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O PÚBLICO VAIA CHICO BUARQUE:
É O FIM DE UMA ÉPOCA.

Celso Lungaretti (*)

Na madrugada de 29 de setembro de 1968, uma vaia de dez minutos foi dirigida, em pleno Maracanãzinho, contra dois dos maiores expoentes de nossa música popular: Tom Jobim e Chico Buarque. Mais do que o desfecho infeliz de um evento artístico -- o III Festival Internacional da Canção, fase nacional, promovido pela TV Globo --, o inesperado e contundente repúdio de 20 mil pessoasàqueles que eram um dos papas da bossa-nova e a maior revelação da "nova" MPB marca o fim de uma época.

Dois meses e meio depois desceriam sobre o País as trevas do Ato Institucional nº 5. E, com o esvaziamento imposto às artes, seria exatamente a canção favorita do público do III Fic que se imortalizaria como símbolo da resistência ao autoritarismo: "Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores" (ou, simplesmente, "Caminhando"), de Geraldo Vandré.

O III FIC transcorreu em setembro de 68, mês marcado por passeatas, prisões de estudantes e de guerrilheiros urbanos, assaltos a bancos, atos terroristas de organizações pára-militares de direita. Foi quando o Comando de Caça aos Comunistas (CCC) invadiu um ensaio da peça "Roda Viva", de autoria de Chico Buarque, para espancar o elenco e depredar o cenário. E também foi o mês em que quatro estudantes cariocas foram assassinados pela repressão em manifestações de rua, poucos dias depois da célebre "passeata dos 100 mil".

Este clima já se refletira na eliminatória paulista, quando houve o desabafo célebre de Caetano Veloso. Ele e Gil apresentaram canções influenciadas pelo movimento estudantil francês de maio de 68: "É Proibido Proibir" (o título é um dos slogans das barricadas parisienses) e "Questão de Ordem" (sobre o cotidiano de um militante de esquerda). Nem assim foram poupados pelo público do Teatro da Universidade Católica (Tuca), adepto do protesto convencional, que se incomodava com as barbas, cabeleiras e trajes chocantes dos dois baianos, bem como como com o acompanhamento à base das "sacrílegas" guitarras elétricas.

A "Questão de Ordem" de Gil não foi escolhida para ir à final no Rio. Irritado com a desclassificação do amigo, Caetano perdeu de vez a paciência quando uma platéia ululante impediu que ele e Os Mutantes interpretassem "É Proibido Proibir" na reapresentação das selecionadas da noite. Então, enquanto Os Mutantes continuavam tocando uma trilha musical improvisada, Caetano fez um longo discurso, que foi depois lançado em disco com o título de "Ambiente de Festival". Alguns trechos:

•"Mas, é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder? Vocês tem coragem de aplaudir este ano um tipo de música que não teriam coragem de aplaudir no ano passado. Vocês são a mesma juventude que vai sempre, sempre, matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem."

•"Quem teve a coragem de assumir a estrutura do festival e fazê-la explodir foi o Gilberto Gil e fui eu."

•"O problema é o seguinte: vocês estão querendo policiar a música brasileira."

•"Gilberto Gil está comigo pra nós acabarmos com o festival e com toda a imbecilidade que reina no Brasil. Nós, eu e ele, tivemos coragem de entrar em todas as estruturas e sair de todas estruturas. E vocês? Se vocês forem em política como são em estética, estamos feitos."

A finalíssima no Maracanãzinho, iniciada no sábado (28) e seguindo pela madrugada de domingo adentro, tinha obras-primas como "Na Boca da Noite", com versos antológicos de Paulo Vanzolini, na interpretação sóbria de seu parceiro Toquinho; "O Sonho", auspiciosa estréia de Egberto Gismonti, um garotão que circulava pelos bastidores, perplexo com a turbulência ambiente; e "Caminhante Noturno", uma culminância na obra dos Mutantes, com Rita Lee se apresentando fantasiada de noiva grávida (Arnaldo Dias Baptista foi de cavaleiro medieval e seu Irmão Sérgio, de toureiro).

Mas o público, ainda chocado pela morte dos quatro estudantes, não tinha ouvidos para a beleza. Aderiu unanimemente a uma canção de servia como desagravo, "Caminhando", de preferência às outras duas representantes da esquerda tradicional que corriam na mesma faixa: "Canto do Amor Armado", metáfora guerrilheira de Sérgio Ricardo, e "América, América", um necrológio grandiloquente para Chê Guevara, de e por César Roldão Vieira.

"Caminhando", curiosamente, foi composta numa fase em que Geraldo Vandré estava sendo vilipendiado pelos estudantes de esquerda. No 1º de maio de 68, o governador Abreu Sodré tentou falar na festa dos trabalhadores na Praça de Sé, sendo escorraçado do palanque a vaias e pedradas. Vandré apareceu nos jornais clicado no momento em que abraçava o governador, num gesto de aparente solidariedade, ajudando-o a escafeder-se catedral adentro. Embora depois alegasse que estava bêbado naquela ocasião, essa foto infeliz fez com andasse sendo visto como "traidor".

