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Publicado na Tribuna da Imprensa, 21.12.2006
A urgência de mudar o rumo
Adriano Benayon* - 19.12.2006
O que continua crescendo são as transferências de recursos para o exterior, a
deterioração política, o arrasamento cultural e a manipulação ideológica. Ou
seja: enquanto se agigantam os males socioeconômicos, mingua o entendimento de
suas causas. Ora, diagnóstico errado significa campo para a doença agravar-se.
O pior é que as questões nacionais, quando discutidas, o são em meio à
desinformação e com as atenções voltadas para a superfície. Ademais,
provocam-se divisões entre brasileiros, tais como a criada com a indústria de
indenizações milionárias em favor de opositores aos governos militares e a
tendência a pôr no banco dos réus os acusados de autorizar e de praticar
torturas, como se está fazendo na Argentina.
Sintomático desse quadro é o "affaire" Ustra. Centenas de oficiais da reserva
compareceram a desagravo ao Cel. Ustra, em Brasília, movidos pelo sentimento de
ser ele e eles injustiçados. Por desinformação ou pouca atenção às questões
nacionais, escolheram como orador o Sr. Jarbas Passarinho, ex-ministro da
Educação do acordo MEC-USAID e ex-ministro da Justiça que, a pretexto de
assentar indígenas ianomâmis, entregou riquíssima parte do território nacionalà oligarquia estrangeira, crime tipificado no Código Penal Militar.
Há também o espírito de corporação, nutrido por convicções como: 1) o movimento
de 1964 teria salvo o Brasil do comunismo; 2) os governos militares
demonstraram competência muito superior aos dos da Nova República,
comparando-se as taxas de crescimento do PIB. De outra feita discutiríamos o
que há de certo e de errado nisso. No imediato, temos de alertar que
brasileiros estão sendo jogados contra brasileiros, por meio da polarização"direita-esquerda".
A quem interessa aprofundar a cisão, a não ser aos grupos mundiais hegemônicos
que intensificam o saqueio das riquezas do País? Em 1964, o resultado foi pôr
a política econômica a serviço da ocupação total do mercado brasileiro pelas
transnacionais. Sob o comando de Roberto Campos, indicado a Castelo Branco pela
oligarquia anglo-americana, foram inviabilizadas muitas das melhores empresas
nacionais. Nova dizimação ocorreu de 1979 a 1983.
Nos últimos 50 anos, a Fazenda, o Banco Central etc. nunca saíram das mãos da
oligarquia financeira mundial, mas, à exceção de 1964 a 1966, os governos
militares apresentam balanço menos desfavorável que os da Nova República no
campo econômico e social. Estes se subordinaram ao "serviço da dívida", dando
seqüência à política de Delfin, sob Figueiredo, consolidada a partir de 1988,
com fraude na Constituição para favorecer o serviço da dívida.
Que quer dizer tudo isso? Que, depois de ter suscitado a mudança do regime e de
ter passado o controle dos meios de produção às transnacionais, o sistema de
poder oligárquico estrangeiro pôde ampliar, mais profunda e rapidamente, sua
máquina de sugação de recursos, com a pseudodemocratização dos anos 80. As
eleições dependem de recursos financeiros, mais concentrados que nunca, e dos
meios de comunicação. O que restava de autodeterminação foi cassado por meio da
urna eletrônica sem voto impresso.
Muitos oficiais das FFAA constatam o caos presente, mas se enganam ao pensar ele
que ele: começou a ser gestado em 1985; decorreu do sistema democrático (que não
existe); foi causado por políticas da esquerda. Nem Sarney, nem Collor, nem
Itamar, nem muito menos FHC e Lula, são de esquerda. Estes dois confirmam a
definição de Karl Mannheim (ideologia = tese a serviço de interesses).
Pertencem ao partido contrário à independência nacional, reprovado por Barbosa
Lima Sobrinho.
Intelectuais ligados a serviços secretos estrangeiros dizem que Lula adota
estratégia gramscista, com o objetivo de implantar um regime socialista. Muitos
militares lhes dão crédito, a maior parte deles já na Reserva ou reformados, mas
isso pode ser questionado, pois, para os petistas os interesses pessoais estão
acima de qualquer projeto, e falta-lhes estofo para enfrentar os magnatas.
Como quer que seja, o estraçalhamento da nacionalidade tem de ser sustado. O
País está sendo não apenas espoliado, mas descaracterizado, com deliberada
deformação cultural e de valores, a cargo do marketing transnacional, cuja metaé criar um povo de escravos. O importante é que ainda há civis e militares
conscientes, que hão de fazer reverter esse processo.
* benayon@terra.com.br. Doutor em Economia. Autor de "Globalização versus
Desenvolvimento". Editora Escrituras: www.escrituras.com.br
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