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'...Macaé, ano I, Nº 51 - 19 a 26 de janeiro de 2007
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CURRÍCULO DE BRASILEIRO SOBREVIVENTE

Os currículos dos nascidos na minha geração, sem heranças de brasões, participação em generosos feudos, e deserdados pela pátria foram formados no dia a dia da nossa existência, comendo o pão que o diabo amassou, quando havia, fugindo da covardia dos opressores, quando possível, buscando coragem para enfrentar os medos, encontrando forças para levantar das quedas inevitáveis, não fugindo aos desafios da sobrevivência.

Ironicamente, Lula é um dos maiores exemplos dos sobreviventes da minha geração. Nordestino fugitivo, semi-analfabeto, profissional prático, um deserdado premiado pela sua obstinação com a presidência da República. Infelizmente, também um traidor dos seus iguais.

Sendo suficiente, vamos ao que interessa:

Nome: Paulo Roberto Carneiro

Filiação: Paulo Carneiro (filho de rica e abastada família paulista que impediu o casamento) e Joaquina de Alencar (filha legítima de índios da Bahia)

Órfão de pai aos seis meses de idade

Formação Escolar: O antigo curso primário (8 anos), no Colégio Popular de São Bento (RJ), religioso, o mais conceituado entre os estabelecimentos eclesiásticos do país. O colégio era mantido pelas caridosas doações dos pais milionários dos alunos regulares como forma de pagamento da remissão de pecados, prática repudiada por Martinho Lutero, dissidente da Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana.

Curso Ginasial no colégio Pio Americano (RJ), cujos alunos em 1954 lideraram a revolta estudantil contra o até hoje não esclarecido suicídio de Getulio Vargas.

Militante da JTB - Juventude Trabalhista Brasileira aos 14

Integrante do comando da 1ª greve dos securitários

Participante do movimento pelo voto nulo

Na época da morte de Vargas, pela primeira vez pude conhecer a desumanidade dos governos de exceção. Preso pela Polícia do Exército com centenas de estudantes, trabalhadores, homens, mulheres crianças, fui levado primeiramente ao Antiaéreo 40, unidade militar localizada em São Cristóvão, ao lado da Quinta da Boa Vista. Madrugada de cão. Torturas inimagináveis das quais consegui escapar, porém, obrigado a ver. Depois seguimos para a Vila Militar para testemunhar os interrogatórios dos suspeitos. Nada presenciamos, mas o áudio das súplícas dos interrogados chegava aos nossos ouvidos com clareza e eram aterrorizantes. Finalmente, a transferência para a sede do DOPS, na rua Frei Caneca, centro do Rio. Impossível relatar o visível prazer dos sádicos policiais em escolher mulheres, idosos e crianças para servirem de exemplo aos detidos considerados líderes comunistas das torturas que lhes estavam reservadas.

Foi assim a minha estréia na militância política. Eu já havia sofrido durante 8 anos o tratamento diferenciado e preconceituoso adotado pelos padres para cuidarem da educação dos estudantes indigentes matriculados na escola popular. Fomos classificados como criaturas excepcionais, portadoras de doenças físicas e mentais hereditárias, soldados dos exércitos da criminalidade que se formavam nas comunidades mais carentes, integrantes de seitas satânicas. O preço da caridade religiosa é tão alto como o cobrado pelos traficantes de mulheres ou donos de fazendas clandestinas. As vítimas devem mais a cada dia. Ajoelhar no milho e apanhar de vara de marmelo eram castigos usados na nossa conversão ao catolicismo.

Formação complementar: por sorte, acaso ou destino, na mesma idade venci um concurso de contos lançado por uma revista importante do mercado editorial da época. Sempre gostei de ler e escrever. Minha vitória foi surpreendente, pois, somente depois de divulgado o resultado os editores descobriram a minha idade e minha situação escolar.

Descobri que minhas armas contra a exclusão deveriam ser a minha inteligência, e o uso adequado dos meus talentos, dentre os quais, destacava-se a arte de escrever e interessar as pessoas nos meus escritos. No entanto, percebi que para isso precisaria agregar valor a essas qualidades. Comecei então a procurar instrumentos que pudesse usar para ampliar meus conhecimentos. Fiz dezenas de cursos, devorei bibliotecas, tentava escrever sobre tudo para testar os resultados do meu aprendizado. Uma preocupação sempre foi constante, não castrar a minha conclusão pessoal sobre o mérito dos temas abordados. Um homem sem opinião não é ninguém.