Talvez isso explique a comovente sinceridade com que reafirmou nessa canção os valores nos quais acreditava profundamente, à sua maneira romântica. Foi, portanto, um Vandré machucado que subiu ao palco para cantar seu hino revolucionário, acompanhado apenas pelo próprio violão. Talvez nem ele mesmo imaginasse o impacto que esta música teria, acarretando-lhe tanta notoriedade quanto sofrimento.

Bela e intemporal, "Sabiá" é de uma safra em que Chico Buarque parecia alheio ao ambiente nublado da política (há quem faça a leitura de que a canção aludia à futura volta dos exilados, mas essa interpretação parece meio forçada, fazendo mais sentido a posteriori do que no momento dos acontecimentos). Após o sucesso estrondoso de "A Banda", ele insistiu na linha lírica e nostálgica, com "Carolina", "Bom Tempo" (para quem, cara-pálida?) e "Bem-Vinda", tornando-se, nos festivais, uma espécie de antítese da esquerda convencional e também da anarquia tropicalista. Até Nelson Rodrigues, então o próprio arquétipo do "reacionário", tinha palavras de elogio para Chico. Isto explica a vaia finalmente por ele recebida, depois de atravessar incólume vários festivais.

O radialista Walter Silva "plantou" um gravador na sala do júri e pôde exibir um troféu na edição de segunda-feira do jornal paulista Folha da Tarde: a transcrição de falas provando que o presidente do júri, Donatelo Grieco, realmente pressionara seus colegas para que não premiassem "músicas que fazem propaganda da guerrilha", alegando que, caso contrário, haveria retaliações da ditadura.

A ameaça podia ser exagerada, mas o mal-estar causado na caserna por "Caminhando" foi bem real, por causa da estrofe "há soldados armados, amados ou não,/ quase todos perdidos, de armas na mão./ Nos quartéis lhes ensinam antigas lições,/ de morrer pela pátria e viver sem razões". Os militares chegaram a promover entre as tropas um concurso de versos que respondessem à "Caminhando", tendo Samuel Wainer sido pressionado (em troca de um favor recebido) a publicar no jornalÚltima Hora (SP) uma reportagem sobre a poesia vencedora.

Ao ser chamado para reapresentar "Caminhando" como segunda colocada, Vandré ainda pediu ao público que respeitasse Tom Jobim e Chico Buarque, tentando calar os insistentes gritos de "é marmelada". Finalmente, lançou uma frase célebre: "A vida não se resume em festivais".

Cynara e Cybele, intérpretes de "Sabiá", receberam a maior vaia da história dos festivais. Tom Jobim depois confessou a seu parceiro: "Foi como se o Corcovado tivesse caído sobre mim". E o próprio Chico, que estava na Europa e só soube do ocorrido uma semana depois, entrou num processo de autocrítica que acabou desembocando na composição "Agora Falando Sério": "eu queria não cantar/ a cantiga tão bonita/ que se acredita/ que o mal espanta./ Dou um chute no lirismo/ um pega no cachorro/ e um chute no sabiá./ Dou um fora no violino,/ faço a mala e corro/ pra não ver a banda passar". Iniciava-se nesse momento a guinada que o levaria a tornar-se o principal expoente artístico da resistência à censura na década seguinte.

Em alguns bairros da zona Sul carioca, a população saiu às janelas quando Vandré reapresentava "Caminhando" e cantou junto com ele, num protesto espontâneo que logo cederia lugar ao silêncio compulsório do AI-5, quando baixou sobre o País a paz dos cemitérios.

TUDO COMEÇOU COM "O FINO DA BOSSA"

"Foi um período em que todo mundo estava junto. Aquele corredor da TV Record, aquelas salas de espera. O que pintou de música ali, o que se improvisou, o que se brincou, o que se fez de coisas que ninguém tinha visto! O que se discutiu, o que se chegou a uma conclusão. Era todo mundo segurando a coisa de braços dados e com muito amor." O depoimento de Elis Regina dá bem uma idéia do que foi a época de ouro dos festivais e do programa "O Fino da Bossa", entre 1965 e 68.

Depois de a bossa-nova haver irrompido no fim dos anos 50 como a primeira manifestação musical da classe média emergente sob o desenvolvimentismo de JK, houve um refluexo e parte de seus expoentes procuraram dar novo fôlego ao movimento por meio de parcerias com sambistas do morro (Pixinguinha/Vinícius, Carlos Lira/ Zé Keti, etc.). Já Sérgio Ricardo, Edu Lobo e Nara Leão tendiam mais para o engajamento político.

Quando houve o golpe militar, a repressão sobre sindicatos, grêmios estudantis e associações civis levou a uma valorização da música como oportunidade de reunião e palco de catarse (nos primeiros tempos não se censuravam shows, discos e até programas de TV). A fermentação musical nessas noitadas de boêmios e estudantes moldou uma extraordinária fornada de novos talentos, que pouco a pouco foram encontrando espaço para mostrar sua produção.

