
CORPORAÇÕES
O mundo de preceitos e defeitos
Por: Marcos Souza (¹)
Há pouco tempo assisti a um documentário extraordinário intitulado “A Corporação” ( The Corporation - CAN/EUA/2003 ), de Mark Achbar, Jennifer Abbott e Joel Bakan, que mostra visões críticas e reais da industrialização no mundo de hoje; o mercado de emprego; a poluição; a auto-sustentabilidade como meio de sobrevivência de mega-empresas e, principalmente, as transformações sócio-econômico-ambientais da globalização, com suas mazelas, sacrifícios e reles benefícios práticos a população, mas em estreito conluio com mega-empresários e indústrias que transformam países do terceiro mundo em mão de obra barata, sem ater direitos e humanidade a um modelo de mercado compatível com a realidade.
Poderia render um filme de duas horas chato, com teor econômico ou contaminado pela excessiva onda do “politicamente correto”, tendo uma visão restrita e fechada sobre os malefícios das ações dessas corporações. Mas, pelo contrário, o tema é expandido em entrevistas com industriais poderosos, economistas, jornalistas – como o esclarecido Noam Chomski -, videodocumentaristas – como Michael Moore ( dos filmes: “Tiros em Columbine” e “Fahrenheit 11/09” ) – e até corretores da bolsa de Nova Iorque. O retrato sobre a economia e os dissabores que mobilizam a sua força nos mundo das corporações é frio e cruel, “As Corporações” trata disso com uma lucidez ímpar e imparcial, mostrando de maneira clara que estamos literalmente fudidos.
Num momento chave do filme, um corretor da bolsa de Nova Iorque, diz em tom de seriedade e ao mesmo tempo irônico, que quando as torres gêmeas – o complexo Word Trade Center – foram atingidas pelos aviões, muitos acionistas e corretores após o choque inicial do impacto do ataque terrorista, no mesmo dia estavam comemorando a subida do preço do ouro, das ações de empresas que duelavam diretamente com outras que foram extintas nas explosões das torres. Ou seja, mesmo diante de uma dor humana intensa, ou a comoção em torno da tragédia, os acionistas, industriais e mega-empresários estavam preocupados e monitorando as ações do dia na bolsa de Nova Iorque, sem atrelar compaixão ou piedade aos negócios, afinal para eles tempo e “tragédias” é dinheiro. *O que se segue abaixo, nos links, é uma série de textos, na qual coloco a minha visão a respeito do filme, das reflexões que ele propõe e um estudo sobre as ações da indústria e o mundo de hoje. Leia como “pílulas”, ou seja, em capítulos, favorece a leitura e o seu tempo. Boa leitura.
PRIMEIRO ATO – Um mundo de defeitos
O mundo de preceitos e defeitos. O que a corporação faz de você diante dos desafios da atual realidade é o que interessa a humanidade.
Há quanto tempo pensamos seguir uma linha correta de raciocínio no que diz respeito a viver bem, seja de forma social ou pessoal? Pois é, a lógica de sobrevivência é ser melhor no que se sabe fazer e se superar no que não sabe, ou seja, se atenha a um objetivo e lute por ele com unhas e dentes, esqueça o superflúo.
Do que estou falando?
Estou falando de modernidade. De um garoto de 18 anos entrar num carro conversível, pegar uma auto-estrada recém asfaltada e no fim de tarde correr 140 km/h , olhar em sua volta e perceber que vivemos num mundo moderno, onde ser infalível é uma necessidade de status e sobrevivência. A metáfora é: desde cedo se tocar que para ter aquilo que ambicionamos exige trabalho, muito trabalho e estudo. Luxo é decoração, mas viver no luxo é colocar a experiência em favor do que podemos construir.
Corporação, no sentido amplo da palavra significa um conjunto de indivíduos que administram negócios de interesse público. Ao mesmo tempo impõe uma série de regras administrativas e poucos sociais que ajudam a manipular o mercado consumista em todos os sentidos.
Se adquirirmos produtos de necessidade para viver, ou mesmo pela questão do status que esses mesmos produtos podem nos trazer, a manipulação está ligada na corrente de inter-relações provocadas pelos seus fabricantes.
É uma equação ingrata e fácil basta ligar o neoliberalismo pungente que impetra as transformações econômicas que satisfaçam a globalização propalada de tempos atuais com a exploração de mão-de-obra barata em países de terceiro mundo, onde a economia é totalmente dependente da ajuda financeira dos países de primeiro mundo.
Quem não estiver ligado nas necessidades mercadológicas do comércio internacional, ou mesmo, na satisfação imediata e gratuita de consumidores que ajudam a engordar os cofres das corporações que manipulam o nosso dia-dia, é porque se deixou levar por ideologias utópicas e ingressou num mundo de contos de fadas que já não se aplica ao mundo moderno.
