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Crônico de Brasil:
uma vergonha nacional.
Bandidos analfabetos mas rigorosamente organizados e competentes.
Luís Peazê *

Um dia para ficar na história da nação. Quarta-feira 27, quatro dias do final de 2006, bandidos aquartelados em presídios de segurança máxima comandam postos avançados em morros do Rio de Janeiro e patrocinam uma sequência de atentados terroristas na Cidade Maravilhosa. Segundo uma reportagem de TV, um bilhete deixado por esses bandidos, num dos 12 pontos estratégicos de ataque, esclarece as razões dos incêndios de ônibus e automóveis, rajadas de metralhadora contra delegacias e guaritas policiais e assaltos em bando sobre elevados.
Diz o suposto bilhete dos bandidos que os ataques são uma represália ao apoio da governadora do estado às "mellissias" que protegem os moradores dos morros. Esses bandidos notoriamente analfabetos se referem às milícias instituídas nas favelas, por policiais da ativa, ex-policiais, bombeiros, seguranças e indivíduos de atividades diversas, que, cansados da incompetência da Secretaria de Segurança do Estado e, por extensão, de sua polícia militar, resolveram prover suas comunidades com a segurança contra o poder constituído pelo narcotráfico. E, para tornar mais complexo ainda o problema, sabe-se que essas milícias promovem a extorsão de seus protegidos (no comércio irregular de serviços de utilidade pública tais como gás, luz, TV a cabo, Internet, transporte alternativo, etc) criando um cenário criminoso dentro de um cenário já minado pelo crime à exaustão. Analfabetos sim, mas rigorosamente organizados, e competentes - bandidos e milícias.
Efeito retardado (mas nem tanto), um dia após os atentados, é estarrecedor o fato que vem à público da boca dos responsáveis oficiais pela segurança na cidade, de que a sua "inteligência" tinha conhecimento de que o terror seria deflagrado antes do fim do ano, uma reprise do que acontecera na Terra da Garoa, São Paulo, meses atrás.
Tudo isso deixa perplexa, desarmada, indefesa uma população que viveu aos sobressaltos e insegura o ano inteiro, com relação aos rumos do país como um todo; pelos escândalos na política, no próprio núcleo duro do governo Lula, no Senado, no Congresso e até no sistema judiciário; pela tentativa de aumento de salário abusivo dos senadores e deputados; pela incompetência da administração do sistema de controle de tráfego aéreo, que culminou com a morte de centenas de pessoas; com a falta de respeito das companhias aéreas expondo passageiros à humilhação e perdas morais e materiais nos aeroportos; enfim, a lista de desgoverno é interminável, mas não bastasse isso tudo, somam-se as enxurradas que provocam enchentes na mal administrada cidade e arredores (pobres) tornando a vida das suas populações um caos, surge esta bomba de fim-de-ano: vários ônibus e automóveis queimados, pessoas mortas, pessoas severamente vitimadas, postos policiais acintosamente metralhados.
Na imprensa internacional lê-se sobre a guerra no Iraque, um lugar comum, e vem da Somália a notícia da sua guerra civil que se arrasta por quinze anos, será que essa imprensa abre manchetes mundo afora de que no Brasil um massacre civil, moral e físico, está em franco progresso? Não, nossas notícias são departamentalizadas, pontuais, e há inclusive algumas tendenciosas sobre uma suposta popularidade positiva do nosso Presidente da República, tido como líder atual da América Latina. Um homem que admite publicamente que "caixa 2" em campanha política é normal, que não sabe o que seus homens de confiança fazem (roubam) ou deixam de fazer na sala ao lado da sua, e outras barbaridades. Essa imprensa destaca também, mas em pequenos cantos de seus periódicos, que no Haiti a Força de Paz da ONU, liderada pelas Forças Armadas Brasileiras, reconduz o país à estabilildade política e social, mas sabe-se que ela, essa imprensa, não destaca que aqui no Brasil as suas Forças Armadas são inúteis, desmazeladas, um desperdício de dinheiro público, de consumo de riqueza de seus contribuintes.
Ironicamente na quinta-feira, quando a cidade vive uma atmosfera de medo, insegurança e sofrimento pelas perdas humanas nos ataques covardes daqueles bandidos aquartelados nos novos presídios de "segurança máxima", a governadora e autoridades (expressão indecente) participam solenemente da implosão espetacular do mais antigo e obsoleto presídio da cidade. Uma implosão da moral, ética e do respeito à família brasileira, encarcerada pelo lado de fora dos presídios modernos. O "Frei Caneca" vai abaixo com salva de palmas e ovação. Ali foram executadas muitas penas de morte, abolidas no Brasil quando o nosso Imperador ficou envergonhado por ter descoberto que um certo fazendeiro fora executado injustamente. Uma vergonha nacional.
Luís Peazê é escritor e jornalista (MTB 24338) e tirou a foto que ilustra essa crônica da janela de seu apartamento, onde ficou ilhado, metade do dia. Onde mora, sempre que cai uma chuva ininterrupta de trinta minutos, Peazê e seus vizinhos convivem com enchentes como esta, entra ano sai ano. Pura falta de respeito da Prefeitura para com os seus contribuintes.
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