Nessa estrada uma das minhas prioridades sempre foi procurar esclarecer as causas, descobrir as origens das desigualdades entre pobres e ricos, a pergunta recorrente: por que? - mais tarde a expressão foi tomada como título de um dos meus programas de televisão. Nessa fase, me foi dada a oportunidade de entrevistar e colocar saia justa em personagens tipo: Paulo Hartung, atual governador do ES; Paulo Maluf, em exercício de mandato de chefe do Executivo do estado de São Paulo; Moacir Dalla, também capixaba, então presidente do senado e promotor da lei que ficou conhecida como "Trenzinho da Alegria". Em programas de rádio e cobrindo pautas para jornais e revistas, entrevistei com exclusividade o presidente Figueiredo, o ministro César Cals, e outras figurinhas carimbadas. Pau puro.

Experiências Profissionais

Aos 9 fui caixeiro de armazém pagando o abrigo que um padrinho, amigo do meu falecido pai, concedera a mim e a minha mãe, sendo esta, responsável por todos os serviços domésticos da casa principal. O preço da esmola é como as dívidas nacionais, externa e interna, são depositadas num poço sem fundo. Pura exploração do trabalho escravo em troca de pocilga e restos de comida.

O casal chegou a separação e fomos morar de aluguel num mísero quarto de uma casa de cômodos. A velha Joaquina entrou no mercado das diaristas domésticas. À noite fazia bordados e crochê que eram vendidos aos domingos na feira de nordestinos instalada no campo de São Cristóvão. Aos 11, virei engraxate, sendo obrigado a disputar um ponto de trabalho enfrentando em brigas de rua crianças muito mais fortes e maiores do que eu. Depois passei a vendedor ambulante de frutas. Carregava sobre a cabeça um tabuleiro de madeira, caminhava dezenas de Km e, só terminava o trabalho ao não mais restar uma única fruta para ser vendida. Em seguida, fui convidado para fazer estágio numa gráfica e aprender a profissão. Aos 16 fui promovido a gerente de produção. Aos 19 ingressei na Aeronáutica, o sonho era fazer carreira. Então aconteceu o levante de Aragarças, sob o comando do capitão Lamarca. A invasão da base aérea do Galeão, com o objetivo de roubar aviões e munição foi toda tramada na unidade onde eu servia, o PECAER. Fiz parte do grupo de assalto. O Golpe foi denunciado por Carlos Lacerda minutos antes de começar a operação. A baixa foi inevitável: "Certificado de Isenção Militar Definitiva em Tempo de Paz".

Nenhuma dessas atividades de sobrevivência, no entanto, impediram meu projeto de desenvolvimento social, e exploração dos meus talentos. Sempre encontrava tempo para conhecer outras atividades, descobrir oportunidades, principalmente, para as quais eu acreditava ter aptidões. Sem regulamentação da profissão comecei a fazer jornalismo prático aos 16, trabalhando em jornais alternativos e, ao mesmo tempo, como locutor, apresentador e animador de eventos, e a apresentação de comícios fazia parte.

Trabalhava free-lance para alguns jornais do Rio, em especial produzindo reportagens e textos publicitários. Arranjava alguns trocados. Geraldo Villar, chefe do departamento comercial do Diário de Notícias, foi um cliente contumaz. Escrevia para o jornal "dos bairros", alinhado na grade de editorias permanentes do jornal "Gazeta de Notícias". Falha a memória para identificar os veículos nos quais publiquei duas matérias que incomodaram muita gente: "Ligth Perigo de Vida" e "Marquises da Guanabara Tetos da Vergonha ". Uma das pessoas mais incomodadas foi Sandra Cavalcanti que ocupava a secretaria de Ação Social do governo Carlos Lacerda.

Fui chefe do Departamento de Vida em grupo da Cia. Atlântica de Seguros, Calculista do Departamento de Seguros de Transportes da empresa Firemen!s Insurance, Inspetor de Segurança da guarda da Ishikawajima Estaleiros do Brasil, Gerente da Carteira de Crédito e Investimentos e administrador de fundos públicos e privados do extinto grupo financeiro liderado pelo Banco predial do Rio de Janeiro, Chefe de Gabinete de Maria Luiza de Aragão na direção do Departamento de Bem Estar ao Menor.