Pois é, continuo falando de mundo moderno ( Modern World ) e digo que a demanda de serviços mantida pelas grandes corporações – como a Nike, Shell, Goodyear, entre tantas outras -, é um paradoxo no sentido social.
Se essas mesmas corporações contribuem em impostos e no emprego de milhares de pessoas, portanto têm seu lado benéfico, por outro, não criaram ou mantiveram regras eco-ambientais imprescindíveis - na extração e importação de matéria-prima sem um programa específico de remanejamento ou auto-sustentabilidade viável em suas indústrias compatíveis com a necessidade de preservação ambiental –. Fatores tão importantes quanto necessárias.
SEGUNDO ATO – Careta, idealista e fatalista
Ora, hoje, se pode contar com pesquisas aprofundadas na área de preservação ambiental e que ajudam a essas corporações a iniciarem ou manter programas específicos nesse sentido, não só pela linha de conduta moral frente à rede de patrulhamento que fiscaliza, mas por uma questão de sobrevivência da humanidade e da própria corporação. Vai chegar um tempo em que vai faltar matéria- prima, pois não há remanejamento – em outras palavras, o homem tira, mas não repõe, o que coloca em risco a sua própria vida.
É bem careta, né? Parece política corretiva para idealistas? Não mesmo, a realidade visceral da “globalização” e o avanço mercadológico em todos os rincões apontam para um estreitamento de qualidade de vida para o futuro da humanidade, e antes que seja tarde demais, a atitude de conscientização quanto aos avanços do “mundo moderno” precisa ser freado agora.
Para ser mais sintético com um exemplo vigente: um dos problemas que já preocupam cientistas do mundo todo é que em 25 anos a água potável se escasseará, o resultado já prognosticado é que essa necessidade - um benefício natural – se transformará em um investimento específico, pois de alguma maneira empresários ou investidores vão encontrar uma maneira de privatizar a água potável restante do mundo para que alguma indústria a transforme em produto de consumo incontestável. É dinheiro garantido em caixa.
Em suma, o que fazem com a água mineral se aterá também a qualquer coisa relacionada à água potável. Rios poderão ser privatizados ( de maneira mais maniqueísta ) para que o seu consumo seja manipulado e controlado. Ei, é sério, não pense nisso como um absurdo apocalíptico.
A questão principal é que não podemos ficar a mercê das corporações e nem dos seus benefícios estatais – recolhimento de impostos e maior demanda de emprego, provocando maior insumo de taxas -. Sem ingenuidade utópica de “vamos viver num mundo melhor”, isso já não existe, o pensamento é: “vamos exigir um mundo moderno, melhor para nossos filhos, com mais dignidade aos nossos direitos”. A questão não impedir o progresso, mas educá-lo.
E ainda é pouco.
TERCEIRO ATO - O mundo moderno das corporações
A devassa que o mundo sofre hoje das corporações – indústrias poderosas do primeiro mundo e que solidificam a economia mundial em escala crescente, algumas a partir da exploração de mão-de-obra de países do terceiro mundo – ecoa na forma viável de se auto-sustentar. Essa consciência não nasceu involuntária, a inquietação provocada pelos sintomas da crescente onda de choque térmico que expande a cada ano no planeta – o efeito estufa - é fruto de pesquisas realizadas ao longo dos anos e que apontam para um processo de destruição ambiental conseqüente dos abusos que sofre o meio em que vive o homem.
Ora, eu não estou recorrendo a um patrulhamento eco-ambiental comum aos ativistas da natureza, mas ao óbvio que vem provocando debates e fóruns no mundo todo. O planeta está morrendo em conseqüência da exploração de suas riquezas, para obtenção de matéria-prima que sirva para alimentar hordas industriais vigentes.
Se uma indústria de mineração, como a de cobre por exemplo, despeja toneladas de fumaça tóxicas nos céus sem medir as conseqüências do poluente que mina não só a população ( que irá respirar o ar contaminado ) mais a camada de ozônio, ou mesmo quando florestas inteiras são dizimadas para a manutenção de indústrias de papel, moveleira e outros derivados, e não existem programas de restituição de matéria prima ( replantar as florestas, ou filtrar o gás tóxico nas grandes chaminés das indústrias minerais ) é porque infelizmente a cultura capitalista, com dicotomia que serve a duas fontes principais: objetivismo e egocentrismo, ainda exerce pleno domínio sobre a manipulação do poder.
