássio, magnésio, cálcio, sódio, ferro, manganês, rubídio, etc. Além de amioácidos, como alanina, arginina, prolina, glicina, e outros tantos de "ina", fora os lipídeos, açúcares e até vitaminas do complexo B, como a niacina ( vitamina B3 ou vitamina PP de "Pelagra Preventing", do inglês ), agora o mais interessante que torna o produto totalmente compatível com a profissão de jornalista - a um passo do stress absoluto, na busca do "tesão" vitamínico para sarrafear o teclado com textos e mais textos - são os ácidos clorogênicos, na proporção de 7 a 10%, isto é, 3 a 5 vezes mais que cafeína e aí vem o "pulo do gato", após a torra, esses ácidos formam diversos quinídeos que possuem efeito farmacológicos que aliviam a "dor" anestésica do jornalista no seu dia-a-dia - como já especifiquei melhor no segundo parágrafo desse texto ( vai lá e dá outra lida ), por exemplo: o aumento da captação de glicose, ação antagonista opióide ( efeito anti-alcoolismo - ei, não é pra rir, faz efeito nos menos suscetíveis a uma cerva - é sério! ) e inibidora de recaptação de adenosina, traduzindo: efeito benefício na microcirculação sanguínea, ou seja, te deixa em estado de euforia, desperto a captar com mais sensibilidade o que se passa em sua volta, isso, proporcionalmente escrevendo significa que sua pauta pode ser cumprida de melhor forma. Simples assim.
E dizer que café é bebida de maníaco-depressivo - como já ouvi algumas vezes - é exagero. Os benefícios ( ainda que pareçam rasteiros ) são maiores que os malefícios, só não pode exagerar, e que eu não seja condenado por expor um pleonasmo mas... Não pode exagerar muito. Ai! É feio, mas não ligue é o efeito do cafezinho.
Afinal todo jornalista é um legítimo tomador de café. Me diga se estou errado!
CULT
"Elephant" é a narrativa de uma tragédia sob o ponto de vista de estudantes
Por: Marcos Souza (¹)
O cinema tem magia que o tempo explica, mas de imediato o espectador, resoluto, pensativo em sua cadeira, dentro da escura sala de cinema, pode almejar inflexões críticas esparsas que vão de imediato, com um ato de reflexo, sobre aquilo que acabou de assistir. Por vezes cria-se uma fenda de incógnita.
Um filme é que capaz de mudar o pensamento ou mesmo conceito sobre a vida? Seria muita pretensão, não? Cinema é motivo de escape da vida real, é diversão. Mas o cinema existe também como um transformador sensorial do nosso cotidiano, buscando através da diversão causar comoção no pensamento. Fato raro, mas existem filmes que provocam esse tipo de retomada pretensiosa, e que, pasme, causa seus efeitos.
Isso ocorreu duas vezes comigo nos últimos anos, na primeira quando assisti "Beleza Americana", de Sam Mendes, e outra quando fui assistir "Elephant".
Fiquei estupefado com a minha reação quando assisti "Elephant", do diretor Gus Van Sant - responsável por obras-primas como "Drugstores Cowboy" e lixos como a refilmagem de "Psicose" -. Não esperava grande coisa, mesmo para um filme que havia ganho a Palma de Ouro em Cannes em 2004, infelizmente Cannes deixou de ser há muito tempo um templo de referência de filmes brilhantes, como assim o foi há um longínquo tempo.
Pois é, "Elephant", é um filme de retratação livre do que foi o "Massacre de Columbine", quando no Condado de Jefferson, no Estado do Colorado, Estados Unidos, no dia 20 de abril de 1999, dois estudantes, Eric Harris, de 18 anos, e Dylan Klebold, de 17 anos, atiraram em vários colegas e professores da Columbine High School.
O fato foi um dos grandes momentos de comoção na TV norte-americana e gerou um filme-documentário brilhante, "Tiros em Columbine", do polêmico cineasta Michael Moore, premiado com o Oscar de melhor documentário em 2002.