Primeiro foram as noitadas de música popular promovidas pelo radialista Walter Silva no Teatro Paramount, no centro de São Paulo. O sucesso desses espetáculos foi notado pelo produtor Solano Ribeiro, que idealizou o 1º Festival da Música Popular, realizado no Guarujá (litoral sul paulista), em abril de 65, pela extinta TV Excelsior. Nele se deu a revelação de Elis Regina (cantora) e Edu Lobo (compositor), vencedores com "Arrastão". Curiosamente, passou despercebida "Sonho de um Carnaval", composição do então desconhecido Chico Buarque, que Vandré defendeu.

A poderosa TV Record imediatamente contratou Elis Regina e lhe entregou o comando do programa "O Fino da Bossa" (depois só "O Fino"), que estreou no dia 17 de maio de 1965 e foi apresentado semanalmente até 21 de junho de 1967. A emissora também conseguiu arrancar Solano Ribeiro da concorrente menor, incumbindo-o de organizar seus próprios festivais.

Seria em "O Fino da Bossa" e nos festivais da Record que se consagrariam Chico Buarque, Geraldo Vandré, Edu Lobo, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa, Elis Regina, Jair Rodrigues, Nara Lerão, Maria Bethânia, o Zimbo Trtio e Milton Nascimento (este, cria do quarto festival, com "Sentinela", também alusiva à morte de Chê Guevara, embora já houvesse tido uma participação destacada no II FIC da Globo).

GUERRA DAS TORCIDAS: "BANDIDOS" x "DISPARATADOS "

No primeiro festival promovido pela Record, em setembro/outubro de 66, houve o empolgante duelo entre "A Banda" de Chico Buarque e a "Disparada" de Theo de Barros e Vandré, com ambas dividindo o primeiro lugar, para perplexidade das torcidas ruidosas e em número quase idêntico, de "bandidos" e "disparatados". Enquanto isso, Caetano Veloso estreava com "Bom Dia" (interpretada por Maria Odete) e recebia o prêmio de melhor letrista.

Em setembro de 67, o festival seguinte da Record serviu para lançar o tropicalismo, com "Domingo no Parque" (de e com Gilberto Gil, acompanhado pelos Mutantes) e "Alegria, Alegria" (que o autor Caetano Veloso cantou junto com os Beach Boys).

Houve, além disso, o 2º festival da TV Excelsior, em junho de 66, vencido por Vandré com "Porta-Estandarte"; os I (66) e II (67) FIC, inexpressivos e que serviram apenas para introduzir Milton Nascimento, que encaixou três composições na final do II FIC: "Travessia" (2º lugar), "Morro Velho" (7º) e "Maria Minha Fé"; e até uma Bienal do Samba, que a TV Record promoveu no início de 68, com a vitória de "Lapinha", de Baden Powell e Paulo César Pinheiro.

O exemplo de "O Fino da Bossa" fez com que surgissem vários outros programas com artistas do mesmo elenco original, dispersando-os e enfraquecendo o movimento como um todo: "Bossaudade", que reunia a velha guarda sob o comando de Elizeth Cardoso. "Elza Soares e Germano Mathias"; "Pra Ver a Banda Passar", com Chico Buarque e Nara Leão; "Show em Si-Monal"; "Disparada", com Geraldo Vandré; "Ensaio Geral", com Gil, Bethânia e Marília Medalha; e, já em 68, "Divino, Maravilhoso", com os tropicalistas.

Da mesma forma, brotaram festivais como cogumelos: o Universitário da Canção da TV Tupi, que revelou Ivan Lins, Gonzaguinha e Aldir Blanc; o de música carnavalesca, o do violão, etc. Até um festival de presidiários houve...

O OVO DE PÁSCOA DA TRIVIALIDADE MODERNA

Em 68, a saturação era inevitável. Aquela geração já cumprira seu processo de afirmação, renovando a estética musical e ajudando a sepultar os valores rígidos da sociedade patriarcal (que cederia lugar à amoral sociedade de consumo, já que a outra possibilidade, de caráter revolucionário, foi contida por um terrorismo de estado que, ninguém se engane, foi tão brutal quanto o do Chile, Argentina e outros países-irmãos).

"Quando os políticos estavam ameaçados -- explicou certa vez Chico Buarque -- a música ocupou um espaço que não era dela. Depois todo mundo pôde falar novamente, ressurgiram as oposições articuladas, fazendo com que o papel do músico como porta-voz, como messias, diminuísse. Em certo momento, shows substituíram comícios. Hoje, felizmente, há liberdade para todo mundo se manifestar, então o artista não precisa preencher essa função."

Se Chico Buarque gostou de se ter livrado dessa carga, Gilberto Gil já deu declarações em que recordava os velhos tempos com simpatia: "Não vamos mais nos defrontar com aquele talento nu, selvagem, como tribos que invadiram a cidade. Não existirão outras afirmações como a nossa -- minha, de Caetano, da Bethânia. Há embriões de talento real nas pessoas que estão aparecendo agora, no meio desse ovo de Páscoa da trivialidade moderna. Mas, a coisa já nasce com características de produto. O que vier daqui pra frente, virá em contêineres, dentro daquelas caixas superarrumadas".

* Celso Lungaretti, jornalista e escritor, foi crítico de música e cinema na década de 1980, tendo escrito este artigo em 88 para a Agência Estado


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