Aos Estados Unidos cabe o papel de vilão-mor no epicentro das corporações oportunistas, justamente por impor em sua fome de poder o cerne da economia global, capitalizando através da manipulação e influências políticas a sua crescente demanda de riquezas. Mas vale observar que essa é uma cultura racional dentro dos Estados Unidos, pois segue um modelo de orgulho nacionalista que é um paradoxo político e social. Num país livre e economicamente forte, os direitos civis e as normas legislativas são injustas, provocativas e indiferentes na formação democrática que parece inatingível dentro das terras do Tio Sam. Ou seja, quem é rico é rico, quem é pobre, pobre permanecerá. Mesmo as condições sociais dentro do país são impostas dentro de uma política que centraliza o poder apenas para aqueles que estão bem sucedidos no mercado. Depois do 11 de setembro a coisa toda piorou ainda mais, principalmente para os estrangeiros.
QUARTO ATO – Caráter norte-americano e Noam Chomsky
O sociólogo americano David Riesman , no seu livro “Multidão Solitária”, um estudo amplo sobre a mudança do caráter americano na primeira metade do século 20, escreveu no prefácio da quarta edição uma observação bem plausível sobre isso: “(...) Isto é, não será possível persuadir as classes médias e classes operárias superiores afluentes de um modo ainda muito inseguro, a serem generosas para com os que de fato nada têm, principalmente se estes são negros e turbulentos ( embora a maioria dos pobres na América sejam brancos ), se elas próprias não viverem numa curva sempre crescente de satisfação do consumidor”.
Os mantenedores das corporações cuidam para que esse processo americano esteja ativo, pois é de interesse para o funcionamento da economia global. Ora, se os direitos e encargos trabalhistas, assim como a carga tributária dentro dos Estados Unidos, são pesadas, e não se pode perder espaço para a concorrência estrangeira no cerne capitalista, porque não terceirizar serviços em países de terceiro mundo, onde os encargos e direitos trabalhistas são quase nulos, impostos baixos e, melhor, são devedores natos da América? Claro que sim.
Se uma indústria americana – filial – funciona num país pequeno utilizando mão-de-obra barata e fazendo produto com a mesma qualidade da matriz, evita-se então dar empregos e criar meios de sustentação ao médio americano, que está desempregado e não tem meios de elevar o seu nível de vida.
Com essa implantação norte-americana em países do terceiro mundo para a vinculação direta com a economia deles, soma-se a conveniência de outros países ricos. Se não, vejamos, o lingüista e analista político Noam Chomsky escreveu num artigo famoso sobre essa conveniência – que de teoria conspiratória não tem nada – num fato singular, sobre um acordo de telecomunicações da Organização Mundial de Comércio (OMC), apresentada numa matéria ufanista pelo jornal New York Times como “nova ferramenta” para a política exterior norte-americana, e que permitia a OMC cruzar as fronteiras de 70 países que firmaram esse acordo. Ora, Chomsky, que é contrário à política de extrema direita do governo Bush, foi perfeito: “No mundo real, então, a nova ferramenta , permite aos Estados Unidos intervir profundamente nos assuntos internos dos outros países, obrigando-os a mudar suas leis e suas práticas.”
Em suma, adequando às necessidades dos americanos, o que significa facilitação para a entrada de indústrias e formalização de uma economia selvagem e endurecida pela necessidade imediata do lucro. É exploração institucionalizada internacionalmente, essa é a verdade.
Ainda em seu artigo revelador Chomsky vai além dos fatos e apresenta a verdade nua e crua das conseqüências esperadas do triunfo dos “valores norte-americanos” na OMC, que entre outras coisas apontam para o controle dos setores cruciais das economias estrangeiras por parte de corporações com base nos Estados Unidos, benefícios para os setores empresariais ( e para os ricos ) e aumento de preços para a população.
Quando se questiona a verdade sobre o poder de algumas corporações, em lugares onde estão implantadas, mudando, por vezes, a geografia de uma determinada região, apresenta a necessidade de formalizar o que já foi constatado: a auto-sustentabilidade é uma necessidade de sobrevivência. Já havia esclarecido isso na primeira parte desse artigo.
Há algum tempo algumas indústrias utilizam esse meio para dar sustentação na formação de matéria prima, e alguns países já exigem por lei que as corporações implantem programas de pesquisa, captação e formação de meios que a tornem auto-sustentável, sem que isso prejudique o meio ambiente ou mesmo as pessoas que dependem dele. São recursos viáveis e que dão mais sobrevida ao planeta.
QUINTO ATO – Protocolo de Kioto e a inapta redenção eco-ambiental
O paradoxo, o quase antagonismo disso tudo é que os próprios vilões, algumas corporações americanas, além de estar ciente do perigo, aprimoraram sua forma de auto-sustentar, respeitando normas e incentivando programas que vise o bem estar da natureza. É uma pena que essa consciência se estenda a poucas corporações americanas, pois são poucas contrárias à política econômica arbitrária e protecionista do presidente George W. Bush. Basta ver o exemplo do tratado que formaliza o Protocolo de Kioto.
