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A TIMIDEZ
Marcelino Rodriguez*
Muito já se falou sobre a timidez, mas creio que erradamente e arrisco-me
a dizer que muito poucos sabem o essencial do assunto. Vou dar meu testemunho
de tímido assumido e nem um pouco incomodado.
Em primeiro lugar, a timidez esconde tanto um pudor quanto um orgulho. Há
coisas que envergonham ao tímido, que se for de boa safra, não suporta demonstrações
esfuziantes de sentimento às vistas dos outros nem de que exponham sua privacidade,
assim como respeita a privacidade alheia. Para o tímido o amor é íntimo e
fim de papo. Ele, o tímido, tem o dom da delicadeza e um orgulho imenso de
viver no seu território de calma nervosa. Não é fácil tocá-lo, porque ele
se esconde dentro da pele. E exatamente nisso que está dentro da pele é que
o tímido não quer que toquem, sacaram?
O tímido sente vergonha pelos outros.
Possui antes estratégia que agressividade.
Intuição que racionalidade.
O tímido fala manso e é desconfiado de que podem pensar mal dele, e tem medo
de acusar o erro dos outros.
Ele quer sempre exalar que perto dele tudo está tranqüilo e todos podem sossegar
abaixo da sombra da sua simplicidade e acolhimento. O tímido é humilde porque
sabe que é humano. Sabe das suas limitações, muito maiores que suas forças.
Ele tem verdadeiro pavor de incomodar ou de chamar atenção para o seu lado.
E muitas vezes quando fala, fala da boca pra fora, pois essencialmente ele
só sai da sua pele para um lugar muito, mais muito aconchegante.
O tímido procura ver a causa e não o efeito.
Não compreende nada que não seja essencialmente sensível ou humano.
Sofre mais que os outros, porque não é indiferente e tem senso comunitário.
O tímido fica envergonhado de seus próprios tesouros.
Jamais posaria nu.
Finge não ver o interesse predador nos olhos das pessoas.
No amor é cortês, discretamente galante e serviçal.
Tem pavor de badalações, aglomeração, exibicionismo.
O tímido sofre de um imperativo categórico que o faz praticar a mais antiga
das religiões: a de ser natural.
Como vêem, o tímido seleciona para não se perder no meio do barulho.
O seu silêncio não é omisso.
Ele age enquanto falam.
Suas segundas intenções são as primeiras.
O tímido, na sua santa humanidade, quer apenas uma coisa: que o deixem em
paz.
6/2000.
Publicado no livro A ILHA
* Marcelino Rodriguez: Escritor hispano-brasileiro, autor de "O Observador de Pardais", 1996; "O Espião de Jesus Cristo", 1999; "Juvenília", 2000; "A Ilha", 2001; "Café Brasil",
2001; "Boneco de Deus", 2002; " Mar Romântico, Mar", 2002; " Bom Dia, Espanha!",
2005. Prêmio Pérgula Literária Internacional, Medalha Ação Cultural e Troféu
Dez Mais Taba Cultural Editora. Em 2004 o autor viveu em Córdoba, Argentina
entre Janeiro e Março. Em maio de 2005 sai Bom Dia, Espanha! livro que relata
essa experiência.
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