A multiplicidade de ocupações devia-se as necessidades financeiras de uma posição social de dignidade e independência. Vendi livros, ações, instalei um escritório de captação de recursos criados pela aprovação do PND - Plano Nacional de Desenvolvimento (SUDAM, SUDENE, SUDEPE, D.L. 157), a maior picaretagem governamental de que se tem notícia neste país. Maior e mais grave que os mensalões, os superfaturamentos de obras e serviços e maracutaias similares. Afinal de contas, o governo brasileiro abriu mão de 50% do imposto de renda devido pelos contribuintes por décadas, sob a justificativa de que os investimentos industriais, agrícolas e pecuários trariam um retorno a curto e médio prazo para tirar o Brasil do atoleiro, da humilhante condição de subdesenvolvido, seria a solução para saldar a dívida externa e resgatar a dívida interna. Perguntem ao Jader Barbalho o que a família fez com os milhões que ele liberou para instalação do "Ranário" da sua mulher?

TRÊS DÉCADAS NO ESPÍRITO SANTO

Vim para o Espírito Santo, no início dos anos 70, como convidado de um grupo de produtores rurais para coordenar a criação de uma rede de comunicação (revista, jornal, rádio e televisão), começando como editor de uma revista destinada a contribuir para o desenvolvimento da pecuária capixaba.

Em verdade, a revista tinha como intenção construir uma aliança estadual como objetivos políticos. O grupo havia sido convencido que poderia assumir o comando do estado e diversificar o crescimento dos municípios do interior, derrotando o prestígio e a força dos cafeicultores, redirecionando os investimentos e políticas públicas para outras atividades, em especial, a pecuária de corte e leite, com pretensões de competir junto aos mercados importadores.

Contratado, busquei junto às embaixadas dos países listados nos primeiros lugares do ranking informações sobre técnicas gerais e atualizadas de produção. O resultado foi extraordinário.

A pecuária capixaba era primitiva. O material coletado, depois de trabalhado e produzido para o lançamento da revista causou uma verdadeira revolução no setor. O secretário da Agricultura, Paulo Lemos, político de prestígio, ao tomar conhecimento da novidade nos convocou para uma reunião. Na oportunidade recebemos a oferta de todo apoio necessário, incluindo verbas publicitárias em valores jamais alcançados pela imprensa local. Óbvio que não poderia faltar o condicionamento das relações de reciprocidade.

Para meu espanto, com tudo pronto para o lançamento, o fogo da vaidade fez o circo pegar fogo. Na hora de montar o expediente, todos queriam ter o nome colocado na posição mais alta, já antecipando futuras candidaturas a cargos eletivos majoritários. Desistiram da idéia, porém, foram corretos até demais no cumprimento do nosso acordo.

Três meses de trabalho, com um rico material em minhas mãos, uma súbita e arrebatadora paixão pela região metropolitana do Espírito Santo (Serra, Vitória - capital -, Vila Velha, Guaraparí), e pela exuberante beleza dos extraordinários sítios do interior, verdadeiros santuários ecológicos, decidi trocar o Rio, abandonar as vantagens de uma grande e progressista cidade pelos encantos provincianos.

Procurei o secretário Paulo Lemos que confirmou o apoio oferecido, foi meu padrinho junto a patrocinadores e anunciantes e, juntos, lançamos a revista "Exposição Agropecuária". Enorme sucesso, além das expectativas. As edições circulavam nas datas das exposições estaduais. Até mesmo os visitantes ficaram entusiasmados com a nova publicação e surpresos com informações das quais jamais haviam ouvido falar.

Infelizmente, pra mim, quem dominava o mercado da comunicação local era a Rede Gazeta, editora de um caderno especial semanal sobre a mesma temática. Enquanto eu faturava alto, o semanário do concorrente rolava ladeira abaixo. Resultado: manda quem pode e obedece quem tem juízo. A Gazeta estava para o Espírito Santo como a Globo para o Brasil. As pressões culminaram com o fechamento da revista.

Nunca me conformei com derrotas, sempre pedi revanches, e me preparava para enfrentá-las. Apaixonado pelo estado nunca sairia daqui como um perdedor. Como deveria ser nas antigas províncias, o Espírito Santo também era repartido entre castas. Todas as atividades tinham comando familiar ou gestão de afilhados dos donatários, alguma coisa muito semelhante às famosas "panelinhas" ou ao "clube do Bolinha", com outras diretrizes.

Os cariocas eram vistos como espertalhões, aventureiros, trambiqueiros. Não mereciam confiança e, ainda menos, oportunidades. Resolvi encarar. Afinal, "em terra de cego quem tem um olho é rei".