O filme de Gus Van Sant é um primor de narrativa visual, com poucos diálogos, e mostrando sob vários ângulos o que foi um dia normal dentro de uma escola, quebrado na sua rotina quotidiana quando dois estudantes resolvem, sem mais nem menos, seguir meticulosamente uma ação ofensiva contra o local que estudam utilizando armas militares.
Sant realiza um filme perturbador, fadado a várias interpretações psicológicas e capaz de provocar náuseas ao aprofundarmos questões que parecem tão banais, mas que ganham uma dimensão reflexiva profunda sobre atitudes dos jovens.
Nos sorrisos pueris, na vestimenta pop moderna, nas relações de amizades e de confraternização estudantil, como um dia qualquer de escola. Mas há uma intimidade desolada, quase profana quando o diretor mostra o retrato de dois adolescentes, aparentemente normais e que pelo simples prazer, com certeza imersos na psicopatia velada de ambos, resolvem tomar uma atitude drástica em relação a escola que estudam.
O interessante desse processo de narrativa adotada por Sant é não aprofundar muito os personagens e não deixar tão explícito o que levou aqueles jovens a cometer tal barbáries, assusta o fato dele humanizar os jovens. Um deles, o cérebro das ações, é até sofisticado, nota-se que é rico, pois encomenda um fuzil via Internet, toca Mozart no piano com uma desenvoltura impressionante.
O roteiro ( que é também assinado por Van Sant ) tem o cuidado de fugir explicitamente do esterótipo maculado nos verdadeiros jovens assassino de Columbine, que eram góticos ( utilizam longas capas pretas ), ouviam Marilyn Mason, acessavam sites de cunho fascistas.
O detalhe que chama mais a atenção é que tudo é contemplativo, como um registro, por vezes difícil de explicar, com pontos de vistas das mesmas seqüências assistidas anteriormente, e aí brilha a chama do diretor. Pois ele transforma uma seqüência vista anteriormente sob um ponto de vista por um grupo de personagens em outra que vivenciada por um personagem isolado. Tem o garoto louro que alerta o pai e chama atenção para o que está acontecendo dentro da escola; tem um estudante que é fotógrafo da escola; tem um casal; a moça feia que ajuda na biblioteca.
A dinâmica é incrível, pois quando os dois jovens iniciam o massacre na escola, diferentes pontos de vistas podem ser deslumbrados como clímaxes.
É um filme diferenciado e que exige uma respiração pausada, mas que vai ganhando uma dimensão inesperada, e quando tudo pode parecer contemplativo as imagens ressurgem com uma força de impacto impressionante. É uma sinfonia de sensações desconcertantes, que busca induzir o espectador a um funil previsível, mas impossível ficar passível diante da força das imagens.
É filme "velho", já circulou nos canais pagos, mas pode ser conferido em DVD. Se não assistiu, assista, vale a pena reunir os amigos em frente a TV e assisti-lo, a experiência é, no mínimo, perturbadora.
Sim, quanto ao título "Elephant", não existe explicação lógica para isso, nem o diretor, quando entrevistado em Cannes, soube explicar a coerência do título com a história apresentada, mas talvez seja aquela incomum necessidade de provocar o espectador com algo que ele fique horas pensando e não leve a lugar algum.
(¹) - MARCOS SOUZA - É jornalista, bacharel em comunicação social pela FARO, em Rondônia. Trabalhou como repórter e editor do Caderno 2 (Cultura) do jornal Alto Madeira, no período de 1996 às 2000. Nascido em Ipauçu (SP), tem 38 anos, escreve críticas de cinema e artigos sobre Cultura Pop - quadrinhos, música, séries de TV, arte e literatura. Atualmente é o editor-chefe do site de notícias www.rondoniaovivo.com .
E-mail p/ contatos: marcosunico@gmail.com ou marcos35anos@hotmail.com
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