Muito se fala no Protocolo de Kioto, e poucos sabem o seu real propósito no cenário mundial e a sua importância a tudo isso que escrevi. O Protocolo de Kioto é um tratado onde fora estabelecido algumas diretrizes primordiais sobre a emissão de gases na camada atmosférica do planeta. Formalizada na Convenção Sobre o Clima das Nações Unidas, de 1992, em Kioto, o seu objetivo é que os países industrializados reduzam e controlem até os anos de 2008-2012 as emissões de gases que causam o efeito estufa em aproximadamente 5% abaixo dos níveis registrados em 1990, e para o protocolo ser efetivado é preciso que, no mínimo, 55 países que gerem 55% das emissões de gás carbônico o ratifiquem. Isso significa redução de gás, ou seja, menos gasto de energia.
Desse fato vem a falta da boa vontade política dos Estados Unidos com a retenção do “progresso” desenfreado das suas indústrias, o que significa que o maior país emissor individual de poluentes causadores do efeito estufa está fora da negociação do tratado de Kioto, isso depois que a administração do presidente George W. Bush se opôs à ratificação do protocolo, rechaçando qualquer intenção que impeça a redução de energia no seu país.
Mesmo que ainda faltem 25 países para ratificar o Protocolo, os Estados Unidos foi o mais contundente na sua postura “onipotente”, com um celebrado discurso de Bush reiterando a sua política protecionista de extrema direita, com a fleuma vergonhosa da famigerada definição WASP ( White, Anglo-Saxon e Protestant ) que lhe cai tão bem e que serve às ambições corporativistas que parecem bem inseridas na propalada “ American Way of Life ”.<p>
ÚLTIMO ATO – Utopia vaga e o visceral dissabor poético de Allen Ginsberg
A combinação do mundo moderno das corporações está estabelecida no que o mau exemplo dos Estados Unidos tenta passar para o mundo, ainda que em meio à hipocrisia de uma utopia falha que serve e é dirigida aos grandes, aos poderosos. Portanto não cabe aqui celebrar a eficiência em muitos pontos das normas de Karl Marx , contrários ao poder desigual do capitalismo, mas vale lembrar dois momentos singulares da inquietação humana em busca da sobrevivência num mundo cada vez menor e mais louco. São como desejos, gritos ou alertas disfarçados em sonhos e visões.
O primeiro é que para o marxismo há uma etapa final, uma utopia final na qual a luta é substituída pela harmonia, a alienação por uma vida autêntica e as relações entre os homens deixam, de ser de exploração e competição, altura em que recuperará novamente sua dimensão autêntica àquela que é a contradição fundamental: a do homem diante da natureza.
O segundo momento é o que o poeta norte-americano e um dos mais influentes formadores do movimento literário “beat” ( criado na década de 50 ), o saudoso Allen Ginsberg deixou como herança nativa no seu poema “Uivo” – escrito em 1955 e publicado no ano seguinte –, com uma série de frases e versos que serve de polaróide para uma América de fundo de quintal, com suas mazelas, vícios e “corporações”. Versos como esses, tirado de “América”, que compõe o “Uivo”:
“(...)América eu te dei tudo e agora não sou nada.
América dois dólares vinte e sete centavos 17 de janeiro de 1956.
América não agüento mais minha própria mente.
(...) América afinal eu e você é que somos perfeitos não a outro mundo.
Sua maquinaria é demais para mim.
Você me fez querer ser santo.(...)”
Em meio a essa guerra de interesses que move o mundo globalizado e que injeta uma carga evolutiva desregrada, onde corporações são mais influentes que governos, e interesses econômicos são beatificados em vista da razão capitalista, afirmo que infelizmente temos que nos adequar a esse mundo moderno, mas, por outro lado, e felizmente, com mais consciência política e social, buscando solução para uma vida melhor em nosso meio, como já disse antes, se não para mim ou você, que seja para o futuro, para os nossos filhos.
(¹) - MARCOS SOUZA – É jornalista, bacharel em comunicação social pela FARO, em Rondônia. Trabalhou como repórter e editor do Caderno 2 (Cultura) do jornal Alto Madeira, no período de 1996 às 2000. Nascido em Ipauçu (SP), tem 38 anos, escreve críticas de cinema e artigos sobre Cultura Pop – quadrinhos, música, séries de TV, arte e literatura. Atualmente é o editor-chefe do site de notícias www.rondoniaovivo.com.
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