Apesar de receber a remuneração do meu contrato original, dinheiro não dura para sempre. Para ficar eu precisava trabalhar alguma coisa. Estávamos no mês de abril. Procurei saber com um fotógrafo que trabalhou na revista qual seria a data festiva mais próxima de acontecer. Nada mais nada menos do que o 23 de maio, quando é comemorado "o dia do solo espírito-santense.".

A programação das festas uma coisa ridícula, festa do interior. Pior, nem a mais alta autoridade do Espírito Santo conhecia nada sobre a história estadual. Os gerentes dos departamentos comerciais das empresas de comunicação não tinham a menor idéia de como faturar para os seus veículos.

Procurei a direção do jornal A Tribuna, que pertence à segunda rede local, oferecendo a editoria de um caderno especial resgatando a história real da colonização. Como argumento, minha proposta afirmava a entrega do caderno fechado, satisfatoriamente coberta pela comercialização publicitária, pronto para rodar.

Não me concederam mais do que um bloco de autorização de anúncio e um conselho: cuidado com o que fizer, carioca que apronta vai para a cadeia e o pau quebra.

Viajei para o interior acompanhado do fotógrafo. Foi preciso empenhar com o dono de uma banca de jornal e revistas alguns dos meus equipamentos para custear as despesas. Destino, as duas verdadeiras cidades onde começou o processo de colonização: Alfredo Chaves e Iconha.

Foi um trabalho histórico, inédito e esclarecedor. Mais recentemente, com a ajuda de alguns amigos, reescrevi a história do município metropolitano de Serra, atualmente um dos mais importantes do estado e do Brasil pelo desenvolvimento dos pólos industriais.

A importância das matérias publicadas e o resultado do faturamento comercial, todo ele recebido a vista, em grana viva, abriu-me as portas das fortalezas capixabas.

Como produtor e apresentador de programas de rádio e televisão, trabalhei na estatal Rádio Espírito Santo, também acumulei as funções de editor de jornalismo, criei O Domingo é da Criança, transmitido ao vivo de um circo, todas as apresentações com a lotação de três mil lugares esgotada, repórter esportivo, comentarista político, projetei e realizei eventos populares de grande porte, apresentando atrações do nível de "Os Trapalhões".

O mesmo aconteceu nas rádios: Capixaba e Vitória. Na TV âncora de jornalismo, repórter, entrevistador político, coordenador e chefe de equipe de reportagens especiais e eventos.

Redator do jornal JS - Jornal de Serviços, colunista do Jornal da Cidade, de propriedade do renomado jornalista Djalma Juarez Magalhães, uma das vítimas da revolução, e da sua mulher, colunista Maria Nilce, barbaramente assassinada a mando do crime organizado, colunista do jornal Correio Popular.

Atualmente faço free-lance para a empresa AP COMUNICAÇÕES, tendo sido responsável pelo lançamento da "R&M REVISTA DOS MUNICÍPIOS", escrevo matérias por contratos de prestação de serviços.

Atuei no exercício de assessorias especiais para vários prefeitos, deputados estaduais e federais, senadores. Elaboro e realizo projetos de campanhas eleitorais. Max Mauro e família, ex-governador, ex-deputado federal, João Baptista da Motta, ex-prefeito, ex-deputado federal, terminando agora mandato de senador, Vasco Alves ( O Vasquinho), ex-prefeito e ex-deputado federal, Camilo Cola, empresário, dono da Viação Itapemirim, eleito nas últimas eleições deputado federal.

O MEU HOLOCAUSTO

Como já foi dito, jamais abandonei as lutas contra as desigualdades e os crimes sociais, contra os políticos da banda podre, os demagogos, os corruptos, os marginais.

Nos quase 35 anos de Espírito Santo, percebi desde os primeiros anos que, apesar do aparente provincianismo, o estado vinha sendo dominado por grupos formados de espertalhões, desprovidos de quaisquer princípios éticos e morais.

A coisa pública era transferida para o patrimônio particular dos gestores da administração das instituições governamentais. Aliás, a sede do Governo sempre foi uma babel, ou um bordel para satisfação de bandos de meliantes.

Minha exigência de autonomia e independência para realização dos meus projetos nascia, em primeiro lugar, pela recusa em aceitar ser escravo de salários injustos, que não eram compatíveis com a qualidade e a produtividade dos meus serviços.

Uma outra razão, sempre a mais importante. O meu compromisso com a cidadania.

Sendo assim, em todo espaço ocupado nos meios de comunicação, eu reservava um tempo para cumprir com as minhas obrigações. Por volta dos anos 80, já conhecendo perfeitamente os bastidores da política capixaba, dos sistemas públicos de saúde, educação e segurança, das máfias escondidas atrás das fachadas empresariais, e constatando que, a criminalidade local estava sendo seduzida para participar das centrais do crime localizadas no Rio e em São Paulo, passei a denunciar os esquemas e dar nome aos bois.

A princípio eu incomodava, mas não metia medo. Com o passar do tempo minha popularidade e as demonstrações de que os capixabas estavam reagindo diante das denúncias provocaram o revide da bandidagem. Primeiramente, apenas ameaças, depois simulações de tocais, de assaltos, e outros procedimentos que já eram do meu conhecimento desde os tempos da vida carioca, nos quais não faltaram intimidações à minha família.

Frustradas as tentativas, deram curso a oferta de propinas, deixaram carro com documentos em meu nome na porta da minha casa e pagaram a um moleque de rua para me entregar as chaves. Eu não cansava de receber convites para as festas das aldeias, como ainda são chamados os locais de encontros dos chefões da criminalidade.

Inventaram denúncias anônimas para criar fantasiosos processos criminais onde eu fui acusado de chefe do tráfico de armas e drogas, assassino de aluguel e outros ilícitos. Não tinham o que provar, muito menos eu, que reagindo na mesma moeda acabava informado oficialmente que as diligências comprovaram que tudo não passava de armação e as denúncias tinham sido arquivadas.

Quatro tentativas contra a minha vida foram reais. Escapei pela experiência que me conduzia a cautela, por informações de amigos que por vários motivos freqüentavam os antros da criminalidade.

Também não me calei, a cada ataque eu revidava com o relato dos acontecimentos e reafirmava as denúncias, exigia providências diretamente as chamadas autoridades competentes. Nunca pedi proteção.

Quem pode manda e quem tem juízo obedece. E quem podia mandou. Que eu fosse tirado do ar. Que todas as portas se fechassem para mim.

NASCEU O JORNAL O PORRETE

Pau que nasce torto morre torto. Paulo Carneiro nasceu torto. Criei o jornal O PORRETE, e cada edição nas ruas fazia o Espírito Santo tremer. Eu denunciava os crimes, detalhava os acontecimentos, anexava provas, declarava testemunhas, e encaminhava ao Ministério Público.

Estrutura de Governos podres desabaram diante do jornal. Ícones da moral e dos bons princípios foram destruídos como ídolos de barro. Foi o jornal O PORRETE quem primeiro mostrou o lixo debaixo dos tapetes das cortes do Espírito Santo e detonou a ação das honradas equipes dos Grcos, Grupos de Repressão ao Crime Organizado.

Também destruíram O PORRETE, porém, já era tarde, as malocas caíram. Muitos não escaparam da cadeia, outros sofreram apenas os arranhões da desmoralização, vomitaram parte do roubo, perderam o poder e a autoridade. Ainda restam aqueles que estão se beneficiando das leis imorais promulgadas em causa própria.

Finalmente, após seis anos do início do meu holocausto, recebo correspondência oficial do secretário estadual da Fazenda declarando que graças as minhas denúncias uma Comissão Especial de Investigação, após exaustiva e criteriosa investigação, conseguiu recuperar milhões apropriados indebitamente do erário e recompor créditos de centenas de milhões que, por acordo, começarão a ser pagos pelos "devedores" a partir de 2012.

Caro Milbs:

Acredito que o os currículos de todos os brasileiros sobreviventes da minha geração sejam semelhantes. Aos 67, doente e sem atividade fixa permanente, sou ainda mais pau para toda obra. Continuo sendo respeitado e admirado, até por adversários e inimigos, mais os meus talentos, embora cobiçados, são descartados em função da minha história capixaba.

Não respondo ao seu convite, sinto-me honrado e recompensado em saber que nem tudo está perdido, que os nossos filhos e netos ainda contam com a proteção de pessoas como você, seus companheiros do jornal O Rebate e uma legião de aspirantes a futuros guerreiros.

Desculpe-me a empolgação e o conteúdo maçante dos meus escritos.

Do admirador a quem você faz lembrar o tempo das cadeiras nas calçadas, um forte abraço e merecido respeito.

Paulo Carneiro.

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